Ele correu 4926 quilómetros em 84 dias. Todos os dias foi parado pela polícia

CNN , Por George Ramsay
1 out, 16:00
Hellah Sidibe esqueceu o futebol e optou por correr todos os dias. Já passaram cinco anos (Imagem Life Time)

Todos os dias, faça o tempo que fizer, Hellah Sidibe ata os ténis de corrida e vai para a estrada, parque ou trilho que estiver mais perto.

É um ritual que tem mantido nos últimos cinco anos e meio. Sidibe, com 31 anos, não pretende quebrá-lo nos próximos tempos, esteja onde estiver e seja o que for que a vida lhe traga.

“Neste momento, não quero exagerar, mas vejo-me a fazer isto o resto da vida”, disse à CNN.

A 15 de maio de 2017, Sidibe decidiu correr durante dez minutos todos os dias durante duas semanas. Cansado de fazer promessas vãs acerca de ir ao ginásio, quis responsabilizar-se por uma rotina de exercício pequena e exequível.

Sidibe não tardou até aumentar as suas ambições. As corridas começaram a ser mais rápidas e mais longas e, pouco depois, planeou correr todos os dias durante um ano.

Os dias foram passando e foi gradualmente conquistando mais marcos – dois anos, três anos, mil dias. Os únicos limites que Sidibe continua a impor são que as corridas sejam ao ar livre e tenham pelo menos 3200 metros.

Sidibe começou a correr todos os dias em 2017 (Cortesia da Life Time)

Sem o saber, tornou-se um streaker runner – o nome dado às pessoas que assumem o compromisso a longo prazo de correr todos os dias.

Segundo a Streak Runners International e a United States Running Streak Association, uma organização que cataloga as séries de corridas, Jon Sutherland, de 71 anos, lidera a lista ativa de running streaks com 53 anos – quase 19.500 dias.

Enfrentar os medos

Podem ainda faltar décadas para Sidibe se juntar aos discípulos de longa data do streak running, mas o seu percurso de cinco anos e meio redefiniu radicalmente a perspetiva que ele tinha desta modalidade.

Quando era uma jovem promessa do futebol, Sidibe via a corrida como um castigo e era incapaz de dormir nas noites antes dos testes de condição física.

Isso mudou rapidamente com o advento da sua streak running.

“Eu disse apenas: ‘Quero enfrentar o medo, mas vou ser eu a chamá-lo’”, lembra-se Sidibe. “Não ia afastá-lo, ia chamar algo que não conhecia. Ia transformá-lo em algo que talvez não fosse assim tão mau.”

“Eu via a corrida como um privilégio que nem toda a gente tem”, continua. “Quero usar esse privilégio que tenho, quando há pessoas que nem conseguem andar, quanto mais correr. Isso alimenta algo em nós, e vamos para a rua fazê-lo, não há desculpas.”

No Mali onde cresceu, Sidibe chegava a passar dias inteiros a jogar futebol nas ruas e campos perto da sua casa. Ele e os amigos idolatravam o grande jogador brasileiro Ronaldo – chegaram a pintar grosseiramente o seu nome e o número nove nas costas das camisolas – e, ao mesmo tempo, Sidibe sonhava jogar pelo Chelsea na Premier League.

Quando a família se mudou para os EUA, esses anseios ganharam força. Sidibe jogou futebol na 1.ª Divisão da NCAA pela Universidade de Massachusetts e veio mais tarde a conseguir o interesse de clubes da Major League Soccer e da Bundesliga 2, a segunda divisão alemã.

Assinou um contrato profissional com os Kitsap Pumas, uma equipa afiliada dos Seattle Sounders, mas problemas com o visto e o limite de cidadãos não americanos permitidos num plantel da liga principal de futebol travaram o seu progresso.

Por fim, Sidibe desistiu da carreira no futebol.

“Isso magoa. Não interessa o quanto trabalhemos, mas aquele papel impede-nos”, diz acerca dos problemas com o visto.

“Coisas que eu não controlava deixaram-me num estado que, em retrospetiva, foi sem dúvida de depressão. Sempre fui uma pessoa alegre, mas dei por mim sempre triste… Entrei num período negro da minha vida em que não gostava de nada, não sorria tanto, e não falava tanto com as pessoas como fazia antes.”

Atravessar a América a correr

Mesmo agora que Sidibe é cidadão americano, não tem intenção de voltar ao futebol. A paixão pela modalidade diminuiu depois de ter passado pelas trocas de equipas e testes.

