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“Mesmo que desapareça o homem, fica aqui o trabalhinho”. Rui Nabeiro, 1931-2023

19 mar 2023, 11:30

Morreu o “senhor Rui”. O empresário que, aos 91 anos, ainda se levantava cedo para confirmar os preços do café. Na Delta, bebia-o todos os dias. Afinal, havia que provar o império que deixou para a família: de sangue e de Campo Maior.

Rui Nabeiro tinha duas grandes paixões: o café e Alice, a esposa. Todos os dias fazia questão de cultivá-las. Ao entrar na Delta, não abdicava de provar o que tinha para vender. Quatro a cinco cafés por dia, mesmo quando o coração já apelava à cautela. “Também provo o descafeinado, para ver se o lote é bom”, contava ao Negócios em 2015. Sem açúcar, ao contrário da juventude.

Uma juventude de raízes humildes e trabalho. Aos 12 anos começou a meter mãos à obra na mercearia dos pais, num tempo em que a raia era local de contrabando. Após a morte do pai, aos 17 anos, assumiu o negócio da torrefação.

O cheiro do café entranhou-se nele e em Campo Maior. Foi o tio Joaquim que trouxe a ideia de Espanha. Foi para “matar saudades e em homenagem” ao tio, disse ao Expresso em 2016, que manteve a marca Camelo no grupo até aos dias de hoje.

O “senhor Rui”, como era chamado na terra que o viu nascer, a 28 de março de 1931, numa travessa que vai dar à Praça da República, onde está a Câmara Municipal, sempre preferiu este tratamento. Chamavam-no de comendador, mas ele preferia “senhor Rui”. “Nasci humilde”, argumentava.

Provas da simplicidade de um homem que começou como moço de recados e acabou a criar um império de milhões. Mas que ficava arrepiado sempre que comia arroz, mesmo nos melhores restaurantes. Lembrava-lhe outros tempos, mais duros, em que esse era o único alimento.

Um homem de hábitos

Nabeiro era um homem de hábitos. Levantava-se todos os dias às seis da manhã. Seguia para a Delta, para acompanhar o andamento das bolsas e seguir, no contacto com os negociadores de matérias-primas, a evolução do preço do café. E ainda para negociar com os fornecedores. Nos últimos tempos, com a “mulher doentinha”, contou ao Negócios em 2021, voltava para casa para tomar o pequeno-almoço com ela.

Ao longo das décadas, foram muitos os que escreveram diretamente a Nabeiro a pedir-lhe ajuda. “Sinto a carência de tanta gente que me bate à porta”, dizia em 2015. Quase sempre a pedir emprego. E, sempre que foi preciso, ele devolveu com esse posto de trabalho. Fez sempre questão de responder a todos. E, talvez por isso, por essa atenção, em Campo Maior (e no país) todos o viam com respeito.

Nunca pensou apenas em si ou na empresa, garantiu nas muitas entrevistas que deu. “O ser humano, para mim, está à frente de tudo”, garantiu à TVI quando fez 90 anos. Quando a pandemia de covid-19 afetou o negócio, a Delta não avançou para layoff. Rui Nabeiro fez questão de arcar com os custos, para garantir que os trabalhadores mantinham o seu nível de vida.

A Delta é a empreitada da sua vida. Fundou-a em 1961, com três colaboradores. A marca foi uma sugestão de uma firma de patentes e marcas. “Uma delas era Delta, que tem uma boa acústica e uma expressão natural. Qualquer pessoa o diz, até os chineses”, disse ao Expresso em 2016. E a verdade é que o café da Delta chegou mesmo à China. Hoje exporta café para mais de 40 países, incluindo Angola, Cabo Verde, Bélgica ou Estados Unidos da América, empregando mais de três mil funcionários.

Rui Nabeiro fez questão de nunca deixar as rotinas da empresa, mesmo quando, em setembro de 2021, passou a liderança da empresa para o neto, Rui Miguel Nabeiro, que dele herdou o nome e a vontade de fazer crescer o império, que hoje sabe a café, azeite, vinho. Mas que abre também a porta ao lazer, ao apostar no turismo. “Apêndices da indústria do café”, brincava.

Família: de sangue e de terra

Até o chamavam “Dr. Nabeiro”. Mas ele recusava sempre o título, porque sabia que não tinha ido além da quarta classe. Os tempos duros, e a necessidade de trazer dinheiro para casa, obrigaram a adiar a formação. Em muitas situações, admitiu que gostava de ter ido mais longe. E depositou nos filhos e netos essa vontade. “Uma pessoa sem ambição não pode caminhar. A pessoa deve ser ambiciosa, mas essa ambição deve servir para criar. Criar é uma dádiva da providência de Deus”, referiu ao Negócios.

Por várias vezes tentaram comprar-lhe o negócio, mas Rui Nabeiro sempre rejeitou. Sempre quis guardar o negócio na família. Já era assim no pós-revolução do 25 de Abril, quando, no tempo das nacionalizações, havia conversas para ocupar a fábrica em Campo Maior. A “presença constante” impediu essa tomada. Mas também o respeito que tinha na terra.

Em 1986, chegou a fugir para Badajoz após ser acusado pelo Ministério Público dos crimes de fraude fiscal e associação criminosa, referente à falta de pagamento da taxa de importação sobre café vindo dos Países Baixos.

Mas, na terra, a população sempre esteve do seu lado, lembrando a dedicação e a proximidade enquanto presidente da câmara, antes e depois da liberdade de Abril. “Tenho mostrado resistência em muitas coisas, no convívio, na forma de estar na vida, porque sou um homem de esperança, que vê sempre uma luz acesa”.

A Alice do Rui

Um percurso que, em 1995, levou o então presidente da República, Mário Soares, a atribuir-lhe o grau de comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial Classe Industrial, e, já em 2006, Jorge Sampaio a distingui-lo como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

O coração mandava em muitas decisões. E o descanso não era fácil. “Não chego à cama e durmo”. Levava o tablet para ler os jornais e confirmar as cotações, as mesmas com que acordara. A mulher, Alice, não concordava com a rotina. Mas aceitava. Desde 1953 que partilhavam a vida juntos, após um amor nascido nos bancos da escola, que gerou dois filhos.

Rui Nabeiro dizia não sentir a idade. Mesmo depois de entrar nos 90, sentia muita vontade de fazer. Em 2015, sem receios, já falava na morte.“Mesmo que desapareça o homem, fica aqui o trabalhinho. Não é aconselhável parar”. O homem morreu este domingo, aos 91 anos, na sequência de uma doença respiratória grave. O legado continua.

 

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