Navios espiões russos andam a recolher informações em águas nórdicas

CNN , Li-Lian Ahlskog Hou, Allegra Goodwin, Anna Chernova e Vasco Cotovio
20 abr, 16:10
Homem envergando uma balaclava no convés do Almirante Vladimirsky, embarcação no centro de uma investigação que detetou uma frota russa de navios espiões suspeitos em águas nórdicas. Morten Kruger/DR

A Rússia tem uma frota de navios espiões a operar em águas nórdicas como parte de um programa de potencial sabotagem de cabos submarinos e parques eólicos na região, de acordo com uma investigação conjunta das televisões públicas da Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia.

As emissoras utilizaram a análise de dados, comunicações de rádio intercetadas e fontes de informação para mostrar como cerca de 50 barcos têm vindo a recolher informações nos últimos 10 anos, utilizando equipamento de vigilância subaquática para mapear locais-chave para uma potencial sabotagem, segundo a NRK da Noruega e a SVT da Suécia.

Os navios russos têm navegado em áreas de treino militar, importantes campos de petróleo e gás, pequenos aeroportos, cais de águas profundas e centros estrategicamente importantes para as Forças Armadas norueguesas, de acordo com a NRK. A investigação também disse que os navios russos aparecem subitamente após os exercícios da NATO. A Noruega e a Dinamarca são membros fundadores da Aliança Atlântica, enquanto a Finlândia aderiu no início deste mês - para desagrado de Moscovo - e a Suécia está a tentar seguir o exemplo.

Um navio no centro da investigação, o Almirante Vladimirsky, é oficialmente utilizado para expedições de investigação submarina, mas é, segundo o relatório, um navio espião russo. As televisões seguiram os movimentos do barco e descobriram que este viajou durante um mês por águas nórdicas com o seu transmissor desligado, para poder permanecer escondido, navegando perto de parques eólicos, bem como de áreas de treino naval das Forças Armadas suecas, informou a SVT.

Quando uma equipa de televisão da dinamarquesa DR se aproximou do navio no mar entre a Suécia e a Dinamarca, um homem envergando uma balaclava e farda militar surgiu no convés, parecendo estar armado com uma espingarda, como mostra a imagem captada pelas câmaras.

Homem envergando uma balaclava no convés do Almirante Vladimirsky, embarcação no centro de uma investigação que detetou uma frota russa de navios espiões suspeitos em águas nórdicas. Morten Kruger/DR

A investigação também afirmou que o navio de pesca russo 'Taurus', que entregou peixe à Noruega entre 2015 e 2022, apareceu em locais inusitados, dirigindo-se diretamente para campos de tiro militar e perto de bases militares onde todo o tráfego naval é proibido. Num caso, parece que o 'Taurus' parou de pescar e foi direto para a cidade de Ålesund, passando por um grande exercício da NATO na região de Trøndelag, informou a NRK.

A Rússia negou na quarta-feira as acusações contidas no relatório, tendo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descrito-as como "sem fundamento", após pedido de comentários da CNN.

"Vemo-lo agora muito claramente. A Rússia diz que a cooperação com o Ocidente terminou, agora é confronto", disse o chefe do Serviço de Informação Norueguês, Nils Andreas Stensønes, à NRK, não tendo respondido imediatamente a um pedido de comentário da CNN.

A investigação surge depois de funcionários dos serviços secretos holandeses terem alertado que a Rússia tentou obter informações secretas para preparar a potencial sabotagem de infraestruturas críticas na sua parte do mar do Norte.

"Vimos há alguns meses que navios russos queriam entrar na área onde se encontram os parques eólicos holandeses no Mar do Norte com a intenção de ver como funciona a sua estrutura de comando e controlo", disse aos repórteres Jan Swillens, chefe do Serviço de Informação e Segurança Militar Holandês (MIVD). "Isso foi uma ameaça. Foi a primeira vez que vimos um navio russo entrar na área dos parques eólicos para fazer o reconhecimento."

O investigador da Academia Naval Real Norueguesa, Ståle Ulriksen, que tem estado a ajudar na investigação, disse à NRK que acredita que poderá haver mais de 50 navios espiões russos em águas nórdicas. "Estamos a falar de um sistema muito grande. Uma frota bastante grande. Ao todo, estamos a falar de várias centenas", apontou.

A primeira de várias reportagens será transmitida na quarta-feira na DR da Dinamarca, na NRK da Noruega, na SVT da Suécia e na Yle da Finlândia.

As tensões diplomáticas entre Moscovo e Helsínquia aumentaram na sequência da adesão da Finlândia à Aliança. O país abandonou a sua posição de neutralidade de longa data para se tornar membro da NATO, uma vez que o apoio interno à adesão aumentou após a invasão russa da Ucrânia.

A adesão marcou uma grande mudança no panorama da segurança no nordeste da Europa, acrescentando cerca de 1.300 quilómetros à fronteira da Aliança com a Rússia.

Na altura, Moscovo advertiu que uma maior expansão da NATO não traria mais estabilidade à Europa e disse que aumentaria as suas forças perto da Finlândia se a Aliança enviasse quaisquer tropas ou equipamento para o novo país membro.

*Tara John contribuiu para esta notícia

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