Sara tinha 17 anos quando foi condenada a prisão perpétua por matar o homem que a violou e traficou. 27 anos depois, foi perdoada

6 jul, 20:42
Sara Kruzan (California Department of Corrections/Reuters)

Norte-americana foi abusada e traficada desde os 11 anos e passou mais de duas décadas na prisão. O perdão só aconteceu na última sexta-feira

Sara Kruzan tinha 11 anos quando começou a ser abusada sexualmente por George Howard, um homem 20 anos mais velho. A partir dos 13, foi forçada a prostituir-se nas ruas da Califórnia, nos Estados Unidos. Aos 16, após cinco anos de exploração e tráfico sexual infantil, alvejou fatalmente o agressor num motel em Riverside - alegadamente, no contexto de mais um episódio de violência sexual. Foi julgada como adulta e condenada a prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, quando tinha apenas 17. Esta sexta-feira, aos 44 anos, Sara foi finalmente perdoada pelo governador da Califórnia. É o "libertar destas correntes invisíveis que não sabia que ainda estavam agarradas a mim", confessou ao Los Angeles Times, um dia após a decisão. 

O caso beneficiou de uma forte exposição nas redes sociais e divulgação por parte de grupos ativistas. Mais do que um símbolo de resistência perante a injustiça, Sara veio a tornar-se um rosto incontornável da necessidade da reforma do sistema prisional, sobretudo no que respeita ao tráfico sexual infantil. Sucederam-se petições e manifestações organizadas em seu nome, que mereceram o apoio de celebridades como as atrizes Demi Moore e Mira Sorvino e que poderão ter contribuído para uma primeira vitória. Em 2011, o também ator e então governador Arnold Schwarzenegger comutou a sentença de prisão perpétua para 25 anos - abrindo, assim, a possibilidade de liberdade condicional. Em 2013, o governador democrata Jerry Brown permitiu que Sara saísse em liberdade após cumprir 18 anos de prisão. 

Já no exterior, fez do ativismo uma missão de vida. Denuncia um sistema corrompido, sem capacidade de identificar "a complexidade do trauma" e julgá-lo de forma apropriada, em particular se envolvidos arguidos menores de idade. Fala por experiência própria - foi julgada como adulta com apenas 17 anos e não lhe foi permitido apresentar provas das agressões e abusos cometidos por George Howard. Mas não só. Espera, também, que o seu caso possa vir a ter "um efeito em todas as outras pessoas que se identificam com diferentes elementos" daquilo que experienciou. 

O trabalho ativista a que se dedicou em liberdade poderá ter contribuído para a declaração de perdão divulgada no passado dia 1 de julho. No documento, é salientado não se pretender "minimizar ou perdoar a conduta ou o mal causado", que resultou na morte de uma "vítima", mas reconhecer "o trabalho que tem feito desde então para se transformar". O governador Gavin Newsom atesta que Sara vive agora "uma vida responsável e demonstra a sua aptitude para a restauração dos seus direitos civis e responsabilidades". 

Sara Kruzan, numa foto não datada divulgada pelo Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia.  (California Department of Corrections via AP, File)

Num comunicado partilhado com o The New York Times, Sara relata sentir "um fluxo esmagador de emoções: acima de tudo, espanto e euforia, mas também choque e uma sensação de luto ao pensar em tudo o que conduziu até este momento". 

"Nunca vou esquecer o que aconteceu naquela noite, mas estou imensamente grata por sentir algum alívio do fardo da vergonha e estigma social", conclui. 

O seu trabalho ativista, com uma forte componente pessoal, passou pela publicação de um livro de memórias e confissões, intitulado "I Cried to Dream Again: Trafficking, Murder and Deliverance" (em português, traduzível como "Chorei para Sonhar Novamente: Tráfico, Homicídio e Entrega"). Na obra, descreve uma infância solitária e conturbada, em que viu o pai em apenas três ocasiões e foi criada pela mãe toxicodependente. Sofreu a primeira violação aos cinco anos, por parte de um dos namorados da mãe, e foi expulsa de casa aos 11, quando requereu hospitalização por uma tentativa de suicídio.

Foi com esta idade - e neste contexto - que conheceu George Howard, ou "G.G.", em que inicialmente confiou como um pai adotivo. "Ele era como uma figura paternal", explicou, num vídeo de YouTube entretanto tornado privado. "Falava comigo, levava-me a sair, dava-me prendas luxuosas e fazia todas estas coisas de graça." 

Os norte-americanos que acompanharam o caso aplaudem este desfecho, mas garantem que os motivos de luta persistem. "É francamente revoltante que ela tenha sido sequer condenada por este período de tempo, dada a longa história de abuso e tráfico", fez notar Lenore Anderson, fundadora da associação Californianos para a Segurança e Justiça. "Ela era uma miúda negra de um bairro problemático", acrescenta Nikki Junker, diretora do grupo "With More Than a Purpose", que representa vítimas de tráfico sexual. "Ninguém quis saber." 

Libertadas as "correntes", Sara está agora determinada em fazer as pazes com o seu passado: a infância traumática, o julgamento que a encarcerou durante décadas e a luta incessante pela liberdade. Por si, mas também pela filha pequena - a quem promete proporcionar a infância tranquila e protegida a que não teve direito. 

"Quero seguir em frente com amor? Ou quero seguir em frente com medo, ódio e dor?", reflete, no comunicado partilhado com a imprensa. "Agora, quero seguir em frente com amor. E é preciso muita coragem para o fazer." 

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