Há racismo em Portugal? Marcelo reconhece que há (mas que a sociedade está a mudar) e não compreende o discurso do Chega. "2/3 do eleitorado desse partido é de imigrantes brasileiros"

11 ago, 18:23

Declarações do Presidente da República numa entrevista exclusiva à CNN Portugal

"Há, obviamente, na sociedade portuguesa imensos traços que têm que ver com o império." Questionado sobre a existência de racismo em Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa remete para a História do país a origem de um discurso racista, mas assegura que a cultura está a mudar, com a ajuda das novas gerações, embora de forma "muito lenta". "Nas crianças e na juventude é patente uma alergia total às discriminações, à xenofobia e ao racismo", sublinhou o Presidente da República.

Comentando uma polémica recente na Assembleia da República, em que André Ventura acusou os imigrantes de serem "subsidiodependentes" e Augusto Santos Silva defendeu  o legado da imigração em Portugal, o chefe de Estado remeteu para a base de apoio ao Chega: "Eu não compreendo o discurso sobre imigração porque 2/3 do eleitorado desse partido é de imigrantes brasileiros e, porventura, africanos."

Excerto de uma entrevista da jornalista Anabela Neves a bordo do carro do chefe de Estado. Marcelo falou ainda sobre o Serviço Nacional de Saúde e os vários pedidos de escusa de responsabilidade dos seus profissionais, de António Costa e da direita - que "deixou o primeiro-ministro governar" - e do momento em que julgou que "ia tudo por água abaixo" no país.

Transcrição do excerto da entrevista

Acha mesmo que não há racismo estrutural? Aquele meio escondido, um bocado como a besta de Bertolt Brecht em relação ao nazismo, ou seja, escondido e que aparece em certas circunstâncias?
Eu acho que há, obviamente, na sociedade portuguesa imensos traços que têm que ver com o império. Imensos traços que têm a ver com o império. Como há nas sociedades colonizadas imensos traços que têm a ver com a experiência da colonização. E, portanto, que vêm à superfície...

Ou seja, ele existe.
Vêm à superfície em imensas circunstâncias. Simplesmente, o que se passa é o seguinte - que é uma coisa que as pessoas têm de perceber: realmente, os fenómenos da cultura cívica são mais lentos, são muito lentos. Não se muda assim de repente.

Muda-se uma lei, pratica-se um ato político, aprova-se uma Constituição. Isso demora tempo, mas, é, apesar de tudo, relativamente rápido.

Mudar a cultura cívica demora imenso tempo e imensas gerações. Mas também há uma realidade que é preciso tomar em consideração. E que é a seguinte. As pessoas morrem. Gerações vão desaparecendo, deixam legados, deixam traços e vão desaparecendo. E as novas gerações vivem, em muitos aspetos, noutro mundo, noutra onda. São globalizadas, mesmo. Mesmo quando não têm poder económico para serem globalizadas em termos de vida, de circulação, circulam na net, circulam nas ideias e, portanto, nas crianças e na juventude, é patente uma alergia total às discriminações, à xenofobia e ao racismo.

Portanto, está otimista em relação a essas gerações.
Eu não tenho dúvidas nenhumas - e já nem falo noutras. que já são mais sofisticadas, universitárias dos 20 anos, dos 30 anos. Não tenho a mínima das dúvidas. Portanto, isto para dizer que eu nem prefiro uma visão otimista e ridente de que não há racismo em Portugal. isso não existe: há. E tem afloramentos mais intensos e menos intensos. Mas também não é a outra visão em que tudo é racismo. [Em que] Só há racismo. Essa é a reação típica, inelutável e será por um tempo indefinido da sociedade portuguesa. Felizmente, acho que não.

Como sabe, há um partido que ainda há pouco teve um confronto com a segunda figura da hierarquia do Estado exatamente por causa desse discurso.
Eu vou-lhe dizer uma coisa que, aliás, já disse várias vezes e não é segredo porque eu falo muito à vontade com os líderes dos diversos partidos. Os que eu conheço, não é o caso desse, que não conhecia muito bem anteriormente, mas os outros conheço há décadas. Eu não compreendo o discurso sobre imigração porque dois terços do eleitorado desse partido é de imigrantes brasileiros e, porventura, africanos. Mas, certamente, brasileiros. Eu sei, eu vi.

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