Carlos III. O rei que esperou 70 anos para ser o que não queria

8 set, 19:54
Príncipe Carlos

Setenta anos de espera. Desde cedo que Carlos, como primogénito, se preparou para um cargo que o obriga a anular-se enquanto pessoa. De jovem tímido a rei, o dever coloca-se agora em primeiro plano. Esta é a vida do monarca mais velho a assumir o trono no Reino Unido. Um rebelde a quem a Coroa sempre pesou

“Não estou nem perto da forma como me retratam na Netflix”. A confissão é feita pelo Príncipe Carlos, no início deste ano, ao apresentar-se à política escocesa Anas Sarwar. Fala da terceira temporada da série “The Crown”, onde a sua figura ganha protagonismo.

Tímido, envergonhado, recatado. No pequeno ecrã define-se a imagem de um homem que, aos 20 anos, toma consciência de que a vida dele é totalmente moldada pela linha de sucessão. A relação com a mãe e rainha parece fria, distante, marcada por choques. Mas, apesar das garantias de Carlos, em toda a ficção, há uma ponta de realidade.

Dizem os biógrafos da família real que, ao assumir o trono aos 25 anos, Isabel II delega no marido (e nas amas) uma parte considerável da educação dos dois filhos mais velhos. A educação de Carlos não se faz nos salões de Buckingham, com tutor particular. O herdeiro passa por vários colégios. Mas há um que o marca mais do que os outros.

Notando a sensibilidade de Carlos, o pai decide enviá-lo para Gordonstoun, na Escócia, contra a vontade daquele que hoje se torna rei. Filipe queria que o filho – pelo destino que o aguardava - endurecesse o caráter na mesma instituição que ele. E aí nem o sangue real lhe poupa a dureza da vida adolescente num colégio privado: é alvo de bullying por parte dos colegas. Carlos pede para voltar a Inglaterra várias vezes.

Carlos com o pai (segundo adulto a contar da direita) em Gordonstoun, de onde não guarda as melhores memórias
Retrato de família. Carlos senta-se à esquerda (Getty Images)

Na sombra da mãe

A Coroa em primeiro lugar. E, com isso, a obrigação e o protocolo. Em 1969, por exigência da mãe, Carlos muda-se umas semanas para o País de Gales, para aprender a língua galesa, na Aberystwyth University. A monarquia encara nessas lições um sinal de boa vontade para com o país, deixando o herdeiro a postos para o discurso da cerimónia de investidura enquanto Príncipe de Gales, um título que gerava desconforto por não ser ocupado uma vez mais por um nativo, num período em que o nacionalismo galês efervescia. Chega a temer-se que Carlos alinhe neste movimento.

“As exigências face a um Príncipe de Gales mudaram, mas estou determinado a servir e tentar o meu melhor para responder a essas exigências”, afirma Carlos. E há uma frase, 53 anos depois, que está mais atual do que nunca: “O passado pode ser tanto um estímulo para o futuro quanto qualquer outra coisa”. Carlos é finalmente presente. A 8 de setembro torna-se rei. Ele que, em jovem, luta para sair da sombra da mãe, dos espartilhos da monarquia e ter a própria voz. Os especialistas na família real britânica admitem que a educação recebida leva o primeiro elemento na linha de sucessão a cultivar uma postura diferente de Isabel II, assumindo posições em público sobre os mais diversos temas.

Mas numa entrevista recente, ao fazer 70 anos, Carlos reconhece que tudo mudará quando assumir o trono. Ele terá de anular-se pelo bem de algo maior: a Coroa. “[Não sou] assim tão estúpido”, diz à BBC. E concretiza: “Não se pode ser o mesmo como soberano e como Príncipe de Gales ou herdeiro”. Carlos operará dentro de “parâmetros constitucionais”.

Carlos na cerimónia de investidura enquanto Príncipe de Gales (Getty Images)

Diana e Camilla

Quando a mãe é coroada Isabel II, a 2 de junho de 1953, Carlos está sentado entre a avó que acabara de enviuvar e a tia, a Princesa Margarida. Quando ele entrar na Abadia de Westminster, para ver o Arcebispo da Cantuária confirmá-lo como monarca, Carlos não subirá sozinho ao trono. Camilla, a paixão de uma vida, será rainha consorte - concretizando assim a vontade da matriarca falecida esta segunda aos 96 anos, com 70 de reinado, o mais longo na história do Reino Unido.

