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Estes três homens estão a remodelar o país mais populoso do mundo para torná-lo uma superpotência

CNN , Análise de Diksha Madhok
20 mai, 09:00
Gautam Adani (esquerda), Narendra Modi (centro) e Mukesh Ambani (direita) estão a construir a Índia moderna. Fotomontagem por Alberto Mier/CNN/Getty Images

Em março, uma pacata cidade costeira no estado do Gujarat, no oeste da Índia, podia ter feito Davos e Coachella suar pelo seu dinheiro.

Foi quando bilionários e estrelas de cinema de todo o mundo voaram até Jamnagar, inundando o seu pequeno aeroporto de jatos privados e voos fretados. Estavam todos ali para uma festa com o homem mais rico da Ásia, Mukesh Ambani.

O presidente do conselho de administração da empresa privada mais valiosa da Índia, a Reliance Industries, de 67 anos, tinha organizado uma luxuosa festa pré-casamento para o seu filho, acolhendo cerca de 1.200 convidados de Silicon Valley, Bollywood e mais além. Mark Zuckerberg, Bill Gates e Ivanka Trump estiveram entre as muitas celebridades de alto nível presentes na festa.

A celebração de três dias, que envolveu atuações da estrela da pop Rihanna e do mágico David Blaine, extasiou a Índia e deu ainda mais destaque à crescente influência global de Ambani.

Mas Ambani não foi o único empresário indiano na festa cuja impressionante influência e riqueza está a reformular o país mais populoso do mundo.

O bilionário conterrâneo Gautam Adani, fundador do grupo Adani, também foi convidado. O magnata das infraestruturas surpreendeu o mundo com a sua ascensão vertiginosa na última década. Em 2022, destronou brevemente Jeff Bezos como a segunda pessoa mais rica do mundo.

“Eles são empresários fenomenais, que têm sido capazes de manter um crescimento e desenvolvimento sustentado num ambiente político e empresarial vibrante mas por vezes caótico que existe na Índia”, diz Rohit Lamba, um economista da Universidade Estatal da Pensilvânia.

Os investidores têm aplaudido a capacidade deste duo de apostar habilmente em setores que são prioridades em termos de desenvolvimento para o primeiro-ministro, Narendra Modi, que está atualmente em campanha para o seu terceiro mandato consecutivo a liderar a Índia.

O país do sudeste asiático está em rota para se tornar uma potência económica do século XXI, oferecendo uma alternativa real à China para os investidores que andam à caça de crescimento e para os produtores que estão a tentar reduzir os riscos nas suas cadeias de abastecimento.

A Reliance Industries e o Grupo Adani são grandes conglomerados avaliados em mais de 200 mil milhões de dólares cada um, com negócios estabelecidos em setores que vão dos combustíveis fósseis à energia limpa, aos media e à tecnologia.

O resultado disso é que estes três homens – Modi, Ambani e Adani – estão a desempenhar um papel fundamental na formação da superpotência económica em que a Índia vai tornar-se nas próximas décadas.

Os novos Rockefellers

Na capital financeira da Índia, Bombaim, as impressões digitais dos dois empresários estão em todo o lado, a começar pelo movimento aeroporto internacional da cidade, que é operado pelo Grupo Adani.

O Grupo Adani é um conglomerado massivo de infraestruturas na Índia (Noemi Cassanelli/CNN)

Os seus nomes estão espalhados por toda a cidade – desde as letras que saltam à vista no logotipo do Grupo Adani nas margens de autoestradas aos altos edifícios de apartamentos com a marca Adani Realty, às instituições culturais batizadas em honra do clã Ambani.

Alguns espaços não precisam de nomes ou de rótulos brilhantes, mas as suas afiliações são igualmente óbvias. Toda a gente em Bombaim sabe quem vive no Antilia – o arranha-céus detido por Ambani e a sua família, cuja construção terá alegadamente custado 2 mil milhões de dólares e que tem um spa, três heliportos e uma sala de cinema com 50 lugares. O edifício de 27 andares fica numa rua apelidada de “Billionaires’ Row”, com a sua arquitetura geométrica proeminente a dominar o bairro.

O tipo de poder e influência de que estes magnatas indianos gozam já se verificou anteriormente noutros países que experienciaram períodos de rápida industrialização.

O Antilia, residência da família Ambani, fotografado em Bombaim a 17 de abril de 2024 (Noemi Cassanelli/CNN)

Tanto Ambani como Adani são muitas vezes comparados por jornalistas a John D. Rockefeller, que se tornou o primeiro bilionário da América durante a Era Dourada, um período de 30 anos nas últimas décadas do século XIX.

Durante essas décadas, os industriais viram as suas fortunas atingir alturas espantosas graças à rápida expansão dos comboios, fábricas e centros urbanos por toda a América. Outros nomes famosos incluindo Frick, Astor, Carnegie e Vanderbilt também moldaram as infraestruturas do país.

