Akash quer ter uma casa para trazer a família do Bangladesh. Rajendra gosta de ir à praia. Masum conta os dias que faltam para ter os "papéis". Mas tudo é difícil para os imigrantes em Odemira

Maria João Caetano , Rodrigo Cabrita (fotografia)
22 nov, 07:00

Em 2021 falou-se muito dos imigrantes de Odemira, e não pelos melhores motivos. A covid-19 pôs a nu as péssimas situações em que vivem e os preconceitos por parte da população. Depois, a CNN Portugal revelou a violência brutal de alguns militares da GNR sobre imigrantes da Ásia Meridional. Um ano depois, o que mudou? No concelho, moram mais de 10 mil imigrantes e a maioria trabalha na agricultura. A integração é um "longo caminho", mas também encontrámos alguns sinais de esperança

O mini-mercado MSK fica na rua Custódio Brás Pacheco, uma rua larga e movimentada em Vila Nova Milfontes. “MSK” quer dizer “montains and sky”, ou seja, "montanhas e céu", explica o funcionário Akash, imigrante do Bangladesh, de 26 anos. Chegou a Portugal há cerca de três anos e, como praticamente todos os imigrantes da região, começou por trabalhar na agricultura. Apanhava morangos, amoras, mirtilos. “Trabalhei dois anos nas quintas. É um trabalho muito duro”, diz, num inglês mal-amanhado. Agora está no supermercado do primo. “É muito melhor”, reconhece.

O estabelecimento é pequeno e povoado por embalagens coloridas e marcas estrangeiras. “Aqui, vem toda a gente, vêm os estrangeiros, os turistas, os portugueses." Mas vêm mais asiáticos, claro, porque sabem que ali podem encontrar os produtos para fazer as receitas com sabor a casa: lentilha, arroz aromático, chá, cerveja, tudo da Índia, uma quantidade enorme de especiarias e até sacos com pequeninos peixes secos que, segundo Akash, se cozinham com azeite, cebola, “masala” e um pouco de picante.

Akash, imigrante do Bangladesh em Vila Nova de Milfontes. Foto: Rodrigo Cabrita

Akash chegou a estar dois meses em Lisboa e percebeu que aí teria ainda mais dificuldade em arranjar em trabalho. Rumou a Sul. “Milfontes é um sítio bom para morar”, garante. Escolheu Portugal porque “é um país muito bonito, o clima é bom e as pessoas são simpáticas”, diz, repetindo as palavras de muitos outros imigrantes. Mas acrescenta um pormenor: Cristiano Ronaldo. Foi por causa dele que ouviu falar de Portugal pela primeira vez. “É o meu jogador de futebol preferido."

E, depois, há ainda a questão dos “papéis”: “Portugal é um país bom para arranjar os papéis. Desde que se trabalhe, podemo-nos inscrever como imigrante e, ao fim de seis anos, temos o cartão de residente”. Akash está a contar com isso. Daqui a três anos, quando já tiver “a residência”, poderá ir ao Bangladesh e ficar lá durante dois meses a matar saudades dos pais, dos irmãos e dos amigos. Das montanhas e do céu do seu país. “E depois volto”, garante. “Quero ficar em Portugal. Aqui, posso trabalhar e mandar dinheiro para a família, isso é bom.”

Imigração em Odemira triplicou em dez anos

Akash é um dos mais de 10 mil imigrantes estabelecidos no concelho de Odemira, o maior concelho do país. Mais de um terço da população do concelho é imigrante. Segundo os dados do Censos 21, o município de Odemira foi o único dos 14 concelhos do Baixo Alentejo que ganhou população residente entre 2011 e 2021, com mais 3.457 pessoas, passando assim para 29.523.

De acordo com os dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em 2021 residiam no concelho 10.927 imigrantes. Destes, 7.505 são homens e apenas 3.422 são mulheres. A maioria desses imigrantes veio para Odemira para trabalhar nas estufas, de frutos vermelhos e não só.

Quanto à distribuição por nacionalidades, estavam registados 3 mil imigrantes oriundos da Índia e 2.790 do Nepal, as duas comunidades mais numerosas. Seguem-se a Bulgária (842), Tailândia (796), a Alemanha (670), o Bangladesh (504), a Ucrânia (367) e só depois o Reino Unido (330).

Em localidades como Odemira, Vila Nova de Milfontes ou São Teotónio, é impossível andar pelas ruas sem nos depararmos com esta nova realidade: há muitas pessoas de origem asiática, assim como lojas e restaurantes. Novas cores, cheiros e sabores, línguas e músicas diferentes.

