“Àquela porta podia bater-se sempre”. Morreu "o senhor Rui": e agora, quem abre os braços aos receios e necessidades de Campo Maior?

Wilson Ledo , em Campo Maior
19 mar 2023, 21:51
Campo Maior. Foto: Wilson Ledo/Direitos Reservados

Nem sempre a tristeza é visível aos olhos. Porque, mesmo na morte, a vida segue. Campo Maior tem histórias sobre Rui Nabeiro para contar em cada esquina, não fosse esta vila alentejana a sua “pátria e terra”. Mas, quem aqui vive não esconde os receios de que o trabalho deixe de estar tão garantido em breve. Porque o senhor Rui tinha sempre filas de candidatos à porta, a quem respondia de viva voz. “Agora preenche-se a ficha”

A poucos metros de onde tudo começou. A travessa onde nasceu Rui Nabeiro leva ao largo da Câmara de Campo Maior. Num dos bancos, Luís Costa vê o filho brincar. Levam ambos um fato de treino cinzento. Pai e filho, a 19 de março de 2023. No dia em que a terra perdeu uma figura paternal. 

“Era o pai disto. Qualquer pessoa que precisava, recorria a ele. E tinha sempre trabalho”. Hoje Luís já não trabalha no universo Delta, mas por lá passou, na TecniDelta. Fala de um grupo que tem, em si próprio, a resposta às suas necessidades. “Se eles precisam de ferro, fabricam ferro”. 

E, em Luís, está o receio de todos os campomaiorenses: “o pior é daqui para a frente”, o não saber se as decisões que vierem a ser tomadas pelos descendentes vão assegurar o trabalho como outrora o patriarca assegurava. Lembra-se as filas que se criavam, todas as manhãs, à porta dos escritórios da Delta, à espera que o “senhor Rui” chegasse, na esperança de um trabalho. 

Aponta-nos o caminho da igreja matriz. A meio da tarde, as portas abertas. Um entra e sai permanente de gente. Escovas, vassouras, detergentes. Por mais que a idade seja avançada, nunca se espera a morte de alguém. Em especial, a morte de alguém como o “senhor Rui”. 

Trabalhos de limpeza na igreja matriz. As cerimónias fúnebres começam esta segunda-feira e acabam na terça. Foto: Wilson Ledo/Direitos Reservados

Entre trabalhadores da câmara, funcionários da Delta, fiéis e voluntários. Todos dão o que podem para que a casa da despedida esteja imaculada. Pediram a Conceição Rosado, a trabalhar num dos museus municipais, que aqui estivesse. E ela não hesitou. 

À sua volta pintam-se paredes, cimentam-se as escadas, tira-se o pó das portas da igreja. O corpo de Rui Nabeiro aqui chegará esta segunda-feira, pelo meio-dia. “Vem aí muita gente. E, claro, é como se recebêssemos visitas em casa. Queremos tudo impecável”. 

A notícia da morte trouxe rostos mais pesados, sim, mas revelou também a força do trabalho deste povo alentejano – a mesma força que Nabeiro reconheceu quando decidiu abrir a Delta, em 1961. E é o trabalho, sempre o trabalho, que preocupa quando se pergunta: e agora, como vai ser o futuro?

“As pessoas ficam preocupadas com o futuro. Sente-se um bocado de medo. Àquela porta podia bater-se sempre”, confessa.

Bife de lombo de vitela grelhado e canja com massa

João Camel observa as movimentações da porta do restaurante. A GNR até colocou cancelas para impedir o acesso. Mas ele, de casa cheia ainda às cinco da tarde, dá-se ao luxo da pausa. E a partir de amanhã, quando começarem a chegar todos aqueles que querem prestar uma última homenagem ao comendador, há comida para dar conta do recado? “Preparados não estamos, de certeza”. 

João Camel, dono do restaurante que diz ser a “segunda casa” de Nabeiro. Foto: Wilson Ledo/Direitos Reservados

Mas o Faisão, o restaurante que Rui Nabeiro o incentivou a assumir enquanto proprietário, vai dar o seu melhor. Às segundas, conta, depois de o fundador da Delta fazer a sua ronda habitual pelas empresas, costumava por lá passar. O bife de lombo de vitela grelhado fazia-lhe as delícias. E a canja, “com massa” – ou não fosse o empresário avesso ao arroz, que lhe lembrava o sabor às dificuldades da juventude.

“Fez de Campo Maior a sua pátria e terra. E, quanto mais velhinho, mais respeito lhe tinham”. Nos últimos tempos, a saúde de Rui Nabeiro não permitia tantas visitas. E a pandemia só veio dificultar tudo. Mas de uma coisa tem a certeza: “Ele trabalhava com a parte humana. Agora preenche-se a ficha”. Uma nova geração, uma nova forma de gerir, sem a proximidade que no passado imperava.

João Camel desdobra-se em histórias, até porque foi camarada do “senhor Rui” no Partido Socialista. Partilharam muitos momentos. Mas é sempre nas coisas mais simples que está a diferença. Como daquela vez em que, cansada dos toldos do restaurante já gastos, a mulher pediu a Nabeiro que os substituísse. “À tarde já lá estavam os novos”. 

O comendador, o ministro e a estátua de um deles 

A estátua de Rui Nabeiro, à entrada da vila, prolonga-lhe a presença. Neste domingo, colocaram-lhe uma grinalda de flores nas mãos. José Faria caminha na sua direção. “Sempre pedi a Deus que lhe desse saúde”. Ele que, apesar de tudo, nunca trabalhou na Delta. Mas não esconde o receio por todos os que conhece a trabalhar no grupo. “Como estava, não fica”. 