Recentemente na Ásia, os “chaebols” ou conglomerados gigantes familiares dominaram a economia da Coreia do Sul durante décadas e muitos deles, incluindo Samsung e Hyundai, tornaram-se líderes dos setores de semicondutores e automóveis a nível global.

“A Índia está a atravessar algo que a América e muitos outros países já viveram. A Grã-Bretanha nos anos 1820, a Coreia do Sul nos 1960 e 70, e poder-se-ia argumentar que a China nos 2000”, diz James Crabtree, autor de “The Billionaire Raj”, um livro sobre os mais ricos da Índia.

É “normal” para nações em desenvolvimento atravessarem um período destes, de rápido crescimento, em que se assiste à “acumulação de rendimentos no topo do topo, a crescentes desigualdades e a muito capitalismo de compadrio”, acrescenta Crabtree.

A economia indiana tem muitas destas características.

Avaliada em 3,7 biliões de dólares em 2023, é atualmente a quinta maior economia do mundo, tendo saltado quatro lugares nos rankings durante a década em que o Modi esteve no poder e ultrapassando o Reino Unido.

A Índia é uma das economias mundiais que está a crescer mais depressa

O PIB per capita da Índia cresceu 55% entre 2014 e 2023. O país também passou de ser a nona maior economia do mundo para a quinta maior durante o mesmo período, e também experienciou o maior crescimento do PIB em comparação com outras grandes economias.

Fontes: Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional (Gráfico: Rachel Wilson/CNN)

Está numa posição confortável de expansão a uma taxa anual de pelo menos 6% nos próximos anos, mas os analistas dizem que o país deveria apontar a mira a um crescimento de 8% ou mais se quer tornar-se uma superpotência económica.

Uma expansão sustentada fará com que a Índia suba ainda mais na hierarquia das maiores economias do mundo, com alguns observadores a antevêem que a nação do sul da Ásia se torne a terceira maior economia em 2027, apenas atrás dos Estados Unidos e da China.

Apesar destes sucessos, o aumento do desemprego jovem e as desigualdades continuam a ser problemas persistentes. Em 2022, de acordo com o Banco Mundial, o país ocupava a 147.º posição em termos de Produto Interno Bruto (PIB) per capita, uma medida que avalia o nível de vida.

Do carvão à energia solar, do petróleo à internet

Para estimular o crescimento económico, o governo de Modi deu início a uma transformação massiva ao nível das infraestruturas, gastando milhares de milhões a construir estradas, portos, aeroportos e ferrovias.

Também está a promover fortemente a conectividade digital, o que poderá melhorar tanto o comércio quanto a vida quotidiana.

Quer Adani, quer Ambani tornaram-se aliados-chave da revolução em que o país embarcou.

“Estes conglomerados são muito, muito importantes e são muito bem relacionados”, diz Guido Cozzi, professor de macroeconomia na Universidade de St. Gallen na Suíça, destacando que tanto o Grupo Adani quando a Reliance Industries foram fundados anos antes de Modi chegar ao poder.

“Estes não são os típicos conglomerados monopolísticos estagnados, são bastante dinâmicos”, diz Cozzi. Não só estão a desempenhar “um papel importante” na construção de infraestrutura, que ajuda “diretamente o crescimento”, como os dois grupos empresariais estão também a expandir o país “indiretamente” ao aumentarem a conectividade através da inovação digital, explica.

O Reliance foi fundado pelo pai de Ambani, Dhirubhai, como uma pequena empresa de comércio de fios em Bombaim em 1957. Ao longo das décadas seguintes, cresceu e transformou-se num conglomerado colossal que abarca os setores da energia, petroquímicos e telecomunicações.

Após a morte do seu pai, e depois de uma disputa amarga com o seu irmão mais novo, Ambani herdou os principais ativos de petroquímicos e petróleo da empresa. Depois, gastou milhares de milhões a transformá-la numa gigante tecnológica.

Em menos de uma década, Ambani não só revolucionou o setor das telecomunicações na Índia, como também se tornou protagonista em setores que vão dos meios de comunicação social ao comércio a retalho.

Após lançar a rede de comunicações móveis Jio em 2016, Ambani fez explodir o crescimento da internet e das telecomunicações da Índia (Noemi Cassanelli/CNN)

A sua ambição e ritmo alucinante de expansão são igualados por Adani, que desistiu da universidade e que agora está ao leme de negócios que vão dos portos à energia, à defesa e à indústria aeroespacial.

Empresário de primeira geração, o multimilionário de 62 anos deu início à sua carreira com o comércio de diamantes, antes de criar uma empresa de comércio de mercadorias em 1988, que mais tarde se transformou na Adani Enterprises Limited (AEL).

De acordo com uma nota da empresa americana de corretores Cantor Fitzgerald, em janeiro, a AEL “está no centro de tudo o que a Índia pretende alcançar”.