Para se ter uma ideia da transformação demográfica no concelho basta recordar que, em 2011, Odemira tinha apenas registados 3.169 imigrantes. Isto significa que em dez anos a população imigrante mais do que triplicou na região. Não havia, então, registo de nenhum imigrante da Índia, nem do Bangladesh ou do Nepal.

O primeiro passo: obter os "papéis"

"Falta" - esta é talvez a palavra que Rajendra mais ouve todos os dias. "Há sempre algum papel que falta. Em Portugal são precisos muitos papéis para tudo", desabafa.

Rajendra tem 32 anos, "quase 33". Gosta do clima de Portugal, que "é parecido ao do Nepal", e gosta de ir à praia. "No Nepal não temos mar, só montanhas, para mim é tudo novo." No seu país trabalhava como assistente social; em Portugal, para onde se mudou há três anos, começou por trabalhar na agricultura. "O trabalho é difícil e o ordenado é baixo." Com um nível de inglês acima da média dentro da comunidade imigrante e alguma facilidade em aprender português, Rajendra começou logo a procurar um emprego onde pudesse usar a sua experiência anterior. "Fui a uma entrevista e escolheram-me", conta. Agora é "mediador intercultural" em Odemira. A sua função é ajudar os imigrantes a lidarem com toda a burocracia do sistema português, servir como intérprete sempre que necessário e "fazer pontes", como ele diz. "O meu português está melhor a cada dia, não tenho quaisquer problemas de comunicação. Eu ajudo todos os imigrantes mas como falo português, inglês, indiano e nepalês, ajudo sobretudo os asiáticos."

Com um colete identificador, para que todos saibam quem é, Rajendra passa os dias entre a Segurança Social, o tribunal, o centro de saúde, as finanças e a GNR de Odemira, mas também há dias em que vai às juntas de freguesia, a bancos e até às escolas. "Traduzo as cartas, ajudo a preencher os formulários, explico o que têm de fazer para conseguir os documentos." Coisas tão simples como ir ao médico ou participar numa reunião na escola dos filhos podem ser impossíveis sem a ajuda de Rajendra.

Rajendra, imigrante nepalês trabalha como mediador em Odemira. Foto: Rodrigo Cabrita

"Os mediadores são essenciais", explica Dora Guerreiro, diretora da TAIPA, a Organização Cooperativa para o Desenvolvimento Integrado de Odemira que, entre outras atividades, e "tendo em conta a realidade do concelho", desenvolve uma série de projetos na área da integração de imigrantes.

Neste momento a TAIPA tem três mediadores interculturais no terreno: além do Rajendra, que é do Nepal, há um do Bagladesh e outro da Índia. "São pessoas das comunidades, que falam as línguas dos imigrantes e que passaram pelas mesmas situações e isso é muito tranquilizador para quem chega", explica Dora Guerreiro. Por outro lado, os mediadores tiveram aulas de português e  formação, e têm uma relação muito direta com os profissionais dos diversos serviços. "Eles são vistos como uma peça essencial, porque permitem ultrapassar a barreira linguística e facilitam muito o trabalho de quem está no atendimento."

"Todos os dias chegam pessoas. As primeiras dúvidas são sobre o trabalho e sobre «os papéis», que permitem estar aqui legalmente. Mas a grande dificuldade é a economia, os ordenados são baixos e está tudo muito caro, sobretudo a habitação. As casas são muito caras e as que existem estão cheias", explica Rajendra.

"Trabalho para a integração, estou sempre a tentar ajudar. Mas há pessoas que não são muito amigáveis. Acho que isso está a melhorar, lentamente, mas ainda há algumas situações."

Situações. Como aquela que foi revelada há quase um ano pela CNN Portugal: um grupo de militares da GNR de Vila Nova de Milfontes sequestrou, humilhou e maltratou imigrantes da Ásia Meridional.

Os casos remontam a setembro de 2018 e março de 2019. A acusação do Ministério Público é de novembro do ano passado, mas a situação só ganhou repercussão quando a CNN Portugal divulgou algumas das imagens encontradas nos telemóveis dos militares: sete vídeos - filmados por diversão pelos próprios militares - de sequestro, torturas, humilhações, violência e insultos racistas a vários trabalhadores agrícolas da região.

