Gás, pão e carne (além dos combustíveis) em risco de encarecerem: as consequências em Portugal da invasão russa

24 fev, 23:03

Uma análise ao que pode acontecer direta e indiretamente no nosso país no curto e médio prazo

Alimentos, energia e soldados. Portugal vai sofrer, direta e indiretamente, consequências da guerra que se iniciou esta quinta-feira na Ucrânia, depois de tropas russas terem entrado no país, ultrapassando largamente uma intervenção militar nas regiões separatistas de Donetsk e Lugansk. Isso vai ter várias consequências para todo o mundo. Os analistas esperam para breve um aumento dos preços dos alimentos, como o pão ou a carne, mas também na eletricidade e para quem consome gás natural. Há ainda uma mobilização de tropas portuguesas, estando já destacados mais de 1.500 militares, alguns dos quais prontos para irem para a Roménia, país membro da NATO que faz fronteira com a Ucrânia.

Preços aumentam, mas quando?

A questão é mesmo essa: quando? Que os preços vão aumentar é certo e sabido e o ministro do Ambiente não negou esse cenário, nomeadamente nos preços da energia: “Quem usa diretamente gás natural vai sentir esse aumento porque é inevitável, Portugal não fixa esse preço, é o preço de uma ‘commodity’ [matéria-prima], que é fixado a nível mundial”, disse João Pedro Matos Fernandes. Essa será uma consequência direta do corte de relações económicas entre a União Europeia e a Rússia, que fornece, de acordo com dados oficiais, 41,1% do gás natural que chega à União Europeia. A dependência também chega ao petróleo: os 27 importam quase 27% daquela matéria-prima do país liderado por Vladimir Putin.

Veja-se o preço do gás natural TTF, que abriu esta quinta-feira em alta, atingindo mais de 100 euros por megawatt por hora no mercado neerlandês, onde registou uma subida de 29%. Esta matéria-prima, que não tinha excedido 100 euros desde 7 de janeiro, subiu 52% esta semana.

Além do impacto na indústria e nas famílias que a utilizam para aquecimento e outros serviços, o aumento dos preços do gás natural é a causa do aumento dos preços da eletricidade nos mercados grossistas em toda a Europa.

Já no petróleo, o barril de brent subiu acima dos 105 dólares (cerca de 94 euros), valores que não se verificavam desde 2014, curiosamente o ano da anexação da Península da Crimeia por parte da Rússia.

Esse valor-recorde é notado pelo secretário-geral da Associação Portuguesa De Empresas Petroliferas (Apetro), que admite à CNN Portugal que um aumento do preço dos combustíveis é expectável, uma vez que o preço da a matéria-prima de refinação, o crude, está a aumentar.

"Há uma escalada dos preços do petróleo e tudo vai depender da evolução da situação", afirma António Comprido, que lembra que não é só a situação de guerra, mas também as sanções que vão sendo aplicadas, que têm influência no processo.

De acordo com o responsável, a atual situação de guerra contribui para um "empurrão" no preço do petróleo, que se deverá manter alto até que a situação comece a estabilizar. "É natural que venhamos a pagar mais pelos combustíveis, aqui e em todo o mundo", conclui.

Perante isto, o Ministério do Ambiente garante que o abastecimento será sempre salvaguardado, mesmo perante uma interrupção do fornecimento russo: “A garantia do abastecimento do Sistema Nacional de Gás e do Sistema Petrolífero Nacional estão salvaguardadas, merecendo e tendo, necessariamente, o acompanhamento próximo e constante pelo Governo e demais entidades competentes”, lê-se numa nota do Governo - que destaca que apenas 10% do gás natural que chega a Portugal é proveniente da Rússia.

Questionada pela CNN Portugal, a EDP remeteu uma resposta para mais tarde.

Problemas também no sector alimentar

A lógica diz-nos que a guerra também vai levar a um natural aumento dos preços noutros sectores, a começar pelos transportes, o que deverá acionar uma reação em catadupa, provocando um aumento das matérias-primas, como é o caso do trigo, que disparou de uma comercialização a 740 dólares para 850 dólares em fevereiro (de 660 para 761 euros), em grande parte devido à tensão na Ucrânia.