Camilla e Carlos conhecem-se num jogo de polo em Windsor e logo percebem que há algo que os une para lá desse gosto desportivo. Só que Carlos tem de servir na Marinha durante oito meses. E, quando volta, Camilla está noiva de outro. A amizade mantém-se. Carlos torna-se mesmo padrinho de um dos filhos.

Outra protagonista entra em cena. Diana. Começam a namorar em 1980, depois de um breve romance de Carlos com a irmã mais velha do clã Spencer. Tudo se precipita, aparentemente contra a vontade de Carlos, que honra o dever, cede à pressão mediática e desiste da história com Camilla.

Casamento de Carlos e Diana acompanhado por milhões em todo o mundo (Getty Images)

Ainda antes do enlace com Diana na Catedral de São Paulo, acompanhado pela televisão por 750 milhões de pessoas em todo o mundo, uma entrevista dita o princípio do fim. O casal é questionado se ambos estão apaixonados. Diana cora e diz “Claro”. Carlos segue-se com um “Seja lá o que for que signifique ‘estar apaixonado’”.

Em 1982, nasce William. Em 1984, Harry. Em 1986, a relação extraconjungal com Camilla Parker Bowles. O mau estar no casamento torna-se inegável, enche a praça pública e os tablóides. Em 1992, então primeiro-ministro britânico o anuncia a separação, que só viria a efetivar-se três anos depois. Carlos tenta reparar a reputação e deixa uma equipa filmar o seu quotidiano durante mais de um ano. O documentário tem o efeito contrário, ao afirmar que sempre foi “fiel e honrado”, até que o casamento ficou “irremediavelmente quebrado”. Diana, que também teve casos amorosos enquanto era casada, confirma tudo numa entrevista polémica: “Bem, havia três neste casamento, estava um bocadinho cheio”.

Diana, Carlos e os filhos Harry e William (Getty Images)

A morte de Diana, num acidente de automóvel em França, choca o mundo em 1997. Durante anos, Carlos vai gerindo com cautela a memória e a admiração pela "Princesa do Povo" antes de anunciar o amor de sempre com Camilla. Passam-se anos. O casamento dá-se em 2005, numa cerimónia civil onde Isabel II não marca presença. A rainha só aparece na outra cerimónia, religiosa.

Nos últimos anos, Camilla terá contribuído para a aproximação entre mãe e filho. Em 2012, no Jubileu de Diamante, Carlos agradece publicamente aos pais por “terem estado sempre presentes” e por inspirarem os herdeiros com o ser “dever e serviço altruístas”. Carlos começa a aproximar-se daquilo que sempre lhe esteve destinado: a Coroa. O rebelde conforma-se.

Casamento com Camilla, agora Duquesa da Cornualha (Getty Images)

A espera que acaba

Setenta anos de espera, a maior de sempre no Reino Unido para assumir o trono. Sabe-se que Charles Philip Arthur George é o próximo monarca desde os seus três anos. Nasce às 21:14 de 14 de novembro de 1948. Um novo Carlos nasce agora como rei. Carlos III é o nome escolhido. Mesmo que o nome próprio esteja cheio de más memórias na Coroa britânica, com um regresso ao século XVII, a um período de guerra civil e de afastamento da monarquia do poder.

Carlos é o mais velho monarca a assumir o trono. Para trás ficam décadas e décadas de trabalho ao serviço da Coroa. O homem que não gosta de desperdiçar comida, e até se ri das próprias orelhas, põe em segundo plano o trabalho de uma vida feita em espera.

Carlos representa a família real nas mais variadas iniciativas. É patrono de várias instituições

O legado do primogénito destaca-se pela voz ativa na defesa do ambiente e de uma agricultura biológica, logo na década de 1980, ainda esses temas não entravam na agenda do dia. Coloca as mãos na terra e lança uma linha de produtos orgânicos, a Duchy Originals. A medicina alternativa e a arquitetura tradicional fazem também parte da sua lista de interesses. Quando é inaugurada a nova ala da National Gallery, não poupa nas críticas: “parece uma grande corporação de bombeiros”.

No início deste ano, muito antes das polémicas com os donativos milionários vindos do xeque do Qatar e do clã Bin Laden, Carlos contrata sete artistas para pintar retratos de sete sobreviventes do Holacausto. É um dos exemplos que cultiva enquanto patrono de centenas de organizações. O gosto vem da juventude.

Na escola, interpreta pequenos papéis em clássicos de Shakespeare. Rouba a cena, dizem os relatos da época. O palco agora é outro. O tempo dirá se o reinado terá honras de reportório teatral. Por agora, mudará o hino: "God Save the King".

Príncipe Carlos assiste a um espetáculo de Shakespeare (Getty Images)

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