O Ocidente alcançou a sua última e fatídica encruzilhada sobre a Ucrânia

CNN , Análise de Stephen Collinson
20 jan, 08:00
Kherson, Ucrânia (EPA)

As decisões eminentes sobre o aprofundamento do apoio à luta de Kiev contra a investida do presidente russo Vladimir Putin tornaram-se ainda mais críticas por um campo de batalha de inverno mais dinâmico do que o esperado.

O tempo urge também para que os Estados Unidos e os seus aliados enviem armas mais poderosas e treinem os soldados ucranianos a utilizá-las antes do segundo ano, possivelmente decisivo, da guerra, que poderá ver a Rússia lançar uma nova e feroz ofensiva.

O doloroso custo humanitário do conflito e a justificação para a ajuda ocidental foram, entretanto, postos a nu pelo horror de um ataque russo com mísseis de cruzeiro a um bloco de apartamentos de nove andares em Dnipro, que matou 45 pessoas, incluindo seis crianças. A tragédia exacerbou a depravação de uma guerra não provocada e renovou os apelos para que Putin enfrente as acusações de crimes de guerra. Também sublinhou que quaisquer esperanças de um fim negociado para a guerra estão mais distantes do que nunca, um facto que parece ter injetado nova determinação e unidade na aliança ocidental num momento crítico.

E na quarta-feira, um acidente de helicóptero perto de um jardim de infância na região de Kiev matou pelo menos 14 pessoas, incluindo o ministro do Interior da Ucrânia, segundo as autoridades. A causa do acidente não foi imediatamente esclarecida.

Os parceiros estão agora a enviar tanques e veículos blindados para a Ucrânia. Vários estão a juntar-se aos EUA para enviar mísseis Patriot - medidas que estariam fora dos limites no início da guerra, a fim de evitar provocar ainda mais Putin.

A Ucrânia, dada a sua situação desesperada, vai querer sempre mais. E embora as próximas escolhas do Ocidente sejam, em última análise, baseadas na avaliação dos seus próprios interesses, é impossível ignorar o contexto da agonia e coragem da Ucrânia.

"Estamos a enfrentar o colapso do mundo tal como o conhecemos, a forma como estamos habituados a ele ou àquilo a que aspiramos", disse a primeira-dama ucraniana Olena Zelenska no Fórum Económico Mundial em Davos, na terça-feira, numa intervenção comovente.

O que o Ocidente fizer pode decidir o destino da guerra

As questões que o Ocidente agora enfrenta são graves, mas também são familiares.

Até onde deve ir a NATO para atender os apelos cada vez mais desesperados da Ucrânia por armas - mais numerosas e mais sofisticadas? Qual é a linha vermelha da Rússia antes da ação ocidental provocar uma escalada maciça - possivelmente incluindo a utilização de uma arma nuclear no campo de batalha que poderia abrir uma nova era horrível de guerra e um risco de conflagração EUA-Rússia?

Depois há a questão de saber quanto tempo mais se manterão os alicerces políticos de um extraordinário esforço ocidental para salvar a Ucrânia, nos Estados Unidos e na Europa - mesmo que um inverno continental ameno tenha enfraquecido os esforços de Putin para travar uma guerra energética contra as populações civis.

O presidente Joe Biden e os líderes ocidentais enfrentam um dilema que só se agravou após a resistência da Ucrânia e a surpreendente capacidade de infligir pesadas perdas ao exército russo. Estará o Ocidente empenhado em ajudar a Ucrânia a expulsar o invasor de todo o seu território? Esse é um objetivo que poderá vir a provocar um tumulto político imprevisível em Moscovo e até mesmo ameaçar a sobrevivência de Putin no poder. Ou estará a limitar o seu esforço para dar à Ucrânia força suficiente para sobreviver, mas não para vencer?

O general na reforma Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO na Europa, disse terça-feira à CNN que o Ocidente tinha de fazer muito mais, especialmente após o ataque a Dnipro.

"Temos de dar à Ucrânia as armas para expulsar a Rússia. A Rússia não se está a arrepender do que está a fazer, Putin está a mobilizar mais forças. Ele está a planear outra ofensiva", disse Clark. "É ótimo estarmos a dar-lhes 10 tanques do Reino Unido. Dez tanques? A Ucrânia precisa de 300, 500 tanques. É ótimo que estejamos a tentar enviar-lhes mais alguns Howitzers. Não é suficiente. Temos de levar isto a sério."

