Técnicas "agressivas" e prioridade aos acordos "amigáveis": Wigdor, o escritório de advogados responsável pelo processo contra Nuno Lopes

CNN Portugal , MJC
22 nov 2023, 18:10
O advogado Doug Wigdor (Getty Images)

Dominique Strauss-Kahn, Harvey Weinstein e Sean "Diddy" Combs são alguns dos homens que foram processados por este escritório nova-iorquino, especialista em litígios laborais, assédio e agressão sexual e que se orgulha de conseguir avultadas indemnizações para os seus clientes

Wigdor é um escritorio de advogados com sede em Nova Iorque, nos EUA, conhecido sobretudo nas áreas de litígios laborais, assédio e agressão sexual. É este escritório que representa A.M. Lukas, a mulher que acusa o ator português Nuno Lopes de a ter violado em 2006.

Douglas Wigdor, o fundador do escritório é um nova-iorquino de 51 anos que começou por trabalhar como procurador em Long Island, antes de trabalhar como secretário do juiz do distrito leste de Nova Iorque, Arthur Spatt. Ingressou no escritório de advocacia Morgan Lewis & Bockius no final da década de 1990. Em 2003 criou uma sociedade com os seus colegas Scott Gilly e Kenneth Thompson. Após a saída destes, o escritório ficou apenas a chamar-se Wigdor. Além do fundador, a empresa tem 21 sócios ("partners") - um deles é Michael J. Willemin, o advogado que está a tratar da acusação a Nuno Lopes.

"A nossa missão é lutar agressivamente pelos nossos clientes que sofreram discriminação no emprego, assédio sexual ou abuso sexual. Os nossos advogados defendem tenazmente os nossos clientes em assuntos confidenciais e de alto perfil", lê-se no site da empresa. Os advogados da Wigdor têm reputação de terem grandes capacidades de negociação mas também de serem duros no tribunal. A empresa orgulha-se de já ter conseguido mais de 1,5 mil milhões de dólares em indemnizações para os seus clientes. 

"A Wigdor LLP tem estado na vanguarda do movimento #MeToo e os nossos advogados têm representado vítimas em muitos casos de assédio sexual e agressão sexual de alto perfil", diz a empresa. "Estamos orgulhosos de ter ajudado centenas de sobreviventes a alcançar justiça e responsabilização."

Foram eles, por exemplo, os representantes de Tarale Wulff, uma das três mulheres que testemunharam contra Harvey Weinstein durante o julgamento de agressão sexual em Nova Iorque, pelo qual ele foi condenado a 23 anos de prisão - um dos processos que esteve na origem do movimento #metoo. Em outubro, moveram um novo processo contra Weinstein em nome da atriz Julia Ormond, que denuncia uma agressão sexual ocorrida em 1995. Em 2012, foi a Wigdor que representou a empregada do Hotel Sofitel que acusou Dominique Strauss-Kahn de a ter violado. São também eles que representam Cassandra Ventura, a mulher que está a processar o rapper Sean "Diddy" Combs por violação.

Wigdor esteve envolvida na criação da Lei dos Sobreviventes Adultos de Nova Iorque e tem sido uma das firmas mais ativas na sua aplicação. A Lei dos Sobreviventes Adultos é uma lei do Estado de Nova Iorque que permitiu, ao longo do último ano, que adultos sobreviventes de crimes de má conduta sexual processassem os perpetradores – e as instituições que os permitiram – em tribunais civis, independentemente de há quanto tempo estes incidentes ocorreram. O prazo para interpor um processo ao abrigo desta lei termina esta quinta-feira.

"Somos inspirados pela coragem da nossa cliente para tentar responsabilizar o sr. Lopes. Como vimos repetidas vezes, a indústria cinematográfica deu repetidamente licença a homens como o sr. Lopes para se envolverem em agressões sexuais sem consequências. Graças à Lei dos Sobreviventes Adultos de Nova Iorque, podemos lutar pela tão esperada justiça e alívio que Lukas merece", disse Michael Willemin, no comunicado publicado no site da firma.

Na área do direito laboral, a Wigdor entrou com várias ações judiciais alegando um padrão generalizado de discriminação e retaliação nos escritórios e armazéns da Amazon; foi igualmente responsável, em 2019, por uma ação por discriminação de género e idade em nome de cinco ex-pivots de notícias da estação NY1; e por uma ação coletiva movida contra a Uber, uma vez que várias mulheres denunciaram violações, agressões sexuais e situações de violência de género por parte dos seus motoristas. No ano passado, o escritório abriu um processo de discriminação racial contra a NFL em nome do técnico Brian Flores.

