O recuo da Rússia na Ucrânia não vai salvar a Europa da recessão este inverno

CNN , Análise de Julia Horowitz
17 set, 21:00
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

As tropas ucranianas lançaram um impressionante ataque nos últimos dias, recuperando cerca de 8.000 km2 do seu território a uma velocidade que poderá forçar o presidente russo Vladimir Putin a reconsiderar a sua estratégia e objetivos nesta guerra que dura há já seis meses.

No entanto, mesmo que o conflito continue a oscilar a favor da Ucrânia, é pouco provável que a Europa escape a uma recessão este inverno, dada a crise energética desencadeada pela invasão de fevereiro.

“Não creio que de repente a Ucrânia empurre as forças russas para fora do seu território, a guerra termine, os fluxos de gás russo para a Europa sejam retomados [e] os preços baixem”, afirmou Neil Shearing, economista chefe do grupo na Capital Economics. “Isso simplesmente não vai acontecer.”

Os custos de gás natural na Europa caíram quase 50% após terem atingido um novo recorde em finais de agosto. Caíram 20% só na semana passada, à medida que as tropas da Ucrânia avançavam. Mas ainda são cerca de 460% mais elevados do que há um ano, na sequência do anúncio da Rússia de que iria fechar o gasoduto Nord Stream 1, crucial para o abastecimento europeu.

Também ainda não são previsíveis os próximos movimentos de Putin, à medida que as suas forças se retirarem. Poderá cortar o restante fornecimento de gás, que continua a passar pela Ucrânia, à Europa, agravando a crise energética da região, ou tentar reverter a situação de uma forma ainda mais preocupante, como a chantagem política, se se sentir encurralado.

“Devemos ter alguma humildade sobre a nossa capacidade de prever o que vai acontecer”, afirmou Shearing.

A Europa tem-se apressado a acumular reservas de energia para que as famílias e as empresas possam manter o acesso à energia e ao aquecimento à medida que o tempo se torna mais frio. O esforço tem sido bem-sucedido até agora, com instalações de armazenamento a 84% da capacidade, embora a um enorme custo.

Os governos também lançaram generosos pacotes de apoio para tentar proteger os consumidores e as pequenas empresas dos efeitos do aumento dos preços. O Reino Unido e a Alemanha, juntamente com outros países da UE, anunciaram mais de 500 mil milhões de euros em subsídios para despesas e outras intervenções destinadas a atenuar o impacto.

Ainda assim, uma contração da atividade económica nos próximos meses parece inevitável, avisam os economistas. A produção no Reino Unido estagnou nos três meses até julho, de acordo com dados divulgados na segunda-feira. Entretanto, o Instituto Ifo da Alemanha reduziu a sua estimativa de crescimento na maior economia da Europa.

“Estamos a caminhar para uma recessão de inverno”, afirmou, na segunda-feira, Timo Wollmershäuser, o responsável do instituto para as prospeções para o futuro.

A maioria dos analistas pensa que a economia europeia se irá contrair no último trimestre de 2022 e no primeiro trimestre de 2023. O que acontecerá depois disso permanece incerto.

Tudo se resume ao gás

A dependência da Europa do gás natural da Rússia, embora tenha diminuído este ano, deixou-a vulnerável à medida que o mercado vive uma volatilidade sem precedentes.

A Rússia está agora a fornecer 78% menos gás à região em comparação com a mesma época no ano passado, de acordo com Kaushal Ramesh, responsável pela análise do abastecimento de gás da Rystad Energy.

Os preços subiram em resultado disso, uma vez que os compradores europeus percorreram o mundo em busca de fontes de abastecimento alternativas. E o custo da energia, que disparou, alterou de forma dramática as perspetivas económicas, elevando bastante as despesas de habitação, levando as pessoas a ter de diminuir outros gastos, e forçando a indústria pesada a fechar fábricas.

“Os cortes no fornecimento de gás da Rússia durante o verão e os drásticos aumentos de preços que provocaram estão a causar o caos na recuperação económica após a covid-19”, referiu Wollmershäuser. “Não esperamos um regresso à normalidade antes de 2024.”

O indicador da situação económica ZEW na Alemanha, que é sempre atentamente observado, voltou a cair em setembro, segundo dados divulgados na terça-feira, um sinal de que as expectativas para a economia se apresentam cada vez mais sombrias.

“As perspectivas para os próximos seis meses pioraram ainda mais”, afirmou Achim Wambach, presidente do ZEW. “A perspectiva de escassez de energia no inverno tornou as expectativas ainda mais negativas para grandes setores da indústria alemã.”

A desaceleração económica na China é também uma má notícia, acrescentou. Uma crise imobiliária e as contínuas restrições da covid-19 podem pesar sobre as exportações alemãs.

Carsten Brzeski, responsável global da investigação macro do ING, referiu que o sucesso da contraofensiva da Ucrânia “mostra que ainda há uma pequena probabilidade de um cenário positivo neste oceano de perspectivas económicas negativas”.

Ainda assim, advertiu para o facto de que é “difícil prever qualquer cenário em que os preços da energia desceriam significativamente nos próximos meses”.

Ramesh da Rystad Energy prevê enormes riscos de que a pressão sobre os preços do gás possa voltar. Desceram na última semana na esperança de que a União Europeia possa anunciar em breve uma forte intervenção no mercado. Mas as preocupações fundamentais sobre a oferta e a procura não mudaram, e uma menor liquidez no mercado significa que são possíveis grandes oscilações de preços em qualquer direção.

“Não estamos num caminho sem saída para o fundo, no que diz respeito aos preços”, disse Ramesh. "Há muitos aspetos positivos, do meu ponto de vista.”

O que se segue

Muito depende do frio que se fará sentir ao longo dos meses de inverno. Se as temperaturas descerem substancialmente, e a procura de energia disparar, fazendo subir os preços, as condições económicas poderão deteriorar-se drasticamente.

Espera-se que a ação governamental suavize a crise. O Reino Unido prometeu que um agregado familiar britânico médio não pagará mais do que 2.885 euros pela sua energia durante os próximos dois anos. Também apoiará empresas, instituições de solidariedade social e organizações do sector público com os seus custos de energia durante os próximos seis meses, e possivelmente mais tempo. A Alemanha anunciou recentemente um pacote de 65 mil milhões de euros de apoio aos custos energéticos para as famílias e empresas.

Mas a maioria dos economistas pensa que o problema energético é tão profundo que mesmo um apoio de centenas de biliões de euros não será suficiente para contornar uma recessão. Também ainda não é clara qual a proporção dos compromissos assumidos que acabará por ser implementada.

“O apoio fiscal diminui a gravidade de uma recessão, mas não a afasta completamente”, disse a Shearing of Capital Economics.

À medida que os preços elevados da energia aumentam a inflação, também aumenta a pressão sobre o Banco Central Europeu, que na semana passada aumentou a sua taxa de juro de referência para uma dimensão sem precedentes, ao mesmo tempo que indica que se preveem mais aumentos. O aumento dos custos de empréstimo servirá como mais um arrastão para a economia europeia.

O Banco de Inglaterra também está a reagir de forma agressiva, não afastando restrições após ter previsto em agosto que o Reino Unido entrará em recessão até ao final deste ano.

No entanto, as opções são limitadas, na medida em que os bancos centrais procuram conter a subida dos preços. O BCE espera agora que a inflação atinja uma média de 8,1% este ano e 5,5% em 2023. O Banco de Inglaterra previu pela última vez que a inflação no Reino Unido atingirá um pico superior a 13%, embora essa estimativa possa ser revista em baixa à medida que a assistência governamental for sendo implementada.

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