No processo, lê-se que a atuação dos militares revela um "ódio claramente dirigido às nacionalidades que [as vítimas] tinham e apenas por tal facto e por saberem que, por tal circunstância, [as vítimas] eram alvos fáceis". Tendo atuado por "caprichos torpes", os arguidos agiram com "manifesto uso excessivo do poder de autoridade que o cargo de militar lhes confere", aproveitando-se da "situação precária, frágil e desprotegida" das vítimas.

Um ano depois, o caso ainda não foi esquecido mas a GNR volta a garantir que "se tratou de um episódio isolado", que foi devidamente denunciado pela própria estrutura, e que tudo foi feito para garantir que não se iria repetir.

Os sete militares da GNR acusados de bater e sequestrar imigrantes vindos da Ásia Meridional vão começar a ser julgados no próximo dia 30 de novembro, no Tribunal de Beja, noticiou o Expresso. Rúben Candeias, Nelson Lima, Diogo Ribeiro, Nuno Andrade, João Lopes, Carlos Figueiredo e Paulo Cunha vão sentar-se no banco dos réus. O magistrado Vítor Maneta irá liderar o coletivo de juízes.

Ignorância e preconceito

Em frente do minimercado de Akash fica a loja de eletrónica SDS Brothers. Por trás do balcão, rodeado de telemóveis e de outros equipamentos, está Masum, também ele vindo do Bangladesh há pouco mais de três anos. Tem 25 anos e mora em Vila Nova de Milfontes "com amigos" mas tenta poupar o máximo possível para cumprir o seu objetivo: arranjar uma casa e "mandar vir a família". "Quero ficar em Portugal, sim, quero morar aqui para sempre", diz, em inglês. Masum nunca ouviu falar de qualquer situação de maus-tratos de imigrantes. Ou, pelo menos, não quer falar sobre isso. "É um país pacífico e muito bonito. E tem praias, gosto muito de ir à praia."

Masum, imigrante do Bangladesh em Vila Nova de Milfontes. Foto: Rodrigo Cabrita

Bom dia, obrigado, boa tarde, por favor. Masum sorri, orgulhoso. Estas são algumas palavras que já sabe dizer em português. "Mas vou aprender mais", promete. Sempre que tem tempo, vê vídeos no YouTube ou procura livros em português e quer inscrever-se num curso de língua portuguesa. Só lhe falta o tempo. Nos meses de calor, Masum acumula o trabalho na loja com o trabalho da agricultura. "No verão, tenho dois empregos, agora, nesta altura do ano, não há fruta para apanhar, por isso só tenho um", lamenta-se. "Os ordenados são muito baixos, levamos muito tempo para poupar algum dinheiro." Até conseguir trazer a família, Masum tem de se contentar com as videochamadas que faz para falar com os pais e ver como estão. "Falo com eles todos os dias", diz. Do que é que tem mais saudades no Bangladesh? "De tudo."

Mas nem todas as conversas correm bem. Encostado a um muro, Sandup está a beber chá com um amigo. Segura a caneca numa mão enquanto, com a outra, escreve o seu nome numa folha, “Sandup Singh”, para que o possamos identificar sem erros. Explicámos-lhe que estávamos a fazer uma reportagem sobre imigrantes e que queríamos saber o que o tinha trazido a Portugal, ele sorriu e aceitou que gravássemos a conversa. Estava contar-nos, em inglês, que tem 22 anos e chegou há pouco tempo da Índia, quando uma carrinha para mesmo à nossa frente e o condutor fala com ele, em tom zangado, numa língua que não percebemos. Depois de uma breve troca de palavras, a carrinha segue o seu caminho. E Sandup termina a entrevista. “Sou estudante, vim de férias e depois vou-me embora.” De cara fechada, vai para o lado de dentro do quintal com o amigo. Ficam a espreitar-nos por entre a roupa estendida. Desconfiados.

Desconfiança será mesmo a palavra mais correta para descrever a relação entre os imigrantes asiáticos e a população da região. Pode não haver "situações" nem ocorrências a registar, mas a desconfiança pressente-se nas conversas nas ruas de Odemira, de São Teotónio ou de Vila Nova de Milfontes. Ouvimos frequentemente a expressão "monhés" para referir os imigrantes. E também "bandos de estorninhos". "Já viu que eles andam sempre aos grupos?", pergunta um taxista. "São só homens e andam em grupos, é normal que uma pessoa se sinta insegura", refere uma lojista. À porta da Segurança Social ou dos bancos, nos supermercados ou nos jardins, os grupos de imigrantes tornaram-se comuns. "Eles estão em todo lado, estão a tomar conta disto, qualquer dia vão ser mais do que nós", atira o vendedor de castanhas.

