"Sete vidas para o meu país": a extrema-direita e os homicídios políticos no Japão

11 jul, 08:38

Um legado de sangue e ferro que se estendeu até aos dias de hoje

O assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe por parte de um antigo oficial da marinha está a chocar o mundo, mas está longe de ser um acontecimento sem precedentes. De candidatos políticos, a primeiros-ministros e presidentes de Câmara, foram levadas a cabo várias tentativas de homicídio nos últimos cem anos. Mas nenhuma enviou tantas ondas de choque quanto o assassinato de Inejiro Asanuma, secretário-geral do Partido Socialista Japonês, durante um debate político televisionado.

O socialista preparava-se para discursar quando um jovem de 17 anos, com uniforme escolar, subiu ao palco com uma tradicional arma samurai e perfurou-lhe o abdómen. Asanuma acabou a esvair-se em sangue, perante uma plateia incrédula, composta por milhares de pessoas, entre as quais o então primeiro-ministro, Hayato Ikeda. Foi declarado morto antes mesmo de chegar ao hospital.

Naquela noite, cerca de 100 membros do Uyoku Dantai, um partido nacionalista japonês, foram ao recinto com o propósito de perturbar o discurso do candidato socialista, numa altura em que a tensão política no país atingia níveis históricos. Mas, para autor do crime, perturbar o discurso não chegou. Quando o socialista subiu ao púlpito para discursar, o jovem correu para o palco com uma wakizachi, uma tradicional espada samurai, e deu um golpe fatal, imortalizado com uma fotografia de Yasushi Nagao, vencedor do prémio Pullitzer do ano seguinte.

Momento em que Yamaguchi desfere o golpe fatal a Asanuma (Yasushi Nagao/Getty Images)

Pouco se sabia sobre o suspeito. Aparentemente jovem, trazia vestido um uniforme escolar e quando foi levado pela polícia para fora do recinto para ser interrogado, saiu com um longo sorriso na cara. O assassino, Otoya Yamaguchi, permaneceu calmo durante todo o interrogatório e respondeu a todas as perguntas colocadas pelas autoridades. Defendeu até ao fim que agiu sozinho e sem receber ordens de outras pessoas e, por ser menor de idade, ficou detido num centro de correção para jovens.

“Sete vidas para o meu país. Longa vida à sua Majestade Imperial, o Imperador”, escreveu na parede do quarto com pasta de dentes, três semanas depois do homicídio. Momentos depois, tirou a sua própria vida. Acabaria por se tornar um herói e um mártir para a extrema-direita japonesa e motivar uma série de ataques cópia.

China e União Soviética foram rápidos a condenar os atentados, com a agência estatal russa a escrever a noticiar o ataque como “um ato de horror cometido por bandidos fascistas”. A agência de notícias chinesa condenou o ataque cometido “por um gangster contratado”.

Apenas um ano antes, Asanuma tinha viajado à China de Mao Tse-Tung e classificou os Estados Unidos da América, o maior aliado japonês, como “o inimigo comum da China e do Japão”. Isto numa altura em que nem os americanos nem os japoneses reconheciam o governo comunista chinês como legítimo. Nem mesmo dentro do próprio partido estas palavras foram bem acolhidas.

Após o incidente, o Partido Socialista Japonês utilizou a morte do seu líder para tentar angariar apoio para vencer as eleições contra o Partido Democrático Liberal, mas a estratégia teve pouco efeito. Os liberais venceram 300 dos 467 lugares disponíveis para o parlamento e os socialistas perderam 23 lugares em relação ao ato eleitoral anterior. 

Inejiro Asanuma transportado para fora do recinto onde foi atacado (Getty Images)

O extremismo político no Japão não é algo inédito. Nos últimos cem anos, as tensões políticas levaram a vários homicídios políticos. Em 1921, Hara Takashi, o primeiro plebeu a tornar-se primeiro-ministro no Japão, foi esfaqueado até à morte numa estação de metro, em Quioto, por um maquinista de extrema-direita, por acreditar que o líder do governo era corrupto.

Nove anos depois, outro primeiro-ministro, Hamaguchi Osachi, foi atacado a tiro por um radical de extrema-direita numa estação de Tóquio. Osachi sobreviveu ao ataque, mas acabou por morrer um ano mais tarde, depois dos ferimentos ficarem infetados.

A 15 de maio de 1932, um grupo de 11 oficiais da marinha japonesa invadiu o gabinete do então primeiro-ministro, Inukai Tsuyoshi, e matou-o, numa tentativa de Golpe de Estado. Este evento é considerado pelos historiadores como o fim do governo civil no Japão, antes da Segunda Guerra Mundial, tendo levado ao controlo do executivo por parte da fação militar do regime japonês.  

O próprio avô de Shinzo Abe, antigo primeiro-ministro Nobusuke Kishi, foi vítima de uma tentativa de homicídio, em 1960. Também Takeo Miki e Morihiro Hokosawa foram atacados, nos anos de 1975 e 1994, respetivamente, mas escaparam com vida.

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