Trump vai retirar os EUA da NATO se ganhar as eleições, avisa ex-conselheiro

CNN , Jim Sciutto
13 fev, 13:08

Em entrevista a Jim Sciutto, pivot e jornalista de segurança nacional da CNN, para o seu novo livro, "The Return of Great Powers", vários ex-conselheiros do ex-presidente, que está novamente na corrida para a Casa Branca, alertam para prováveis mudanças nas políticas internacionais

Enquanto os aliados dos EUA se ressentem dos comentários de Donald Trump, que encorajou a Rússia a atacar os aliados europeus se estes não cumprissem os objetivos de contribuição para o orçamento da NATO, vários ex-conselheiros de Trump avisam que o antigo presidente procurará retirar formalmente os EUA da Aliança se ganhar um segundo mandato.

Em "The Return of Great Powers" (O regresso das grandes potências na tradução livre), que será publicado a 12 de março, um antigo alto funcionário dos EUA, que serviu ao mais alto nível nas administrações de Trump e Biden, disse que se Trump derrotar o presidente Joe Biden em novembro "os EUA sairão da NATO".

John Bolton, antigo conselheiro de segurança nacional de Trump, concorda que "a NATO estará em perigo". "Penso que ele tentará sair."

O menosprezo de Trump pelos compromissos de segurança dos EUA estende-se também aos seus acordos de defesa mútua com a Coreia do Sul e o Japão, segundo o general reformado John Kelly, que serviu como chefe de gabinete da Casa Branca para Trump.

"A questão é que ele não via qualquer utilidade na NATO", afirmou Kelly no livro. "Ele estava absolutamente decidido a não ter tropas na Coreia do Sul, novamente, uma força de dissuasão, ou ter tropas no Japão, uma força de dissuasão."

"Pensava que (Vladimir) Putin era um tipo porreiro e que Kim (Jong-un) era um tipo porreiro - que tínhamos empurrado a Coreia do Norte para um canto", recordou Kelly. "Para ele, era como se estivéssemos a provocar estes tipos. Se não tivéssemos a NATO, Putin não estaria a fazer estas coisas."

Os membros seniores da administração ouvidos para o livro também detalharam como Trump esteve perto de retirar os EUA da Aliança, que é um alicerce fundamental da segurança ocidental contra a Rússia, no seu primeiro mandato e alertam que ele provavelmente irá mais longe num segundo.

"Os democratas e os media parecem ter esquecido que tivemos quatro anos de paz e prosperidade com o presidente Trump, mas a Europa viu morte e destruição com Obama-Biden e agora mais morte e destruição com Biden", disse o porta-voz da campanha de Trump, Jason Miller, à CNN. "O presidente Trump conseguiu que os nossos aliados aumentassem as suas despesas com a NATO, exigindo que pagassem, mas Joe Biden voltou a deixá-los aproveitar-se do contribuinte americano. Quando você não paga os seus gastos com a defesa, não pode surpreender-se que tenha mais guerra."

Trump em 2018 perto da saída da NATO

No centro da Organização do Tratado do Atlântico Norte e consagrada no artigo 5 do tratado está a promessa de defesa coletiva - de que um ataque a uma nação membro é um ataque a todas as nações da Aliança. Há muito que Trump se queixa do montante que os membros da NATO gastam na defesa em comparação com os EUA.

Em "The Return of Great Powers", vários conselheiros contam em detalhe como Trump quase retirou os EUA da NATO na cimeira da Aliança em 2018, em Bruxelas.

"Ele estava sempre a reclamar e a delirar, e muitas vezes girava à volta de considerações como, 'Bem, eu sou mais inteligente do que eles', e tudo isso", disse Kelly, descrevendo a mentalidade de Trump em Bruxelas. Kelly disse que tentou explicar a importância da NATO a Trump em termos que ele acreditava que o presidente entenderia. A abordagem de Kelly envolveu uma combinação de explicações sobre o que era realmente possível e o que poderia fazer com que ele ficasse mal visto. No caso da retirada da NATO, Kelly tentou transmitir a Trump que ambas se aplicavam.

Mas na cimeira Trump persistiu. Um antigo alto funcionário dos EUA disse que Trump deu ordens ao então presidente do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, e ao então secretário da Defesa, Mark Esper, para que os EUA se retirassem da NATO. Apesar de se oporem veementemente a essa medida, consideraram a orientação do presidente como uma "ordem" e elaboraram planos para executar a retirada.

Bolton recordou a cimeira de 2018 com um medo genuíno. "Honestamente, foi assustador porque não sabíamos o que ele ia fazer até ao último minuto. Quero dizer, acho que ele quase disse que ia sair da NATO e depois recuou", contou Bolton.

Outros potenciais alvos de Trump

Muitos veteranos da administração Trump têm um aviso semelhante para a Ucrânia. "O apoio dos EUA à Ucrânia terminaria", disse o alto funcionário dos EUA que serviu sob Trump e Biden.

Recordando o comentário de Trump num town hall da Fox News em julho de 2023, quando afirmou que, se fosse reeleito, poderia acabar com a guerra num dia, Bolton admitiu: "Se eu fosse a Ucrânia, ficaria muito preocupada, porque se tudo for um acordo, então 'o que são mais dez por cento do território ucraniano se isso trouxer paz?' Algo do género."

O apoio dos EUA a Taiwan, dizem, também estaria em perigo. Bolton recordou uma proeza que Trump faria na Sala Oval. Ele levantava a ponta da sua caneta e dizia: "Isto é Taiwan. Vejam esta mesa Resolute [a secretária do presidente], é a China'". O seu argumento, segundo Bolton, é que Taiwan é demasiado pequena para se defender com êxito de uma invasão chinesa - e demasiado pequena para que os EUA se importem.

"Se eu estivesse em Taiwan, estaria muito preocupado com uma administração Trump", alertou também Bolton.

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