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Comentadora de política da CNN Portugal

A misteriosa engenhoca... da geringonça

11 dez 2023, 09:00
Acordos da geringonça em 2015 (Lusa)

MEMÓRIA DA POLÍTICA || Anabela Neves recupera memórias da política para trazer novas luzes à atualidade

Os dias desta crise tem sido férteis no uso de uma palavra que começou por ter aspas e muitas reticências e que acabou por se tornar numa fórmula “exportável” dentro e fora de portas.

Em Espanha a sua complexidade aumentou mais com este último governo do socialista Pedro Sanchez. Cá dentro até se admite que ressuscite à esquerda pela mão de Pedro Nuno Santos, ou que se construa algo, igualmente difícil, à direita no ciclo pós-10 de março.

Na semana derradeira das eleições no PS faz sentido esta Memória da Política sobre uma solução política que terá começado em 2014. Na cabeça e no primeiro grande discurso de António Costa no XX Congresso do PS, há cerca de nove anos?!

Vamos por partes. O dicionário Priberam diz-nos que “geringonça” significa, em sentido figurado, coisa improvisada, com pouca solidez, uma caranguejola.

Ou então aparelho ou mecanismo de construção complexa, uma engenhoca, no fundo “coisa mal feita que se desfaz facilmente”.

O PS, que primeiro rejeitou o termo, acabou a colecionar engenhocas (de dar corda) com pernas tortas, antenas estranhas, peças que parecem querer desconjuntar-se. No Natal de 2016, António Costa surpreendeu até os seus ministros com uma geringonça para cada um, brinquedos fabricados por uma empresa de design internacional.

Acordos assinados entre PCP e PS em 2015 (Foto Lusa)

Em março de 2017, Ana Catarina Mendes mostrou-me a sua própria coleção numa entrevista na SIC Notícias. A conversa foi divertida com a então secretária-geral adjunta a evitar atribuir nomes às engenhocas – a mais instável, quase a cair seria, em sentido figurado, a líder do BE Catarina Martins?

Nessa data já o Bloco de Esquerda tinha dado alguns amargos de boca aos socialistas. Um deles o célebre “imposto Mortágua" sobre o património imobiliário que expôs também o desagrado dos comunistas com o BE, a “perna” da geringonça em que nunca confiaram.

O episódio marcou as negociações do Orçamento do Estado para 2017 com o PCP a citar António Costa: “Com o BE temos grupos de trabalho, com o PCP trabalho de grupo.”

Costa referia-se aos grupos de trabalho sobre precariedade, desemprego, pensões, dívida, habitação que os bloquistas exigiram em anexo às “posições conjuntas”, a expressão escolhida para designar aquilo que não era um programa de governo mas sim plataformas bilaterais de entendimento possível entre PS, BE, PCP e Verdes.

O caminho para chegar a 10 de novembro de 2015, dia da assinatura dos acordos, assenta numa espécie de mito que se ouviu, por estes dias, no PSD e de um opositor desta maioria parlamentar de esquerda, Francisco Assis. Ou seja, que nasceu “quase clandestinamente” sem que o país se apercebesse.

Recuemos então ao XX Congresso com que abro esta crónica. Sem dúvida fez correr muita tinta e levou Assis a abandonar a FIL porque viu “um modelo de partido que não é o meu”.

Carlos César e António Costa no Congresso do PS, em 2014 (Foto Lusa)

E que partido foi este que se apresentou em Lisboa, no fim de novembro de 2014? Com discursos mais à esquerda do que nunca de Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, Carlos César e da jovem esperança, Pedro Nuno Santos.

O tom ouviu-se no discurso de encerramento do novo líder que desafiou PCP e BE a deixar o conforto de “partidos do protesto” e contribuir para soluções. E, olhando para os convidados à sua frente, António Costa sublinhou que o problema com a direita não era de nomes até porque o seu filho se chamava Pedro.

“É um nome de que eu gosto. O problema não é ser Pedro ou ser Rui. É uma questão de políticas. E para prosseguir estas políticas não contem connosco.”

De forma estranha, houve dúvidas sobre a mensagem. Estaria a piscar o olho à esquerda ou à direita?

Na cabeça de dirigentes (e alguns jornalistas) Costa não podia estar a pensar numa aliança à esquerda, portanto, só sobrava a velha hipótese que renasce, ciclicamente, do chamado “bloco central” caso não houvesse uma maioria clara.

Lembro-me de ter esta discussão com colegas e com Ana Catarina Mendes e Edite Estrela, em maio do ano seguinte, numa noite quente em Budapeste onde se realizava uma reunião dos socialistas europeus.

