"Se não enviam os carros de combate, que solução têm para expulsar as forças russas da Ucrânia?" Porque a Alemanha hesita em ‘libertar’ os Leopard 2

20 jan, 20:17

Logística complexa, pressão da opinião pública e desinvestimento sistémico ditam tempestade perfeita para a demora do processo

Com a questão do fornecimento dos Leopard 2 à Ucrânia a dominar a cobertura da invasão russa, os ministros da Defesa do Grupo de Contacto de apoio a Kiev reuniram-se esta sexta-feira na base aérea de Ramstein, na Alemanha, para coordenar os próximos passos. No entanto, para já, não há novidades quanto ao fornecimento dos carros de combate.

À CNN Portugal, o comandante João Fonseca Ribeiro explica o que pode estar por trás da relutância de Berlim em autorizar a reexportação deste armamento para a Ucrânia.

“Quando se fala do fornecimento destas viaturas, temos de olhar para a sua logística, manutenção, capacidade de apoiar no combate. Não é só enviar, há que treinar e abastecer o sistema destas viaturas”, começa por explicar. “Quando se cede este equipamento, não é apenas um exercício de ceder material, há que também ceder a cadeia logística, as munições. A Alemanha terá de estar integrada no sistema logístico para o poder alimentar. Tem de haver um processo negocial mais alargado. É importante para Berlim que os países fornecedores tenham um alinhamento coerente a todos os níveis.”

Mas não são só as cadeias logísticas que têm adiado a decisão do executivo de Olaf Scholz. “A Alemanha, ao longo dos anos, desinvestiu de tal maneira na sua capacidade militar que se desarmou, atingindo um patamar em que a sua própria capacidade de atuar está condicionada pelas decisões políticas que aceitou para o seu sistema de defesa e segurança. Como tal, quando é confrontada com a possibilidade de ter de ceder material das suas capacidades operacionais, resiste a poder fazê-lo”, analisa o comandante.

João Fonseca Ribeiro considera, também, que a indecisão governamental, provocada pela opinião pública, tem dificultado a negociação.

“O governo alemão tem seguido a trajetória de um cata-vento da opinião pública. Se a opinião pública quer uma intervenção, o governo alemão quer medidas mais rápidas. Se a opinião pública quer uma estabilização, o governo alemão não pode tomar as decisões sobre o apoio militar tão rapidamente”, diz. “Mas uma coisa é certa: não pode haver o equívoco entre querer uma negociação de cessar-fogo e, ao mesmo tempo, dizer que exige a retirada das forças russas do território da Ucrânia, incluindo a Crimeia. A Rússia só o fará com capacidade blindada disponível na Ucrânia, e julgo que será esse o tema da discussão nos próximos dias. Tem de se perguntar à Alemanha 'se não enviam os carros de combate, que solução têm para expulsar as forças russas da Ucrânia?'.

A juntar a estes fatores, refere o comandante, está a mudança “muito extemporânea” na pasta da Defesa, com a nomeação de Boris Pistorius na sequência da demissão de Christine Lambrecht, motivada por um vídeo polémico em que falou da guerra da Ucrânia em clima de festa durante as celebrações do Ano Novo.

Fonseca Ribeiro salienta, contudo, que se esta questão não tiver uma decisão rápida, “como se pretende para o plano militar”, esta não ficará encerrada, dado os Leopard 2 serem “importantes pela quantidade e disponibilidade e por poderem ser apoiados de forma mais coerente”.

O comandante deixou ainda um alerta à Europa. “A Alemanha e a indústria de defesa europeia têm de ter presente que, neste momento, começa a haver contratos da indústria da defesa da Ásia, nomeadamente da Coreia do Sul, que vai ser o próximo fornecedor de carros de combate da Polónia. Ou a Europa acorda verdadeiramente para o seu sistema de segurança e defesa, ou nem a capacidade militar dos carros de combate será capaz de completar ou substituir a prazo. Os sistemas do mercado internacional e do Ocidente alargado não tem as restrições que se estão aqui a notar.”

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