"Distorção", "agonia", "loucura", "viciados no dinheiro estrangeiro": um dos textos mais lidos num dos jornais mais importantes do mundo arrasa o que o Governo de Costa fez à habitação em Portugal

CNN Portugal , ARC
31 jul 2023, 11:33
Habitação (Manuel de Almeida/Lusa)

Em causa estão medidas como as que visam a atração de nómadas digitais ou os vistos gold, entre outras

As tentativas para “atrair dinheiro estrangeiro” levaram o mercado imobiliário em Portugal à "loucura". Este é o retrato do sector da habitação em Portugal feito pelo jornal inglês The Guardian - e o artigo em causa estava entre os 10 mais lidos do jornal ao início desta segunda-feira.

Os nómadas digitais, os vistos gold e os arrendamentos de curta duração em Airbnbs são bons para quem vem mas uma grande parte do problema para quem cá está, que se vê a braços com custos insuportáveis. É o caso de Margarida e Lizandro.

“Aqui gastamos quase 90% do nosso salário em renda todos os meses”, conta Margarida Custódio ao Guardian, revelando que o que sobra do orçamento mensal serve para pagar as contas e a alimentação. A portuguesa, que tem uma filha de três anos, vive numa “agonia mensal”, como descreve o jornal, e conta: “É como viver no limite”.

A viver no Bairro da Jamaica, no Seixal, Lizandro Batista de Sousa Pontes encontra-se numa situação “ainda mais perigosa”, diz o Guardian. Assistiu à demolição de uma parte do bairro onde habita na semana passada mas recusa-se a sair, enfrentando um processo judicial contra a demolição. "Estávamos dentro da casa quando a estavam a deitar abaixo. A casa estava a tremer. O meu filho de seis anos começou a chorar quando viu as demolições porque tinha medo que fôssemos para a rua”, conta o homem, que se recusa a sair e a ir viver num apartamento T2 da irmã, onde já estão cinco pessoas.

“A situação é de loucos”, diz Agustín Cocola-Gant, investigador do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa, que garante que a situação é transversal a toda a população e não se fica pelos mais vulneráveis. "Há famílias que não mandam os filhos para a universidade porque não podem pagar um quarto para eles e jovens profissionais que ganham 1000 euros por mês - que é o salário médio - estão a ver-se impossibilitados de viver”, retrata.

A investigadora na área da habitação Rita Silva avisa ainda: “Está a afetar a sociedade de diferentes formas e vai ter um impacto económico no futuro”. A também ativista aponta o dedo às políticas do Governo centradas no investimento estrangeiro, que estão a deixar para trás quem vive e trabalha no país.

O Guardian fala de uma “distorção de forma irreconhecível” do mercado imobiliário e de uma “crise” alimentada pela desregulamentação, bem como por “uma série de esquemas destinados a atrair o investimento estrangeiro”. O resultado são os “custos de habitação elevados” para os habitantes locais da capital e não só, num país onde 50% das pessoas ganham menos de mil euros por mês.

Nómadas digitais: uma fatia do bolo das dificuldades

Os nómadas digitais são apontados pelo Guardian como uma das estratégias do Governo para atrair investimento e que, como consequência, dificulta a vida dos portugueses no que ao mercado da habitação diz respeito.

Baptiste Cumin é engenheiro francês e um dos 15.200 nómadas digitais que, segundo a Nomad List, estão em Lisboa. “Antes havia pessoas a gentrificar os bairros. Agora, com o trabalho remoto, é possível gentrificar países”, diz Baptiste Cumin ao jornal.

Este francês de 27 anos afirma ter-se “torturado” antes da mudança com a namorada para serem vistos como imigrantes em Portugal e não expatriados: “O acordo que fiz comigo mesmo foi 'vamos mudar-nos para cá mas vamos tentar fazê-lo corretamente'. Tive aulas intensivas de Português e aprendi sobre a História de Portugal".

Quem procura o país parece ter consciência das dificuldades com as quais os locais se debatem: “Talvez sejamos um problema neste momento, mas acho que podemos encontrar uma solução e acho que o Governo está a fazer um mau trabalho ao não colocar um limite no mercado", diz Iva Divic-Baetens, consultora de marketing croata, em Lisboa desde maio.

O regime fiscal português tem ajudado a aumentar o interesse dos nómadas digitais, já que não é necessário ter sido residente fiscal no país nos cinco anos anteriores e exercer uma das atividades de elevado valor acrescentado. Há seis cidades portuguesas entre os 40 melhores destinos para os nómadas digitais.

Os nómadas digitais são “uma população privilegiada que tira partido desta desigualdade global”, diz Agustín Cocola-Gant. Contudo, o investigador da Universidade de Lisboa garante que estes são “apenas uma pequena parte do problema”.

Que soluções existem?

Os problemas são muitos e as soluções apontadas por quem sente o problema da habitação na pele também, como mostra o Guardian.

Margarida Custódio fala num repensar de toda a situação do sector imobiliário. “Tem de ser resolvido estruturalmente, senão estamos apenas a pôr um penso numa ferida aberta”, afirma, garantindo que o problema não se resolve com "medidas como estas do Governo”, referindo-se não só aos nómadas digitais mas também aos vistos gold e aos Airbnbs.

Lizandro Batista de Sousa Pontes, que habita num bairro em processo de demolição, apela a algo “ainda mais simples”: “Só peço que me tratem como um cidadão normal, que me deem os mesmos direitos que a todos os outros e que me deem um sítio decente para viver”.

A investigadora Rita Silva, por sua vez, garante que “a solução é simultaneamente muito mais simples e muito mais complicada”, já que o país está “viciado” no dinheiro estrangeiro. “Estamos a pedir que as casas vazias sejam disponibilizadas porque não é aceitável ter milhares de casas vazias durante uma emergência de grandes dimensões” afirma a ativista, pedindo também que “os despejos sejam suspensos porque as pessoas não têm para onde ir”.

E finaliza: "Não acho que o que estamos a pedir seja impossível, radical ou irrealista. Estamos apenas a pedir coisas que ajudariam a resolver a crise da habitação”.

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