Como se abre um processo por agressão sexual?

Antes de aceitar um caso, a empresa investiga bem os seus potenciais clientes para ter a certeza de que o caso será bem fundamentado. No site, o escritório aconselha os queixosos a reunirem todas as provas que possam ter - documentos, emails, mensagens, notas - e que tentem fazer uma cronologia o mais completa possível dos acontecimentos. "Não destrua ou apague quaisquer documentos ou informações que possam estar relacionados com o seu caso. Ao contar-nos os factos, partilhe todas as informações relevantes. Devemos conhecer o bom e o mau para desenvolver a melhor estratégia para representá-lo e evitar possíveis armadilhas. Depois de analisarmos as suas informações, os nossos parceiros reunirão e decidirão se podemos representá-lo e em que termos", avisa a empresa.

Só então, se o caso for aceite, é que será assinado um contrato de representação. Na maioria dos casos, os advogados não têm honorários pré-estabelecidos: "Recebemos uma percentagem da indemnização, se houver um resultado positivo. Se não receber nada, nós também não", explica-se no site. A percentagem recebida pelos advogados é geralmente de 30%. Este método permite que as pessoas estejam mais disponíveis para apresentar queixa, sem medo de terem despesas elevadas. Por outro lado, é também um estímulo para os advogados darem o seu melhor. 

A firma explica aos potenciais clientes que, antes de mais, haverá uma tentativa de resolução "de forma amigável e privada", ou seja, procurando estabelecer um acordo em que a outra parte assuma a responsabilidade (isto é, aceite pagar uma indemnização), evitando assim que se instaurem os procedimentos legais. "A Wigdor é conhecida pelas suas capacidades de negociação incomparáveis", afirma o escritório. "Embora os nossos advogados estejam sempre prontos para o julgamento, a grande maioria dos casos é resolvida antes de iniciarmos o litígio."

Recentemente, Leon Black, o fundador da gestora de ativos  Apollo Global Management, entrou com ações judiciais contra a Wigdor LLP, acusando a empresa de ter instaurado contra ele três casos de violação e abuso sexual sem quaisquer vestígios de prova. Black pôs em causa a ética do escritório, alegando que a sua estratégia é trocar “alegações escandalosas” por dinheiro. A Wigdor considerou o caso "frívolo" e considerou que a sua reputação não seria afetada por esta acusação.

Também no caso de Nuno Lopes foi tentado um acordo. A advogada Rute Oliveira Serôdio confirmou à CNN Portugal que recebeu em 6 de novembro, por correio eletrónico, uma comunicação do advogado de A.M. Lukas, Michael J. Willemin, a informar que a argumentista e realizadora norte-americana “pretendia que fosse Nuno Lopes a avançar com uma proposta de quantia monetária”. Esta seria "uma condição para evitar que a ação fosse interposta". "Ficou muito claro para todos, que a ação seria tornada pública se o Nuno Lopes não indemnizasse a sra. Lukas, e que publicidade seria dada à mesma, como foi”, sublinhou a advogada.

Nuno Lopes recusou negociar. "Não assume culpa alguma, nem pagará qualquer valor", explica a advogada. "Prefere defender o seu bom nome e honra, o que fará em Tribunal, ainda que no Tribunal Federal de Nova Iorque com os custos materiais inerentes."

De acordo com a denúncia, A.M. Lukas e Nuno Lopes conheceram-se a 28 de abril de 2006 numa festa após a estreia de um filme no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque. A.M. Lukas conta que pouco depois o seu corpo "começou a ficar estranhamente pesado". A realizadora pensa que terá sido drogada, uma vez que guarda memórias fragmentadas dessa noite, no entanto tem a certeza absoluta de que ele a violou. Também diz lembrar-se que no final da noite ele lhe chamou um táxi, deu-lhe 30 dólares para pagar a viagem e o seu número de telefone.

O ator português nega todas as acusações. "Sou moralmente e eticamente incapaz de cometer os atos de que me acusam. Jamais drogaria alguém e jamais me aproveitaria de uma pessoa incapacitada, quer por excesso de álcool ou por influência de quaisquer outras substâncias. Nem hoje nem há 17 anos", afirmou Nuno Lopes.

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