A desconfiança alimenta-se da ignorância sobre o outro e da incapacidade de comunicação, acredita a coreógrafa Madalena Vitorino, que trabalha há anos no território e tem desenvolvido vários projetos de interligação entre a população local e a população imigrante, incluindo também a asiática. "A língua é uma enorme barreira", diz Madalena Vitorino, admitindo que ainda existem preconceitos entre grande parte da população. Como não sabem falar português, é normal que os imigrantes se agrupem por nacionalidades e se fechem. Como não os percebem, é normal que os portugueses sintam uma certa apreensão. "E depois são culturas diferentes, têm outra maneira de se vestir, outras comidas, outras religiões, outros costumes... Quando conseguimos ultrapassar essas barreiras, percebemos que não há motivo para desconfiança."

O problema da habitação e os contentores

Antes do caso dos elementos da GNR, os olhos do país já se tinham voltado para Odemira por causa da pandemia de covid-19. A 29 de abril de 2021, foi decretada uma cerca sanitária em duas freguesias do concelho, devido à elevada incidência de casos entre trabalhadores imigrantes de explorações agrícolas. Nessa altura, foram expostas em horário nobre as péssimas condições em que morava a maioria dos trabalhadores e que levaram a que alguns imigrantes fossem recolocados em habitações no complexo turístico Z-Mar, causando uma enorme reação entre os proprietários de casas de férias - outra vez a desconfiança.

A falta de condições das habitações dos imigrantes viria a ser confirmada, meses depois, por um relatório da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados. Nele se denunciava a situação a que os trabalhadores estavam sujeitos: pagavam cerca de 18 mil euros a angariadores ou intermediários que lhes garantiam a viagem para Portugal e um contrato de trabalho. No entanto, ao chegar, percebiam que "as ‘rendas’ exigidas pelos senhorios" em locais que, "na maioria das vezes, se confundem com ‘alojamentos’ das entidades patronais", oscilam entre os 600 e os 800 euros. Por estes montantes, os trabalhadores teriam "direito à cama, mais o uso comunitário do espaço da cozinha e da casa de banho sem quaisquer condições sanitárias e de salubridade, estando a maioria dos migrantes em situação de sobrelotação", revelou o relatório.

Imigrantes em Vila Nova de Milfontes. Foto: Rodrigo Cabrita

“Boa parte dos salários pagos não chegam para pagar a renda e o ‘reembolso’ da viagem” para Portugal, restando a esses trabalhadores a quantia mensal líquida de 130 a 150 euros”, lê-se no documento. Devido a esta situação, os trabalhadores são "obrigados a trabalhar em mais de dois locais para sobreviver e sem qualquer direito ao descanso", acrescentava.

"Há pessoas que alugam casas e quartos sem as mínimas condições. É muito triste", conta a coreógrafa Madalena Vitorino. "Eles dormem em quartos com seis ou sete pessoas que mal conhecem, não têm qualquer privacidade, apanham doenças, não há um conforto mínimo. Depois do trabalho, ter uma casa digna é o que todos procuram."

Para tentar solucionar rapidamente a situação, depois de toda a polémica, o Conselho de Ministros aprovou, em junho do ano passado, uma resolução para agilizar a instalação de IATAs - Instalações de Alojamento Temporário Amovível (ou seja, contentores para habitação) nas explorações. Estavam previstas duas mil camas e, embora com atrasos, aos poucos, os contentores começaram a aparecer na paisagem inóspita do Alentejo.

No entanto, ainda que alguns desses alojamentos tenham de facto condições mínimas de habitabilidade e possam significar uma melhoria em relação ao que muitos imigrantes têm hoje, Alberto Matos, dirigente de Beja da associação Solidariedade Imigrante, defende que “os contentores não são uma solução inclusiva, pelo contrário, dificultam a socialização e a tão propalada integração dos imigrantes”. A solução, diz, tem de passar pela reabilitação e pelo repovoamento de vilas e aldeias.

Integração: "um longo caminho a percorrer"

No fim de semana de 10 a 12 de novembro, as ruas de Odemira encheram-se de cores e sons com o espetáculo "Bowing Back", que juntou artistas e população local, com dezenas de migrantes da Índia, Nepal, Bangladesh, China, França, Holanda e outros países. O espetáculo teve 500 espectadores. Madalena Vitorino fala de "um cruzamento maravilhoso", que só foi possível porque este foi um projeto que se estendeu por dois anos, que implicou muito trabalho no terreno, muitas oficinas, muitas conversas informais. E sobretudo muita comunicação. "Aquilo que percebemos é que, quando queremos, os problemas de comunicação são ultrapassados", conclui.

