O analista de mercados financeiros, Vítor Madeira, explica à CNN Portugal o que aconteceu na quinta-feira em Wall Street, quando a bolsa foi surpreendida por uma "queda forte e rápida", e o que pode acontecer nos próximos tempos
Esta quinta-feira, os mercados assustaram-se, após a venda maciça de ações, sobretudo de empresas ligadas à Inteligência Artificial (IA). No total, desapareceram, numa questão de horas, mais de 2,5 biliões de dólares, todos os 11 setores do S&P 500 fecharam em baixa e o Nasdaq, um dos principais índices bolsistas dos EUA que reúne milhares de empresas cotadas como a Nvidia, a Apple, a Microsoft e a Amazon, sofreu mesmo a maior quebra em 19 meses, de acordo com a Reuters.
"Foi uma queda muito forte", diz o analista de mercados financeiros Vítor Madeira. “Estamos a falar da maior queda do Nasdaq em 19 meses. Há aqui um catalisador específico: as notícias apontavam para os democratas, para a possibilidade de as empresas ligadas à inteligência artificial virem a ser afetadas no futuro. Mas, sinceramente, como analista e trader profissional, parece-me que houve sobretudo uma realização de mais-valias. Estas empresas já vinham a dar sinais de queda, não é de agora. Há pelo menos um mês que mostravam sinais e os investidores aproveitaram para realizar mais-valias”, explica.
O especialista lembra que não é segredo que o mercado está atualmente “muito alavancado” sobre as empresas tecnológicas e argumenta que o fenómeno que se verificou esta quinta-feira pode resumir-se a uma convergência de “chamadas de margem que obrigaram muitos fundos a fechar posições à pressa”, ou seja, os investidores assustaram-se.
“É a minha interpretação. Não há uma justificação absolutamente certa; não conseguimos dizer que foi por uma única razão”, sublinha.
Inteligência Artificial
A ideia de que este foi o primeiro ato de uma queda sob efeito dominó das empresas de IA é algo que é “difícil” de constatar, pelo menos para já, segundo Vítor Madeira. Mas o analista alerta que há outro ângulo que se deve ter conta nesta análise que é o facto destas empresas estarem a “apresentar os melhores resultados de sempre”.
“Se olharmos para as empresas que fornecem a infraestrutura da IA - as que vendem cabos, constroem centros de dados, fornecem energia, ventiladores, componentes e chips -, muitas apresentaram resultados cada vez melhores”, observa.
No entanto, realça que existe uma "questão" que está a gerar incerteza, sendo aconselhável ter em conta que os mercados tendem a não gostar de incertezas: "Como é possível apresentarem os melhores resultados de sempre, com expectativas de resultados ainda melhores nos próximos trimestres, e as ações estarem a cair? Os próximos trimestres podem ser melhores do que estes, mas será que os seguintes continuarão a ser melhores ainda?"
Para Vítor Madeira, o ecoar destas perguntas em Wall Street pode esconder algo preocupante, porque ao passar a "ser algo questionável" passa também a ser um indício de que "o mercado começa a antecipar esta possibilidade”.
Contudo, por outro lado, é "normal que as correções também sejam agressivas". "O mercado exagera nas subidas e, por vezes, exagera nas quedas", refere o analista.
Quanto ao argumento da bolha, Vítor Madeira recua ao ano 2000 para utilizar como exemplo a bolha das dotcom, em que houve uma onda de especulação financeira com os investidores a alocarem milhares de milhões de dólares em empresas ligadas à Internet, para identificar uma diferença significativa: "Estas empresas de IA estão a produzir cada vez mais e a apresentar os melhores resultados de sempre. Por isso, não diria já que estamos perante uma bolha. O mercado está a olhar para aquilo que poderá acontecer mais à frente", argumenta.
Democratas e o ódio aos data centers
A CNN Internacional escreve que a vitória democrata no Texas foi "um fator crucial para a liquidação", lembrando que "o Texas desempenhou um papel fundamental na aceleração dos avanços na Inteligência Artificial, com empresas como a Google, Meta, Oracle e OpenAI a fazerem investimentos maciços em data centers". E agora a governadora democrata texana eleita, Gina Hinojosa, sustentou parte da campanha com a promessa de uma moratória temporária para restringir os data centers e eliminar certos incentivos fiscais.
Vítor Madeira garante que "não acredita" nesta ligação. "Por entrarem os democratas, os data centers vão parar todos de repente?", questiona, lembrando que, após a vitória democrata, "o Nasdaq chegou a recuperar cerca de 3% nesse dia e só no dia seguinte é que caiu fortemente".
Para o analista de mercados financeiros, a questão é mais simples: ninguém quer perder dinheiro. "O mercado não está a pensar apenas no que vai acontecer daqui a um mês, está a tentar antecipar o que poderá acontecer daqui a nove meses, um ano ou até daqui a três anos e, na cabeça de muitos investidores, pode estar a chegar o momento de sair enquanto as ações ainda estão em níveis elevados."
Ou seja, sublinha Vítor Madeira, o mercado atribui "mais importância à realização de mais-valias e às expectativas para os resultados futuros".
Mercado "em correção"
Vítor Madeira admite que "não estava à espera de uma queda tão rápida". Era "antecipado que o mercado pudesse estar a entrar em correção", mas "uma coisa é corrigir e outra é vermos tudo acontecer de forma tão brusca".
Mas para o analista isto não quer dizer que o mercado esteja à beira de um crash. Vítor Madeira destaca que na Europa as ações não caíram ao ritmo norte-americano e na China a bolsa até esteve em subida na quinta-feira. "O ouro e a prata também subiram, enquanto o dólar não disparou e, se estivéssemos perante um crash generalizado, esperaríamos movimentos muito mais abrangentes", argumenta, apontando que mesmo o Dow Jones não teve uma queda comparável à das tecnológicas.
"Por tudo isso, não vejo que seja, para já, um colapso dos mercados", defende, considerando que "o mercado deu um primeiro aviso de que algo sério poderá acontecer no futuro". "Ainda é muito cedo para preocupações maiores, mas é um aviso", insiste.
Em termos técnicos, o mercado está numa zona de resistência, explica o analista. O futuro vai agora passar por duas alternativas: "Se conseguir ultrapassá-la, poderá recuperar mais; se não conseguir, poderá voltar a cair."
Vítor Madeira antecipa dias de acalmia nos mercados, tendo em vista que "depois de uma queda tão forte é natural que o mercado tenha de respirar".
"Mas é cedo para tirar conclusões", ressalva. "Isto realçou uma vulnerabilidade ainda maior no sector da IA: quanto mais os investidores contraem empréstimos para apostar neste boom, mais dolorosas poderão ser as consequências quando a confiança começar a desmoronar-se."