Migas fez um 360º à esclerose múltipla e tornou-se tricampeão nacional

26 set 2019, 12:57
Miguel Rocha

Miguel Rocha recebeu diagnóstico em 2016 mas recusa deixar-se enrolar na onda da vitimização

Nunca uma onda assustou Miguel Rocha, que aos três anos já apanhava umas ondas às cavalitas do pai.

Por isso, nem mesmo a onda de choque do momento em que, aos 33, os médicos lhe disseram que sofria de Esclerose múltipla o derrubou,

Mais do que o que o diagnóstico, aliás, aquilo que o atirou ao fundo foi o «NÃO» que ouviu à primeira pergunta que fez à médica: «Posso continuar a fazer surf?».

Estávamos em 2016 e nos três meses seguintes Migas, como é tratado pelos amigos, sentiu-se a ir ao fundo.

Porém, como sempre na sua vida, foi o mar a trazê-lo de à tona. E é o bodysurf que o faz andar na crista da onda há três anos consecutivos. Isto, porque o diagnóstico nunca o travou.

E se as palavras «Esclerose Múltipla» passaram a fazer parte da vida de Miguel Rocha em 2016, ele fez um 360º a isso ,seguiu com a vida em frente e desde esse ano sagrou-se sempre campeão nacional da modalidade em que o corpo é a própria prancha, com os atletas a fazerem-se às ondas com uma pequena tábua na mão.

«Planos a longo prazo? Não sei que prazo tenho…»

Apesar da força de vontade de Miguel Rocha, hoje com 36 anos, a doença trouxe-lhe consequências para a vida. Mas o truque dele é tentar tirar sempre o melhor de tudo.

«O que mais caracteriza a doença é o cansaço. Muitas vezes acordo sem vontade de fazer nada e até maldisposto com as pessoas, mas tenho de combater isso», garante.

E o melhor remédio para Migas é sempre ir para o mar.

«Entro no mar e deixo lá as frustrações. E saio sempre de lá com um sorriso na cara», garante.

E aqui voltamos a 2016 e aos meses após ter recebido o diagnóstico. Porque «entrar no mar» foi decisão que tomou e a melhor coisa que fez, assegura-nos.

«Tinha começado a praticar mais a sério há um ano quando recebi a notícia. E inscrevi-me no campeonato sem pensar em vencer, mas mais para estar com o pessoal. Era um meio ainda muito pequeno e eramos todos amigos. Fui mais como escape, para não pensar muito na doença», recorda.

O estímulo competitivo, porém, não demorou a chegar. «Na primeira etapa fui à final, fiquei em quarto e aquilo deu-me uma pica enorme.»

O final desse ano foi melhor do que um sonho, depois de ter começado com a notícia de um verdadeiro pesadelo. O resumo disso mesmo, foi feito no vídeo que pode ver em baixo, da autoria de Ângelo Valente, amigo de Miguel Rocha, que conta também com testemunhos dos adversários no bodysurf.

 

Certo é que aquela «pica» que lhe deu ir à final de uma etapa prolonga-se há três anos em forma de título nacional. E  pode ir a um quarto. «Falta uma etapa e neste momento estou em segundo lugar», revela.

Outra das aprendizagens que veio com a doença foi a de viver cada momento. Surfar cada onda sem pensar na seguinte.

«Passei a fazer planos a curto prazo e a deixar aqueles que tinha a longo prazo porque na verdade não sei que prazo tenho. Deixei de saber se iria concretizar os planos mais distantes e passei a aproveitar mais cada momento», explica.

«Antes gostava de sair à noite com os amigos, beber uns copos e às vezes no dia seguinte era par ir surfar e já não ia. Pensava ‘vou noutro dia’. E agora não faço isso, porque surfar é aquilo que mais gosto de fazer e o mar é aquilo que me dá energia para tudo o resto.»

Viver sem ter tempo para pensar na doença

«Tudo o resto» na vida de Miguel Rocha é muita coisa. Muita coisa mesmo!

Profissionalmente, Migas é designer industrial, algo que lhe ocupa a maior parte do tempo durante o dia. Depois de deixar o trabalho, segue para a loja de surf que abriu na Vagueira, onde mora também. E três vezes por semana ainda arranja tempo para os treinos de basquetebol que o devolvem à infância.

«Jogo no Vagos, que compete na 3.ª divisão. A equipa é praticamente a mesma de quando tínhamos 10 anos. Juntámo-nos e voltámos a jogar juntos», explica, assumindo que a logística não é fácil.