Inderjeet foi um dos artistas que participou em "Bowing Back". Músico indiano de 39 anos, Interjeet aprendeu com o avô a tocar tablas, um instrumento tradicional de percussão, e sitar, que é um instrumento da família do alaúde. Sobre o espetáulo em Odemira diz que foi uma experiência "very bonita" - e diz a palavra "bonita" em português no meio de palavras em inglês, o que torna tudo um bocadinho comovente. Inderjeet está em Portugal há apenas dois meses e meio e é normal que ainda não saiba a língua, mas há algo que já sabe: vai fazer tudo para "tentar sobreviver como músico", seja a dar aulas ou a participar em espetáculos.

Jornal "Sudoeste" com notícia sobre o espetáculo "Bowing Back". Foto: Rodrigo Cabrita

Depois de um primeiro "Bowing" no ano passado, este segundo espetáculo intercultural do projeto Lavrar o Mira e a Lagoa permitiu aprofundar as relações com as comunidades imigrantes, de diferentes nacionalidades e religiões. "Conseguimos conhecer verdadeiramente as pessoas e isso faz a diferença. Acredito que a arte é uma ferramenta extraordinária para constuir uma série de pontes na vida em sociedade e até para resolver problemas, a arte aproxima as pessoas", explica Madalena Vitorino. Este tipo de projetos, que juntam pessoas muito diferentes e, depois, proporciona uma apresentação pública, uma partilha e uma comunicação com a população local, pode estimular "uma forma de pensamento mais aberto, mais rasgado, mais tolerante, criando energias de encontro, de partilha, de relação".

Em termos gerais, no entanto, olhando para a realidade da região, Madalena Vitorino sente que os progressos têm sido pouco. "Percebe-se que a Câmara de Odemira está atenta e que há uma tentativa de mapear os problemas e ajudar na sua resolução, mas o problema é muito grande. Seriam necessárias decisões estratégicas e um enorme investimento", diz. "Vivem aqui milhares de imigrantes, eles vieram para trabalhar e não se irão embora. Portanto, há que saber aceitar e integrar."

Também Alberto Matos, da associação Solidariedade Imigrante, é de opinião de que em termos laborais, “nada mudou”, denunciando "um modelo agrícola que vive à custa da maximização do lucro e da exploração, quer dos recursos naturais, quer de milhares de seres humanos em condições degradantes que cabem na definição de trabalho escravo ou escravatura no século XXI”. Este dirigente defende uma atuação mais incisiva por parte das autoridades que deveriam evitar as redes de tráfico humano e o desrespeito pelas leis do trabalho, além de garantir o respeito pelos direitos humanos.

"Ainda há um grande caminho a percorrer", admite Dora Guerreiro, sublinhando que há muitos projetos que estão a ser desenvolvidos que não têm resultados visíveis imediatamente mas que, acredita, irão dar os seus frutos. Não será em vão que se aposta em formações sobre segurança no trabalho ou segurança rodoviária, que se procura incluir as mulheres imigrantes em projetos comunitários, que se aposta numa biblioteca itinerante ou num programa na rádio local.

Um dos projetos mais importantes da TAIPA é o CLAIM - Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes, um serviço gratuito de ajuda nos processos de legalização. Em 2019, o CLAIM de Odemira fez quatro mil atendimentos. Depois com a pandemia esse número recuou. "Assim que o SEF retomou os agendamentos, o número de atendimentos voltou a aumentar", diz Dora Guerreiro. Até setembro desde ano, o CLAIM já tinha feito 1.716 atendimentos.

Outro dos projetos com bastante impacto é o GIP Imigrante, um Gabinete de Inserção Profissional direcionado para esta comunidade. Explicar os direitos e os deveres dos trabalhadores migrantes e promover a sua empregabilidade é tanto mais importante quanto, sabemos, recai sobre eles sempre o espectro de desemprego: primeiro, porque os trabalhos na agricultura são sazonais e, ainda, e não menos importante, porque a agricultura na região enfrenta uma crise tremenda devido à falta de água, como lembra Alberto Matos. O ensino do português como língua estrangeira é um dos eixos fundamentais desta estratégia.