Às ruas desertas da terra que se rege pelos princípios da “lealdade e valor”, contrasta o jardim municipal. O sol abençoou a tarde do dia em que a vila perdeu o seu mais ilustre – mas que, dizem, se comportava exatamente da mesma forma ao lado do Presidente da República ou de uma campomaiorense que o abordasse na rua. Sempre disponível. 

Havia o comendador, sim. Mas também havia “o ministro” em Campo Maior. Era o marido de Adriana Paio, que louva as virtudes do falecido. “Ele não sabia ler, mas tratava de tudo”. Encontra nele semelhanças com Rui Nabeiro, a quem louva o intelecto, apesar da quarta classe. E não esconde o orgulho que é ter o neto a trabalhar na Delta. “Até o deixam ir a Portalegre estudar inglês”.

Mas a Delta também é parte da vida dela. O tempo de viúva e reformada é sempre elástico demais. Mas no projeto “Tempo para Dar”, promovido pela empresa, ela encontra muito com que se entreter. Fala vezes sem conta do “amigo imaginário”, uma atividade em que, em troca de uma moeda, os participantes têm direito a um presente. Ela própria faz os embrulhos. O dinheiro serve depois para as atividades. Como daquela vez em que foram a Lisboa, a um programa de televisão e acabaram a almoçar bacalhau na Expo.

Ao lado, Francisca Leandro vai concordando com a cabeça. A mãe, em Bruxelas, ficou “arrasada” com a notícia da morte. Mas a vida segue. Tem de seguir. Esta segunda-feira, o marido vai apresentar-se ao serviço, na Delta. Quanto ao futuro, logo se vê. “Há esse receio, sim”.

Manhãs de domingo

As memórias estão frescas em cada pessoa que pisa estas ruas, mesmo que o “senhor Rui” não as pisasse ultimamente com tanta frequência. Outrora, em domingos como este, mas muito diferentes deste, Rui Nabeiro ia pela manhã ao supermercado de que era dono, o “Alentejo”, mesmo junto ao jardim. A cada passo, uma conversa. Entretanto, o supermercado mudou de mãos e a coisa perdeu a graça.

“Então não havia de conhecer?”, responde António Roca quando se fala do antigo patrão. Foi segurança na Delta. E tem tanta história para contar, “tudo verdade”, permitisse o tempo. Rui Nabeiro, diz, marcava consultas em Lisboa e pagava motorista privado a quem tivesse doenças graves na terra. Pagou também muitas placas de dentes. Para ter sorrisos abertos, rasgados, como o dele. Gestos que, na terra, se sabe bem que não se repetem. “É tudo uma mudança”.

“Bebés Delta”. E sonhos alimentados a café

“Não quer um café?”. Não aceitar, em Campo Maior, é quase uma ofensa. Mas não, que o dia já vai longo. Xavier Gonçalves quer que tudo esteja na perfeição para falar do “ídolo” que era Rui Nabeiro. “É como se fosse uma pessoa da família, como se estivesse sentado à nossa mesa”. E estava mesmo, nos logotipos da Delta.

Quis o destino que, no dia desta notícia triste, Xavier Gonçalves estivesse a passar o fim de semana em Campo Maior. “Mas até costumava dizer à minha namorada que, no dia em que senhor Rui morresse, eu podia estar na Austrália, que vinha para aqui”.

“Costumo dizer que sou um bebé Delta”. Porque foi a Delta, o emprego do pai, que lhe permitiu o acesso a um outro mundo, ao estudo. Xavier só tem 25 anos mas sabe histórias sem parar sobre Rui Nabeiro. Como aquela vez em que ele, sabendo que ia emprestar dinheiro a um homem com fama de má pagador, saiu de lá com um sorriso. Porque, afinal, só lhe tinha pedido metade do que estava à espera.

Foi por causa do “senhor Rui”, pela sua “influência” e doações de equipamentos, acredita, que o hospital mais próximo, em Elvas, ainda não fechou. Mas, com a ausência definitiva do empresário, teme-se que muita coisa possa mudar por aqui. Incluindo as oportunidades de emprego qualificado, com a possibilidade de ser passado o centro de decisões para Lisboa, a cidade de Rui Miguel Nabeiro, o neto que está à frente do império. “Tínhamos sempre uma porta aberta: a do senhor Rui”.

O amigo, Duarte Vives, concorda. Foi pela Delta, pela possibilidade de um emprego qualificado, que voltou à terra natal, após estudar em Coimbra. Ainda há três semanas, esteve com o patrão. “Aos 91 anos, passava a mensagem de que ainda tinha muito para fazer”. Mas, nos últimos tempos, a agenda outrora cheia foi-se esvaziando. Porque Rui Nabeiro tinha uma prioridade: a mulher, Alice, que estava “doentinha”. Pedia desculpa a todos por se ter de ausentar mais cedo. E todos compreendiam.

A casa

Na casa onde Rui e Alice construíram a vida, a poucos metros do jardim municipal, o sol do final de tarde bate ainda no telhado. No jardim, quatro cadeiras brancas, bordadas no ferro, esperam vazias. Os estores do andar de baixo estão corridos até meio. Multiplicam-se os vasos com flores e plantas.

Esta segunda-feira, Rui Nabeiro não vai cumprir o ritual na íntegra, por muito que o percurso fúnebre procure recriar o itinerário habitual pelas empresas. O empresário já não vai cruzar o portão de casa, e atravessar a rua, ali entre as seis e as sete, em direção ao escritório, para confirmar os preços do café. Nem regressar, pouco tempo depois, para o pequeno-almoço com o amor de sempre. 
 

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