Boris tinha razão quando disse que não haveria guerra se Putin fosse mulher? "Deem poder às mulheres para chegarmos a uma conclusão"

António Guimarães , enviado especial a Madrid
30 jun, 21:10

Factos sobre as mulheres da NATO - a propósito da cimeira da Aliança Atlântica que decorre em Madrid

No dia 4 de abril de 1949 não estava uma única mulher nas fotografias oficiais da assinatura da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla original). Esta semana, em Madrid, a situação foi ligeiramente diferente: houve quatro mulheres na fotografia oficial.

Katrín Jakobsdóttir (primeira-ministra da Islândia), Mette Frederiksen (primeira-ministra da Dinamarca), Kaja Kallas (primeira-ministra da Estónia) e Zuzana Caputová (presidente da Eslováquia) destacaram-se entre os mais altos representantes dos 30 Estados-membros. E entre os 60 ministros da Defesa e Negócios Estrangeiros, 19 são mulheres (9 na pasta da Defesa e 10 nos Negócios Estrangeiros), uma percentagem de quase um terço - mas longe da paridade. Em 1949 não havia uma única mulher a ocupar aquelas tutelas nos 12 países fundadores da NATO, sendo que, no caso português, Helena Carreiras é apenas a segunda, depois de Berta Cabral ter integrado o governo de Passos Coelho em 2012.

Nos bastidores estiveram várias dessas ministras, uma oportunidade que motivou uma reunião inédita, como a que tiveram duas ministras da Defesa e sete ministras dos Negócios Estrangeiros num encontro que decorreu à porta fechada. Nas únicas declarações disponíveis desses momentos, a representante especial da NATO para as Mulheres, a Paz e a Segurança mostrou-se “particularmente orgulhosa” de conduzir um encontro daquele género, o primeiro na história da Aliança Atlântica.

“Hoje existem mais mulheres como ministras que em qualquer altura da história. Devemos ter muito orgulho”, afirmou Irene Fellin no início do encontro. No entanto, a responsável sabe que não é apenas por "se sentarem à mesa com os homens" que as mulheres vão ser “vistas e ouvidas”: “Precisamos de nos esforçar para trazer a perspetiva feminina e contribuir para um mundo mais seguro”.

À mesa estavam sentadas as ministras dos Negócios Estrangeiros Mélanie Joly (Canadá), Anniken Huitfeldt (Noruega), Ann Linde (Suécia), Liz Truss Reino Unido), Thórdís Kolbrún Reykfjörd Gylfadóttir (Islândia), Tanja Fajon (Eslovénia), Annalena Baerbock (Alemanha) e as ministras da Defesa Margarita Robles (Espanha) e Ludivine Dedonder (Bélgica). A reunião juntou apenas estas nove mulheres, mas se tivessem marcado presença todas as representantes daquelas pastas seriam muitas mais, sendo que entre elas estaria Helena Carreiras, ministra da Defesa de Portugal, que também assistiu à cimeira mas que não marcou presença no encontro.

Mais tarde, numa conferência de imprensa ao lado de Margarita Robles e Annalena Baerbock, Irene Fellin afirmou que a igualdade de género é uma das preocupações da NATO, que vai investir nesse sentido para que a Aliança possa sair reforçada, "mulheres e homens, todos juntos". A ministra espanhola explicou que a implementação de uma agenda para a promoção da segurança é essencial para Espanha, referindo que, quando existe um conflito, "as mais prejudicadas são sempre as mulheres". "Por isso sempre apostámos em aumentar o número de mulheres nas Forças Armadas. Isso ajuda a que as mulheres naqueles países se sintam mais protegidas", referiu Margarita Robles, anunciando depois que o país vai reforçar a presença de mulheres no Exército.

Falando especificamente sobre a situação na Ucrânia, de onde chegam vários relatos de episódios de violência sexual sobre as mulheres, a ministra fala em mulheres que são "duplamente vítimas". "A NATO e a comunidade internacional não podem ficar indiferentes à violação de meninas e Espanha denunciará sempre estas situações", acrescentou, falando depois sobre outro conflito, o Afeganistão, tendo falado sobre as responsabilidades da NATO naquele país - onde esteve 20 anos.

A ministra alemã destacou que reconhecer a segurança e paz para as mulheres é crucial mas não é fácil de alcançar. Annalena Baerbock referiu que já é possível ver que isso está a ser feito no novo conceito estratégico, mas pede mais trabalho para assegurar que os passos necessários são dados. "As mulheres são essenciais para o desenvolvimento e estabilidade dos países e regiões", afirmou, recordando também o exemplo do Afeganistão, onde milhares de mulheres são impedidas de trabalhar pelos talibãs.

Olhando para dentro, Annalena Baerbock reconheceu que é preciso fazer mais, apontando depois exemplos como os da Suécia, do Canadá, mas também de Espanha: "Quando apelamos a uma política feminista temos um triângulo composto por direitos, representação e meios", disse, pedindo uma maior participação feminina, nomeadamente no Exército alemão. "Este é apenas o ponto de partida no nosso processo", acrescentou, falando especificamente sobre a reunião que ocorreu entre as ministras.

E se Putin fosse mulher?

Questionada sobre como a NATO vê a situação na Ucrânia, Margarita Robles disse que a organização está "claramente contra as atrocidades desta guerra, contra o papel de Putin", assinalando depois que as mulheres e as meninas estão a ser utilizadas como uma arma: "A agressão sexual está a ser utilizada como uma arma de guerra. É inaceitável e é uma violação clara do Direito Internacional". "Eu espero, e Espanha espera, que Putin seja levado aos tribunais penais internacionais", acrescentou. Por isso, disse a ministra, o compromisso de Espanha é total com Ucrânia e com o presidente Zelensky.

Annalena Baerbock concorda que existe na Ucrânia uma violação do Direito Internacional, uma guerra "brutal" que requere um maior apoio por parte dos países da NATO, nomeadamente através do envio de mais material militar, algo que a Alemanha já anunciou que vai voltar a fazer.

Lembrada das palavras de Boris Johnson sobre Vladimir Putin, em que referiu que não haveria guerra se o presidente russo fosse uma mulher, Irene Fellin disse que nunca se saberia o que poderia acontecer, mas referiu deixou no ar que uma mulher no poder pode significar mais paz. "O ponto é que as mulheres são mais pacíficas e que com mais mulheres no poder teríamos menos guerra. Nunca saberíamos isso, porque não temos mulheres suficientes no poder", afirmou a responsável da NATO, pedindo que se dê mais poder às mulheres para que se chegue a uma conclusão.

Na cimeira da NATO de Lisboa, que decorreu em 2010, eram três as mulheres entre primeiros-ministros e presidentes que estiveram presentes. Desta vez foram quatro e o objetivo passa por aumentar esse número de forma gradual e paritária.

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