A empresa funciona como uma incubadora para os negócios de Adani. Muitos deles foram desmantelados e tornaram-se líderes nos seus respetivos setores. Segundo a Cantor, o atual foco da empresa em aeroportos, estradas e no mercado energético fazem com que seja “uma oportunidade única de investimento de longo prazo”.

E embora os dois barões tenham construído grande parte da sua fortuna a partir dos combustíveis fósseis, agora estão a investir em energia limpa. A sua viragem para a energia verde surge numa altura em que a Índia estabeleceu para si própria ambiciosos objetivos climáticos.

A maior economia em crescimento do mundo conta com outros conglomerados para além destes. O Grupo Tata, com 156 anos, detém um poder imenso em vários setores-chave que vão do aço à aviação, mas muitas vezes não é alvo do mesmo escrutínio que os conglomerados mais recentes, sobretudo porque é controlada por fundos fiduciários filantrópicos e não é gerida como uma dinastia familiar.

‘Demasiado grande para ignorar’

Ambani e Adani são considerados vocais defensores de Modi. Políticos proeminentes de partidos da oposição na Índia muitas vezes questionam as ligações de Modi aos super-ricos da Índia, e a subida meteórica de Adani tornou-se uma questão delicada no ano passado.

Mukesh Ambani (à direita) fotografado com Narendra Modi (ao centro) numa cerimónia de graduação de uma universidade no estado do Gujarat, no oeste da Índia, a 19 de outubro de 2013 (Amit Dave/Reuters/File)

Em janeiro de 2023, o grupo foi abalado por uma crise sem precedentes quando um vendedor americano a retalho, o Hindenburg Research, o acusou de estar envolvido em fraude há décadas.

Adani rejeitou as acusações do Hindenburg como “infundamentadas” e “maliciosas”. Mas isso não conseguiu travar um colapso impressionante no mercado bolsista que, a certa altura, eliminou mais de 100 mil milhões de dólares do valor das suas empresas cotadas.

Os líderes políticos do principal partido da oposição na Índia questionaram ferozmente a relação de Adani com o primeiro-ministro, e alguns chegaram mesmo a dizer que foram castigados por terem abordado a questão.

Desde então, Adani firmou uma recuperação notável, com as ações em bolsa de algumas das suas empresas a atingirem valores recorde. Apesar do escândalo, o grupo também conseguiu atrair milhares de milhões de novos investidores estrangeiros, incluindo da empresa americana de capitais privados GQG Partners.

“Embora esse relatório tenha trazido sérias preocupações à luz do dia, acreditamos que a empresa tomou medidas para reduzir o risco de liquidez, melhorar a governação e aumentar a transparência”, disse a Cantor no seu relatório. “Assim, nesta conjuntura, acreditamos que o Adani é demasiado grande para ser ignorado, e no que toca à Índia, acreditamos que o país precisa do Adani tanto quando o Adani precisa do país.”

O Adani opera o porto de Mundra, em Gujarat, o maior porto comercial do país em volume (Punit Paranjpe/AFP/Getty Images)

Agora, com a Índia em processo eleitoral, a alegada relação de Modi com os bilionários está novamente a ser questionada pelos seus rivais.

Prasanna Tantri, professor associado de finanças na Indian School of Business, diz que não acredita que haja “motivo para acreditar que as coisas estão piores do que antes” no que toca ao capitalismo de compadrio na Índia.

Alguns processos, nomeadamente uma maior transparência na alocação dos recursos naturais da Índia e a reforma da legislação nacional em matéria de falências, foram reformas importantes implementadas por Modi, acrescenta.

Os especialistas dizem que uma certa proximidade entre os políticos e a elite empresarial pode contribuir para um crescimento mais rápido da nação.

“O nível ideal de corrupção numa economia nunca é zero”, diz Crabtree, acrescentando que a Índia precisa de criar instituições mais independentes que consigam manter a corrupção sob controlo.

Contudo, o domínio de grupos tão grandes sem controlo pode asfixiar a concorrência e a inovação e, em última instância, conduzir à estagnação de uma economia.

O novo governo tem de incentivar o empreendedorismo e a inovação, facilitando a angariação de fundos por parte das pequenas empresas e eliminando leis arcaicas, incluindo as regras fiduciárias e laborais, que podem dificultar a atividade empresarial. Se não o fizer, poderá asfixiar o futuro crescimento da Índia.

Alguns grandes conglomerados não podem absorver os milhões de pessoas que todos os meses entram no mercado de trabalho, diz Lamba, que é também coautor de ‘Breaking the Mould’, um livro de 2023 que examina como a terceira maior economia da Ásia pode crescer mais rapidamente.

“A Índia não pode enriquecer antes de envelhecer à custa de algumas grandes empresas como o Grupo Adani ou o Ambani”, diz. “A Índia deve criar mais empresas.”

Jessie Yeung da CNN contribuiu para esta reportagem a partir de Bombaim

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