Uma escola para todos

Logo à entrada da Escola Básica 2,3 Engenheiro Rafel Amaro da Costa, em São Teotónio, um painel dá as boas-vindas em diversas línguas. Numa escola onde mais de um terço dos alunos são estrangeiros, com 22 nacionalidades diferentes, o grande desafio é "manter os alunos da escola", explica a diretora, Inês Pinto. Em 2011, a taxa de abandono escolar rondava os 30% e a taxa de insucesso aproximava-se dos 40%. Foi nessa altura que foram dados os primeiros passos para transformar a escola e torná-la mais acessível e mais apetecível para os alunos, viessem eles de onde viessem. "Tivemos que mudar a nossa abordagem", diz a diretora.

"Se um aluno vem para a escola e fica um dia inteiro numa sala de aula sem perceber nada do que estão a dizer, é normal que fique desmotivado e que se isole", acrescenta a subdiretora, Malfalda Pires. Por isso, a abordagem começa sempre pela língua portuguesa. Os alunos estrangeiros estão integrados em turmas de português como língua não-materna, não de acordo com a idade mas com a sua capacidade na língua. Depois, têm as aulas práticas (de artes e desporto) com as turmas regulares e têm as outras disciplinas (história, ciências, matemática, etc.) em grupos mais pequenos, onde podem ir evoluindo ao seu ritmo. "À medida que vão subindo de nível no português, vão tendo cada vez mais aulas integradas", explica a subdiretora.

Nesses primeiros tempos, em que se experimentaram currículos alternativos e aulas diferenciadas, a preocupação maior era com as comunidades búlgara e ucraniana. Depois, os alunos foram mudando e a escola também. "Chegam-nos aqui miúdos que nunca sequer tiveram numa escola, numa sala de aula. Ou que não sabem falar inglês." Crianças com histórias complicadas, com situações económicas extremas. Tudo isso tem de ser tido em conta. E é também para isso que está lá a mediadora escolar, Edviges Barradinha, que tem como principal função ajudar na integração dos alunos e fazer a ligação entre as famílias e a escola. "Ajudo a fazer matrículas, a pedir os manuais, explico as regras da escola. Este ano tivemos um tradutor nas reuniões com os encarregados de educação e isso fez toda a diferença. Sinto que os pais já falam mais comigo porque já têm mais confiança."  "O número de imigrantes continua a aumentar. Continuamos a fazer novas matrículas todos os dias", revela a mediadora.

De olhar vivo, Rejin aproxima-se, quer saber quem somos e se vai aparecer na televisão. Tem 12 anos e frequenta o 7.º ano. "Vim para Portugal para estudar, para o meu futuro", diz num português quase perfeito. Chegou há dois anos, com a irmã mais velha. Os pais ficaram no Nepal. Esteve primeiro em Coimbra e, depois, mudou-se para São Teotónio. "No 5.º ano era muito difícil, mas agora já é fácil." Rejin nunca tinha visto o mar: "Fui a primeira vez à praia aqui em Milfontes, mas não gosto muito. Gosto da natureza, da cidade, das pessoas e das culturas."

Mafalda Pires (subdiretora), Inês Pinto (diretora) e Edviges Barradinha (mediadora) da escola de São Teotónio, Odemira (Foto: Rodrigo Cabrita)

Rejin tem amigos de diferentes nacionalidades, incluindo portugueses. Por saber falar português e por ser tão despachado e responsável, é muitas vezes solicitado para fazer traduções e para ajudar no dia-a-dia da escola. Ele não se importa. "Gosto de ajudar", diz.

Essa é também uma das características que as professoras querem sublinhar: aqui, os alunos portugueses estão muito habituados a ter amigos estrangeiros, "praticamente desde a creche", e não há qualquer estranheza. "Existe uma grande inter-ajuda entre as crianças de diferentes nacionalidades. E, entre os estrangeiros, os mais antigos ajudam muito os mais novos." Se é aqui que se educam os cidadãos do futuro, talvez o futuro seja mais inclusivo para quem vier de fora.

Na escola já houve uma formação em cricket, projetos sobre as tradições de cada país, oportunidade para se ouvir música vinda dos quatro cantos do mundo. "Em todas as disciplinas há essa abertura", garante Mafalda Pires. "Há projetos em que os vários imigrantes podem participar, há momentos em que estão todos os juntos e há momentos em que estão em grupos. O que mudou é que eles começaram a sentir a escola como deles", diz Inês Pinto. E, além de terem alunos mais felizes, isso reflete-se também nos resultados escolares. A diretora resume tudo numa frase, que é sobre a escola mas poderia ser também sobre a comunidade: "Eles adaptam-se a nós e nós adaptamo-nos a eles, e aprendemos todos uns com os outros."

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