Com o passar do tempo, a corrida tornou-se um pilar da sua vida e, ao fim de 163 dias, a namorada convenceu-o a fazer um vídeo para o YouTube sobre streak running.

Com o título “porque corro todos os dias”, foi um sucesso imediato. As visualizações e os comentários foram uma enchente e o casal tornou-se YouTuber “da noite para o dia”, segundo Sidibe. Hoje, o canal do casal, HellahGood, tem 276 mil subscritores. Os principais vídeos obtêm milhões de visualizações.

Além das atualizações da sua série de corridas, o canal também documenta a experiência de Sidibe a enfrentar provas de resistência – incluindo a sua recente participação na Life Time Leadville Trail 100 Run, uma corrida emblemática de 160 quilómetros no Colorado, e uma corrida de 4926 km e 84 dias a atravessar a América.

Sidibe crê que é o primeiro negro a terminar uma travessia a solo da América em corrida, um feito que ele concretizou no ano passado ao correr mais de 58 quilómetros por dia, tendo atravessado 14 Estados.

O desafio não pôs à prova apenas a sua resistência. Sidibe diz que foi travado e interrogado pela polícia todos os dias, explicando sempre que estava a realizar uma corrida transcontinental para fins de caridade – a angariar fundos para a organização sem fins lucrativos Soles4Souls – e que a autocaravana à sua frente era uma equipa de apoio com duas pessoas.

Ele também disse que lhe disseram palavrões, fizeram ofensas raciais, e que chegou a ser ameaçado com uma faca enquanto corria pela famosa Route 66.

Porém, entre esses episódios, houve momentos “bonitos”: desconhecidos ofereceram-lhe comida, água e dinheiro, e houve pessoas que correram ao seu lado durante trechos do percurso.

“Apesar de ter passado por tempos difíceis e duros… não podia ficar zangado com nada do que acontecia”, diz Sidibe. “Havia muitas pessoas a dedicarem a sua energia e as suas forças para me ajudarem.”

Os momentos feios do desafio lembraram Sidibe de que correr pode deixá-lo vulnerável a agressões racistas.

Sidibe a competir na Leadville 100 (Cortesia Life Time)

Ele diz que nunca se sentiu inseguro no seu bairro em Nova Jérsia, mas faz um esforço consciente para “parecer um corredor” quando se aventura mais longe. Isso significa usar equipamento de corrida – um colete, auscultadores, um chapéu virado para trás sem lhe tapar a cara – e leva bastões de caminhada nos trilhos e colinas.

“Mesmo na corrida a atravessar a América, o bastão que levava ajudou muito nas colinas, mas grande parte do tempo não precisei dele”, explica Sidibe.

“Sei que, se o tiver na mão e tiver um colete, vai parecer que estou a fazer alguma coisa – não sou apenas uma pessoa a correr. As pessoas usam a minha raça para me atacarem com juízos de valor que não deviam sequer existir.”

Houve momentos durante a travessia da América a correr em que Sidibe parou para pensar em Ahmaud Arbery, o negro de 25 anos que foi perseguido e assassinado por três brancos quando estava a correr num bairro perto de Brunswick, na Geórgia.

“Podia ter sido eu”, diz Sidibe, que acrescenta ainda que a morte de Arbery “assustou muitos corredores”.

“Para mim, é importante andar na rua e afirmar-me para fazer as pessoas como eu pensarem: ‘Sabem que mais? Se o Hellah o faz, também vou. Não há problema, está tudo bem, estamos em segurança’”, diz Sidibe. “Vamos pensar no lado positivo disto.”

O entusiasmo permanente de Sidibe e o seu sorriso contagiante fizeram-no ser acarinhado pelos membros da comunidade de corredores, a quem ele dá conselhos e relata a sua experiência no streak running.

Apesar de alguns defenderem a importância dos dias de descanso em qualquer rotina de treino, Sidibe diz que gere a sua carga de corrida incluindo dias mais leves – por vezes corre apenas três ou cinco quilómetros de uma vez – e mantém-se livre de lesões com alongamentos, massagens, exercícios com rolos e musculação.

Até ao momento, ele conseguiu manter a série de corridas apesar das lesões – reduziu para 22,5 km por semana enquanto geria uma lesão na canela – e uma cirurgia para retirar um dente do siso.

Será que Sidibe antevê o fim da sua série de corridas?

“Só no dia em que eu acordar e pensar que não gosto mesmo disto”, diz. “Dou autorização a mim mesmo para desistir todos os dias. Não tenho qualquer pressão para continuar a fazê-lo.”

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