À agência Lusa, o membro do conselho de administração da corretora ActivTrades CCTVM Mário Martins falou - em declarações prestadas antes do início da guerra - nas consequências que isso traria: "Se existir um conflito militar é provável que a subida se transforme no aumento extraordinário e talvez inédito, que causará muitas dores de cabeça a transformadores, mas principalmente aos consumidores”.

São essas dores de cabeça que refere o presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, Gonçalo Xavier, que à CNN Portugal fala num impacto que começa no trigo mas que se expande a todos os produtos: "Os cereais já estavam com crescimentos na ordem dos 10% e isto tem impacto em tudo. Para fazer farinha, mas também para as rações animais", refere, explicando que os efeitos vão desde o pão que compramos na padaria à carne que adquirimos no talho.

O responsável não quis fazer uma previsão da quantificação desses aumentos - até porque tudo "isto é muito imprevisível" -, mas disse que o esperado é que isso aconteça num mês, o tempo necessário para que as consequências se comecem a notar.

Já Henrique Tomé, analista da corretora XTB, destaca que “tanto a Rússia como a Ucrânia têm um papel importante no que diz respeito à exportação de cereais à escala mundial”, com “ambos os países a representarem cerca de 30% da exportação”, o que demonstra bem a dimensão que a guerra pode ter.

Além do trigo, também o milho pode ver os preços aumentarem, sendo a Ucrânia o sexto maior produtor mundial, responsável por 16% das exportações mundiais de grãos.

Portugal envia 1.521 militares - para já

O Conselho Superior de Defesa Nacional aprovou esta quinta-feira o destacamento de 1.521 militares para as forças de prontidão da NATO, alguns dos quais podem chegar à Roménia (país membro da Aliança Atlântica que faz fronteira com a Ucrânia) ainda no primeiro semestre.

De acordo com antiga secretária de Estado da Defesa Ana Santos Pinto, este é um destacamento que já deveria estar previsto e que faz parte dos compromissos que Portugal tem ao fazer parte da NATO. Não exclui um envio de mais tropas, mas diz que isso só deve acontecer caso a situação se torne ainda mais perigosa, nomeadamente com um avançar de tropas russas para países membros da NATO, como a Polónia, a Roménia ou os países do Báltico.

"Temos um compromisso com a NATO, Portugal faz parte da força de reação que pode ser agilizada e que tem de estar pronta a ser utilizada quando necessário", como é o caso, frisa.

A também investigadora do Instituto da Defesa Nacional diz que, a acontecer, o envio de mais contingentes portugueses terá de ser solicitado pela NATO aos seus Estados-membros, decidindo-se depois em conjunto que países podem enviar forças e quais as forças a enviar.

Na prática, diz Ana Santos Pinto, Portugal até pode, nessa situação, não enviar ninguém, mas a tradição diz que "Portugal disponibiliza aquilo que tem, como tem feito sempre". De resto, o nosso país contribui "há muitos anos" para a defesa aérea dos países bálticos, através do reforço de aeronaves F-16, algo que também tem feito na Roménia.

"Isto não é novo para as Forças Armadas portuguesas. Novo é o contexto", explica, garantindo que este aprontamento "não foi feito à pressa", sendo algo que está em preparação "constante".

De acordo com a investigadora, este envio de tropas portuguesas, bem como o destacamento de militares de outros países, tem como objetivo dissuadir as tropas russas, mostrando uma presença que vai para lá do terreno e que também se verifica no ar e no mar.

Sobre uma eventual participação ativa de soldados portugueses, Ana Santos Pinto diz que isso só deverá acontecer caso a Rússia ultrapasse as fronteiras ucranianas para qualquer um dos países que pertencem à NATO, até porque as tropas da Aliança Atlântica não têm jurisdição militar para atuar na Ucrânia, uma vez que aquele país não é Estado-membro da organização.

Existe ainda uma outra ameaça, para a qual Portugal já se está a acautelar, que é a possibilidade de surgirem ataques informáticos vindos de leste.

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