As duas rejeitavam, veementemente, a viabilidade de uma solução com o PCP, o partido que muitos socialistas esperaram que “morresse” tal como tinha acontecido em Espanha, França e Itália .

Como me confidenciou um ex-deputado, mais tarde, muitos pensaram que esse desaparecimento, e o suposto fenómeno conjuntural e episódico do Bloco, haveriam de tornar o PS no grande partido hegemónico da Esquerda.

Felizmente, nas ruas da capital húngara houve oportunidade para uma conversa com António Costa que desfiou outras memórias: a dos “encontros” históricos entre socialistas e comunistas na Faculdade de Direito de Lisboa, na campanha de Jorge Sampaio para a Câmara de Lisboa, na Assembleia da República em 1996, quando o líder parlamentar do PCP, Octávio Teixeira, fazia “pontes” com o PS e até com o PSD.

Ele próprio tinha estado, de uma forma ou outra, em todos estes momentos.

Um mês antes, tive a sorte de ter uma conversa de “pé de orelha”, no bar do Parlamento, com uma comunista que me disse que o partido nunca tinha viabilizado um orçamento porque “nunca tinha sido necessário”, no fundo porque António Guterres e José Sócrates preferiram o PSD e o CDS.

A dúvida instalou-se. Será que o PCP estava disponível para algo diferente?

E qual a importância do “fator Costa” como lhe chamou a jornalista do Público São José Almeida, em agosto de 2016?

Tratava-se, afinal, do filho de um comunista prestigiado, o escritor Orlando Costa, e de um presidente de câmara com quem se deram bem. Acresce a vontade do PCP em evitar um novo governo Passos/Portas.

Ruben de Carvalho (já falecido) diria em síntese: “Se o líder não fosse o Costa, o PCP não tinha a mesma confiança.”

Apesar da teimosia de muitos em ignorar os sinais, Costa continuou a dar pistas até às legislativas. E já perto, em setembro de 2015, dizia às jornalistas da Antena 1, Maria Flor Pedroso e Susana Barros, que não viabilizaria o orçamento de um governo minoritário da direita porque “não há acordo possível”.

Soube, recentemente, que na noite eleitoral telefonou a um camarada de uma empresa de sondagens que se espantou com a alegria do líder socialista que acabava de perder por 32% contra 36%. Queria saber ainda a percentagem de votos do PCP (8,25%).

Juntos com o BE a esquerda somaria uma maioria confortável de mais de dois milhões e meio de votantes.

Tudo isto são fragmentos de memórias da política que mostram que a geringonça tem muito que se lhe diga! E que os tempos que vivemos vão exigir recordar mais ainda.

Por isso deixo mais um aperitivo com frases soltas para saborear:

“Não contarão com o PS para vos ajudar a manterem-se na posição cómoda de ficarem só pelo protesto e não virem também trabalhar para a solução”, António Costa no encerramento do XX Congresso, 30 novembro 2014

“A Comissão Política do Bloco acaba de aprovar o documento resultante das negociações com o PS. A esquerda responde pelo emprego, salários e pensões.” in twitter de Catarina Martins, 6 novembro 2015

“Não é bem um governo. É uma geringonça. O que a vossa geringonça nos oferece é uma espécie de bebedeira de medidas. Tudo a correr e de preferência ao mesmo tempo. Ora as bebedeiras têm um só problema. Chama-se ressaca”, Paulo Portas no debate sobre a moção de rejeição do programa de governo da coligação PàF (PSD/CDS), 10 novembro 2015

“Sim, sim, é geringonça, mas funciona... E até posso acrescentar mais: a nós não nos incomoda nada ser geringonça, mas a vocês incomoda-vos muito que funcione”, António Costa no debate quinzenal, 28 abril 2016

“Não prevejo nem acho que seja plausível que o entendimento dure oito anos, o Governo terá um termo, não é uma solução eterna”, Ruben de Carvalho, in Público, 28 agosto 2016

" Obviamente, é, no plano político, uma pessoa capaz de compreender o fundamental e não o acessório. Por isso, nessas relações que tivemos com António Costa, temos de reconhecer que teve sempre um papel de procura da solução e não do problema", Jerónimo de Sousa, in Lusa, agosto 2019

"Só devo dizer, a título de graça, que quando o António Costa me refere esta possibilidade, no sábado do dia de reflexão das eleições, eu não queria acreditar", Ana Catarina Mendes in Lusa, 27 fevereiro 2021

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