"Nem barulho nem silêncio: música!" Músicos manifestam-se esta tarde para demonstrar a importância do Stop

CNN Portugal , MJC
24 jul 2023, 11:06
Quase 300 músicos ficaram sem sala de ensaios com encerramento do Stop no Porto (Lusa/ José Coelho)

Esta segunda-feira, autarquia e inquilinos do Stop avaliam as várias hipóteses que estão em cima da mesa. Os músicos insistem que a melhor de todas é a que permite manter o Stop aberto, mas ainda há muitas questões por resolver. Enquanto isso, há duas manifestações marcadas, no Porto e em Lisboa, em solidariedade com os músicos do Stop

"Nem barulho nem silêncio: música!", "Um Porto pra turistas não tem casa prós artistas" "Turismo é monocultura, Stop é contracultura" - estas são algumas das palavras de ordem que a música Capicua propõe para a manifestação em defesa do Stop marcada para esta tarde.

Os músicos e lojistas do centro comercial Stop concentram-se a partir das 15:00 em frente à Câmara do Porto, onde decorrerá a reunião do executivo municipal, para demonstrar a importância daquele “polo cultural”, onde, na terça-feira passada, a polícia fechou 105 das 126 lojas por falta de licença de utilização. Os manifestantes deverão partir, pelas 19:30, numa marcha até ao centro comercial, espaço onde há mais de 20 anos diversas frações são usadas como salas de ensaio ou estúdios de músicos.

Foi marcada também para hoje uma concentração em Lisboa, a partir das 15:00, junto ao Teatro Nacional D. Maria II, divulgada na página da Manifestação em Defesa do Stop na rede social Instagram.

Depois do encerramento que deixou quase 500 artistas e lojistas sem ter “para onde ir”, logo na terça-feira centenas de músicos ocuparam durante cerca de cinco horas a Rua do Heroísmo em protesto

Percebendo que estava perante um problema de grandes dimensões, no dia seguinte a Câmara do Porto apresentou então duas soluções como alternativa ao centro comercial: a escola Pires de Lima e os últimos andares do Silo Auto. Para os músicos, ambos os espaços “carecem de condições para albergar toda a comunidade do Stop”, não as considerando como uma solução a curto prazo para o seu realojamento.

O presidente da Câmara, Rui Moreira, garantiu ainda que não autorizaria a construção de “nenhum hotel” no local do centro comercial, tendo rejeitado a existência de interesses mobiliários e defendido que o município teria comprado o Stop se os proprietários “pudessem e quisessem” vender o imóvel. "Nós não conhecemos nenhum projeto imobiliário para lá", assegurou o autarca.

A manifestação desta segunda-feira visava inicialmente reivindicar a “abertura imediata” dos 105 espaços selados pela Polícia Municipal, mas, na sexta-feira, Rui Moreira, admitiu que o espaço poderia reabrir desde que cumpridas medidas de segurança. Para voltar a funcionar, o Stop terá de ter em permanência um carro de bombeiros, com cinco operacionais, mas dificilmente poderá estar aberto mais do que 12 horas. Além disso, a autarquia disponibiliza-se a investir em meios de segurança (mangueiras e agulhetas) e dar formação aos utilizadores do espaço para que, em caso de incêndio, saibam como agir, adiantou, em conferência de imprensa, Rui Moreira.

A proposta de reabertura do centro comercial foi recebida com cautela pelas duas associações que representam os músicos  - a Alma Stop e a Associação Cultural de Músicos do Stop - que ainda estão a deliberar quanto à viabilidade da solução e o futuro do espaço. 

Com a proposta de reabertura em cima da mesa, o foco da manifestação passa agora por demonstrar “não só a dimensão e diversidade da comunidade” do Stop, como a importância daquele “polo cultural” para os artistas, lojistas e residentes no Porto, afirmaram, em comunicado, as duas associações.

"Requalificar o Stop é não só a melhor opção, como também a vontade de todos aqueles que o frequentam e desejam manter a sua essência intacta. Por estas tantas razões que apontamos, apelamos a todos que apoiem a causa com a urgência a que o problema obriga", lê-se no comunicado que convoca a manifestação de hoje.

"A grande vantagem do Stop é que existe", resume o músico Manel Cruz, num texto publicado esta segunda-feira nas redes sociais. "Conheço o Stop desde 2002, quando comecei a ensaiar em salas de amigos. Mas só em 2007 aluguei a minha primeira sala e aí construí o meu estúdio, já farto de ser expulso de salas de prédios de habitação e de ter de controlar as horas a que podia trabalhar. Dizia a um amigo que sempre me ajudou nas obras: A grande vantagem do Stop é que existe. Mas rapidamente aquele sítio se transformou para mim numa espécie de segunda casa. Ali partilhei som e amizade durante anos e percebi o que era fazer parte de um fenómeno sem par no contexto cultural do país." 

Neste texto, além de recordar a importância do centro para os músicos do Porto, alinhando com a opinião de muitos outros artistas, o membro dos Ornatos Violeta recorda também os esforços levados a cabo, desde 2018, pela autarquia em conjunto com os músicos e o representante dos proprietários tentar encontrar uma solução para a sobrevivência do espaço, garantindo as necessárias condições de segurança. Entre as dificuldades sentidas, Manel Cruz, que foi até 2021 um dos responsáveis da associação Alma Stop, admite que, mesmo perante o risco real de o centro fechar, nem todos os músicos e inquilinos estavam verdadeiramente empenhados no processo. "Existe quórum agora, milhares de pessoas se mobilizaram, e isso é ótimo e inspirador. Capitalize-se essa energia, mas que seja para encontrar uma solução", conclui.

"O Centro Comercial Stop, situado no coração da cidade do Porto, é um dos mais emblemáticos espaços culturais do país", dizem os músicos no comunicado. "Há mais de vinte e cinco anos que funciona como tal, altura em que as lojas foram progressivamente transformadas em salas de ensaio e estúdios, ainda que se tenham mantido alguns espaços comerciais. Desde então, passaram pelo Stop centenas - senão milhares - de músicos, professores e produtores de música, técnicos de som, produtores de eventos e muitas outras profissões relacionadas direta ou indiretamente com a indústria musical/cultural. Muitas destas pessoas acabaram por se fixar e fazer das salas os seus locais de trabalho, seja na vertente de ensaios, de gravações ou de ensino. O Stop foi também espaço de residência de projetos artísticos sociais e comunitários, bem como de intercâmbios europeus na área da cultura, e alberga sedes de várias associações culturais." É por isto tudo que vão sair à rua.

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