«Os treinos são às 21h30 e acordo todos os dias às 5h30. Às vezes pareço um zombie, mas no fim vale sempre a pena.»

Além de bodysurf, Miguel Rocha voltou também ao basquetebol 

Está visto. Se há coisa que tem de sobra é vontade. «Este ano tinha decidido que não me ia inscrever porque andava muito cansado, mas já sabia que se fosse ver um jogo ou dois o bichinho iria voltar, por isso inscrevi-me», confidencia.

Aliás, desistir parece ser mesmo o único plano que teima em sair-lhe furado.

Isto, porque depois da participação num Mundial de bodysurf na Califórnia (2018) e de ter como melhor participação num europeu o 3.º lugar (2016), Miguel Rocha tinha decidido não participar no Europeu deste ano, que se divide em etapas em Espanha, França e Marrocos.

Adivinhe? Pois, afinal vai.

«Os apoios são curtos até para fazer o Europeu e por isso tinha decidido não ir, mas os amigos que fiz lá fora valem o esforço, por isso vou participar», revela sorridente.

O bodysurf já se tornou desporto de família: o sobrinho de Migas, Tiago Mesquita, sagrou-se campeão nacional júnior em 2018

«Hoje os médicos já não me desaconselham o surf»

Falamos com Migas poucos dias depois de ter sido noticiada uma carta aberta de doentes de Esclerose Múltipla que se queixavam de não ter acesso «a medicamentos inovadores».

O nosso entrevistado, porém, está num grupo restrito de oito portugueses que está inserido num ensaio clínico em que tem acesso a fármacos que ainda não chegaram ao mercado nacional.

Nesse sentido, depois de concluído o estudo, há três semanas Miguel foi ao hospital de Coimbra para lhe ser administrado um medicamento injetável que garante estar a fazer uma enorme diferença.

«A minha médica indicou-me para esse ensaio porque a medicação tradicional não estava a ter em mim os efeitos desejados. E a verdade é que noto uma diferença brutal e sinto-me com muito mais energia agora, apesar de ter passado um bocado mal», alerta.

O episódio que recorda como «um dos piores dias» da vida, foi precisamente aquele em que recebeu o medicamento.

«Estive cinco horas no hospital depois de mo terem administrado e parecia estar bem. Mas quando saí do hospital, num dia com 36 graus, sentia-me gelado. À noite fiz febres altíssimas, a minha namorada diz-me que passei a noite a alucinar e a chorar com dores, mas a verdade é que no dia seguinte estava impecável», sublinha.

Lidando com uma doença degenerativa, Migas nunca sabe o que o dia de amanhã lhe trará, mas a mentalidade não lhe permite pensar nisso. E os sinais que tem recebido dão-lhe confiança.

«Neste momento sinto-me bem e se os médicos me perguntassem se eu queria ficar para sempre como estou hoje, assinava logo», realça.

Importante é manter o mar por perto: «se estiver três ou quatro dias sem ir ao mar sinto-me a ficar mais perro. O exercício faz-me muito bem», garante.

Mas até aquele «NÃO» que acompanhou o anúncio do diagnóstico deixou de ser definitivo.

«Hoje os médicos já não me desaconselham porque sabem que me faz bem», regozija.

 E tendo em conta que Miguel Rocha se tornou num exemplo no que diz respeito à doença, perguntamos-lhe: se alguém com Esclerose múltipla lhe perguntasse se podia continuar a fazer surf, qual seria a resposta?

«Cada caso é um caso, porque a doença pode paralisar músculos, algo que a mim não fez, e ter um surto no mar pode ser mais perigoso, Mas nunca diria ‘não’ daquela forma. Acho que lhe dizia: ‘queres ir, então eu vou contigo.’»

É o mesmo que faz ao desligar o telefone com o Maisfutebol. Vai para o mar, alimentar um outro sonho que começa a ganhar forma.

«Estou a dar aulas de bodysurf a dois miúdos de quatro anos. É mais um sonho que está a nascer e acho que é isso que vou querer fazer no futuro. Estar no escritório mata-me. Por isso quero ver se esta escolinha cresce para passar mais tempo no mar. Porque isso é o que me dá vida.»

De tanto tempo passar no mar, Migas tornou-se um pouco como ele: por mais voltas que dê, vai sempre dar à praia.

 

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