FC Porto-Sporting, 2-2 (crónica)

Sérgio Pires , Estádio do Dragão, Porto
28 abr, 22:37
FC Porto-Sporting (AP Photo/Luis Vieira)

Dois rugidos de campeão no «Primeiro Dia» de um novo dragão

«A princípio é simples, anda-se sozinho», entoa o portuense e sportinguista Sérgio Godinho no primeiro verso de um tema intemporal.

Na verdade, «O Primeiro dia» do resto da vida de André Villas-Boas teve muita gente em redor. O novo presidente foi celebrado por um mar azul de gente ao sentar-se na sua cadeira de sonho, antes de a trocar pelo cadeirão de presidente.

Pinto da Costa mereceu a homenagem de um Dragão inteiro, com Sérgio Conceição a puxar pelo público (ao minuto 42, a simbolizar os 42 anos de presidência que agora findam). Houve também um tributo do Sporting, que entrou em campo com uma camisola vintage, 9 nas costas, a evocar o goleador Manuel Fernandes, que passa por problemas de saúde.

O clássico do Dragão foi carregado de simbolismo.

Uma festa que parecia ter um final feliz no Dragão, até que tudo acabou com um golpe de teatro nos cinco minutos finais. 2-0 aos 86m viraram 2-2 aos 88m e os leões saíram em festa da Invicta.

O Sporting a duas vitórias do título sucumbiu durante mais de uma hora diante de um FC Porto que, deixando na véspera de poder sequer sonhar com o segundo lugar e com a Champions, luta para segurar o pódio – e, já agora, defendeu o recorde de 91 pontos na Liga, em 2021/22, que até hoje era alcançável pelos leões.

Leões no turbilhão e Martim como gente grande

Com João Mário e Pepe indisponíveis, Sérgio Conceição teve de mudar o eixo direito da defesa, levantar a cabeça e olhar para o futuro. Lançou Zé Pedro para fazer dupla de centrais com Otávio e o miúdo Martim Fernandes para a lateral. Duas apostas ganhas vindas da equipa B.

Amorim poupou Gyokeres, com problemas no joelho, só o lançando para a segunda parte, e teve a opção controversa de colocar Gonçalo Inácio na ala esquerda, para segurar Francisco Conceição. Não resultou.

Desde os primeiros minutos que o turbilhão do Dragão fez os líderes do campeonato jogarem sobre brasas.

Não demorou muito Israel a comprometer defensivamente. Bola recuperada por Francisco Conceição, assistência de Pepê e disparo de Evanilson. Golo, logo aos 8 minutos de jogo. Festa no Dragão, que não demoraria muito a voltar a entrar em ebulição.

O Sporting até tinha mais posse de bola (60%-40% ao intervalo), mas de forma completamente estéril. Fogo real tinham os dragões no habitual 4-2-3-1 que se desdobrava com perigo a cada recuperação de bola.

Evanilson arrancou e esteve perto do bis, Francisco Conceição quase ampliou em cima do intervalo, mas entre um lance e outro foi um sprint notável do miúdo Martim Fernandes, a deixar Bragança nas covas e Hjulmand de gatas, que ofereceu a Pepê o 2-0 aos 41m.

O craque brasileiro esteve a grande nível, tal como Evanilson e Francisco, além de uma bela exibição quase até ao fim de Martim, que com 18 anos joga como gente grande. Quando pensarem no futuro do FC Porto, olhem para ele e para outros talentos da formação, como Rodrigo Mora.

Num instante, tudo muda

A vitória parecia ali ao virar da esquina e a segunda parte parecia destinada a arrefecer o jogo. Até àquele minuto 87, em que num instante tudo mudou.

Gyokeres é um predador, um jogador à parte na Liga Portuguesa, capaz de fazer a diferença a qualquer momento. Foi deixado duas vezes à solta e em dois minutos fez dois golos. Um de cabeça, outro num desvio ao segundo poste.

Mais jornada, menos jornada, o Sporting acabará por ser campeão e muito do mérito deste título será devido ao goleador sueco. Um portento de força, um goleador que ganha (ou empata, neste caso) jogos sozinho.

Do lado do FC Porto, quem começa com um clássico da música portuguesa, bem pode acabar com outro entoado por outro portuense: «Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades.»

Há uma nova realidade para nascer. E como cantava José Mário Branco: «Se todo o mundo é composto de mudança, troquemos-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.»

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