Depois de alcançarem subidas históricas nos últimos meses, os mercados asiáticos mais expostos ao setor tecnológico registaram esta semana perdas
As elevadas avaliações das empresas tecnológicas, a realização de mais-valias após meses de subidas e as dúvidas em torno do desenvolvimento da inteligência artificial (IA) estão entre os fatores que explicam as fortes quedas registadas esta sexta-feira nas principais bolsas asiáticas, segundo analistas.
Depois de alcançarem subidas históricas nos últimos meses, os mercados asiáticos mais expostos ao setor tecnológico registaram esta semana perdas que os especialistas associam também ao novo cenário político nos Estados Unidos, onde o Partido Democrata retirou ao Partido Republicano a maioria nas duas câmaras do Congresso, nas eleições intercalares de terça-feira.
O resultado eleitoral enfraqueceu a confiança dos investidores perante a possibilidade de serem impostas restrições mais apertadas aos centros de dados, fundamentais para o desenvolvimento da IA, explicou à EFE Vincent (Doo-un, Kim), analista da Hana Securities.
Por sua vez, o estratega financeiro Gary Dugan relacionou as quedas com fatores como "avaliações excessivas no setor tecnológico, realização de mais-valias e preocupações com os elevados investimentos em centros de dados".
Seguem-se alguns dos principais fatores por detrás de uma correção bolsista que, segundo os analistas, não tinha paralelo desde 2020:
Quedas entre 4,5% e 6%
As bolsas de Taipé, Seul e Tóquio, particularmente expostas ao setor tecnológico e onde estão concentradas empresas fundamentais para as cadeias de abastecimento globais da IA, encerraram a sessão com perdas de 4,51%, 6,02% e 5,96%, respetivamente.
As quedas acentuadas surgiram depois de o índice norte-americano Nasdaq ter recuado 5,52% na quinta-feira, em Wall Street, pressionado pela venda de ações de empresas ligadas à IA.
Taiwan: de exemplo de sucesso na Ásia a uma queda de 20% num mês
A bolsa de Taipé tinha sido um dos mercados mais rentáveis da Ásia desde o início do ano e tornou-se uma das principais apostas dos investidores. No entanto, o seu principal índice, o Taiex, que inclui empresas como a TSMC, fabricante de semicondutores avançados, e a Foxconn, responsável pela montagem de servidores, acumulou uma desvalorização de 20,31% no último mês.
O aumento dos custos de financiamento, a subida das despesas de investimento e resultados abaixo das expectativas por parte das principais empresas do setor geraram preocupação entre os investidores estrangeiros. Em outubro, estes venderam ações taiwanesas no valor líquido de 31.780 milhões de dólares, um máximo mensal histórico, segundo a Bloomberg.
Coreia do Sul: das subidas históricas à tendência de queda
O principal índice da bolsa de Seul, o Kospi, chegou a registar perdas superiores a 8% durante a sessão desta sexta-feira, embora tenha recuperado parte do terreno até ao fecho, terminando com uma descida de 6,02%. Depois de uma valorização histórica nos últimos meses, o índice devolveu parte dos ganhos e voltou a níveis próximos dos registados no início do ano.
Em junho de 2025, quando Lee Jae-myung assumiu a Presidência da Coreia do Sul, o Kospi situava-se em torno dos 2.700 pontos. Desde então, iniciou uma trajetória de subida que o levou a ultrapassar pela primeira vez os 5.000 pontos em janeiro e os 9.000 em junho, acumulando uma valorização de 18,7% desde o início do ano.
Com gigantes como a Samsung Electronics e a SK hynix, Seul, que já tinha anunciado medidas para dinamizar o mercado bolsista, revelou esta sexta-feira que vai isentar as sociedades de valores mobiliários, durante três meses, da obrigação de manter garantias de 140% nos empréstimos destinados à compra de ações. A medida pretende reduzir as vendas forçadas de títulos.
Japão: do pico de 72 mil pontos à queda abaixo dos 60 mil
O principal índice da bolsa de Tóquio, o Nikkei, atravessou um período de forte volatilidade nos últimos meses. Depois de atingir um máximo de 72 mil pontos no final de junho, caiu esta sexta-feira para menos de 60 mil, com uma desvalorização de 5,96%, pressionado pela venda de ações ligadas aos semicondutores e à IA.
A fabricante japonesa de chips de memória Kioxia é um exemplo da volatilidade do mercado de Tóquio. Em junho, a empresa tornou-se a cotada com maior capitalização bolsista do Japão, impulsionada pelo crescimento dos investimentos em empresas ligadas à IA. No entanto, desde que atingiu o máximo histórico, perdeu mais de 70% do seu valor em bolsa.
Recompra de ações para tranquilizar os investidores
Na China, as bolsas também entraram numa tendência de queda, levando as empresas cotadas a registar o segundo maior volume de recompra de ações próprias de sempre.
Esta prática, habitual em períodos de correção dos mercados, consiste na utilização de parte da liquidez das empresas para comprar os seus próprios títulos, numa tentativa de sustentar a respetiva cotação em bolsa.