Diplomacia intensa aumenta na Ucrânia

Estas questões estão no centro de uma extraordinária onda de atividade diplomática em ambos os lados do Atlântico nesta semana. Biden falou na terça-feira com o chanceler alemão Olaf Scholz e deu as boas-vindas ao primeiro-ministro holandês Mark Rutte, na Sala Oval, ao lado de uma lareira crepitante. Uma delegação de alto nível do governo dos EUA visitou a Ucrânia. O chefe do Estado-Maior dos EUA, o general Mark Milley, viajou para a Polónia para se encontrar pela primeira vez com o seu homólogo ucraniano. E participará na próxima reunião do Grupo de Contacto da Ucrânia na Alemanha, esta semana, quando 50 nações se reunirem para prometer novo apoio a Kiev.

Todos estes líderes estão a falar de um grande jogo. Mas depois dos apelos emocionados do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky por mais ajuda numa visita de Natal a Washington, a questão na Ucrânia é saber se a generosidade dos líderes ocidentais irá corresponder à sua retórica.

"Estamos a reforçar a nossa proteção dos valores democráticos em todo o mundo ... incluindo a nossa posição forte junto da Ucrânia", disse Biden a Rutte. Em resposta, o líder holandês previu que a história recordará o seu anfitrião por ter salvo a Ucrânia. "Quero elogiá-lo pessoalmente e aos Estados Unidos pela sua liderança", afirmou Rutte.

O seu comentário foi um lembrete do papel indiscutivelmente histórico que Biden desempenhou ao revigorar a aliança da Guerra Fria contra a Rússia. Mas foi também especialmente ressonante por duas razões. Primeiro, o legado de Biden na Ucrânia - como autor de um dos mais significativos e até agora bem-sucedidas intervenções de política externa dos EUA em décadas - pouco significará se Washington não continuar a financiar e a armar as forças de Zelensky enquanto durar um conflito sem fim à vista. Isto significa que a lógica inexorável da política dos EUA é no sentido de um envolvimento mais profundo, mesmo que não vá tão longe quanto Zelensky espera e provavelmente cause novos atritos com Moscovo e a nova maioria republicana na Câmara dos Representantes.

Em segundo lugar, a invocação de Rutte mostra que apesar da tempestade sobre a descoberta de alguns dos documentos classificados de Biden que datam da sua vice-presidência, onde não deveriam estar, o presidente está a tocar num palco mais grandioso com profundas implicações de segurança nacional que irão reverberar muito depois do último escândalo de Washington deixar de ser notícia.

Tendo isso em mente, o secretário de Estado Antony Blinken reconheceu implicitamente as últimas mudanças iminentes na ajuda dos EUA, já no valor de milhares de milhões de dólares, num compromisso que teria sido impensável no início da guerra.

"À medida que esta agressão evoluiu, o mesmo aconteceu com a nossa ajuda à Ucrânia", disse numa conferência de imprensa com o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico James Cleverly.

"Se olharmos para a trajetória de Stingers, Javelins, HIMARS, Bradleys (VFV) até aos mísseis Patriot, temos fornecido continuamente o que a Ucrânia precisa e estamos a fazê-lo de forma a garantir que ela responde ao que está realmente a acontecer no campo de batalha, bem como a projetar para onde pode ir", disse Blinken.

No seguimento dos seus comentários, John Kirby, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, disse à CNN que novos anúncios sobre armas e assistência poderiam surgir, "talvez, no final desta semana". Ele não disse se os EUA também enviariam carros de combate para a Ucrânia. Cleverly, por seu lado, disse que Putin precisava de entender que o Reino Unido teria "a resistência de se manter" com a Ucrânia até "o trabalho estar concluído".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu, também, não diminuir o apoio à Ucrânia. "Neste último ano, o seu país moveu o mundo e inspirou a Europa e posso assegurar-lhe que a Europa estará sempre com vocês", disse von der Leyen em Davos, após o discurso de Zelenska.

E há ainda otimismo na Europa de que Scholz dará o passo significativo de também concordar em enviar carros de combate para a Ucrânia. O presidente lituano Gitanas Nauseda disse, depois de visitar Berlim, que acreditava "firmemente" que o chanceler Scholz se iria decidir pelo envio.

A retórica ocidental de apoio à Ucrânia raramente tem sido tão estridente. Os próximos dias mostrarão se as promessas de ajuda militar correspondem a essa determinação.

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