"O guaxinim foi roubado não por um qualquer soldado estúpido mas pelo comando russo." Kherson: um relato dos atos menos graves mas também das ações mais violentas

14 nov, 16:04

Russos destruíram estruturas essenciais, pilharam casas particulares, roubaram o museu e até o jardim zoológico. Autarca denuncia falta de comida e medicamentos na região de Kherson, que foi esta segunda-feira visitada pelo presidente da Ucrânia

Durante quase oito meses, a população de Kherson não teve acesso ao mundo exterior: como aconteceu noutras regiões ocupadas pelos russos, a primeira ação das tropas de Moscovo à chegada foi destruir torres de comunicações e cortar a possibilidade de telefonemas ou ligações à internet. Mas, no sábado, junto à principal estação de autocarros de Kherson, foi colocado um ponto de wi-fi com ligação por satélite. Esta foi uma das muitas razões para festejar que os residentes da cidade - e da região - tiveram desde que os russos anunciaram a retirada total, na passada sexta-feira. Mas, depois de três dias de celebração, a região acordou para a dura realidade do pós-ocupação num país que continua em guerra.

As minas são um dos maiores problemas das autoridades ucranianas: fonte de Kiev, citada pelo The Guardian, garante que mais de 2.000 minas ou outros engenhos explosivos já foram removidos. "O inimigo minou todos os objetos de infraestruturas críticas", disse à televisão ucraniana o governador regional Yaroslav Yanushevych, que promete limpar a cidade nos próximos dias. Zelensky anunciou na noite de domingo, na sua comunicação diária ao país, que um sapador morreu e outros quatro ficaram feridos quando se dedicavam a operações de desminagem e, já esta segunda-feira, soube-se que uma família de quatro pessoas morreu, depois de o carro onde viajavam ter passado por cima de uma mina na vila de Novoraisk. Entre as vítimas mortais está uma criança de 11 anos, revelou no Telegram Kyrylo Tymoshenko, adjunto do chefe do gabinete presidencial. 

Residentes de Kherson abraçam soldados ucranianos depois da saída dos russos (Foto: Associated Press)

"As forças dos ocupantes russos e seus colaboradores fizeram tudo quanto era possível para fazer com que as pessoas que ficaram na cidade sofressem tanto quanto possível durante estes dias, semanas e meses de espera", disse Roman Golovnya, conselheiro da administração local. Antes de baterem em retirada, as forças de Moscovo destruíram todas as infraestruturas que garantem serviços essenciais, como comunicações, eletricidade, água, aquecimento e pelo menos quatro pontes. As autoridades ucranianas estão ainda a avaliar os danos na barragem de Nova Kakhova, no rio Dnipro, que fica a cerca de 60 quilómetros a nordeste de Kherson e que os russos tentaram fazer explodir quando deixavam a região - até ao momento, não se sabe se foi comprometida a integridade da estrutura, que, se destruída, pode inundar uma área gigantesca e deixar debaixo de água inclusivamente a própria cidade de Kherson. 

Ao contrário do que foi comunicado pelo Ministério da Defesa da Rússia, os russos deixaram equipamento para trás, além das minas, mas também os corpos dos soldados mortos na frente de combate. Na noite de domingo, Volodymyr Zelensky acusou ainda os russos de crimes de guerra e de assassinarem civis na região de Kherson. "Os investigadores já documentaram mais de 400 crimes de guerra russos. Corpos de civis e soldados foram encontrados. O exército russo deixou para trás a mesma selvajaria que deixou noutras regiões do país em que entrou", sublinhou o presidente ucraniano.

Falta "severa" de medicamentos e comida

O autarca de Kherson admitiu que a situação humanitária é nesta altura "severa" por falta de medicamentos e comida na região. Também há relatos, da parte dos residentes, que revelam que os russos pilharam casas na cidade, levando carros e eletrodomésticos. No museu de Kherson faltam cerca de 15.000 peças e até os ossos de Potemkin, o amante da czarina Catarina, a Grande, foram roubados da cripta da catedral da cidade. Nem o jardim zoológico foi poupado: no domingo, revela o diário britânico The Guardian, o líder de uma organização que resgata animais durante a guerra revelou que lamas, lobos e até um guaxinim foram retirados do zoo e levados para a Crimeia. "O guaxinim foi roubado não por um qualquer soldado estúpido mas pelo comando russo", denunciou Oleksandr Todorchuk.

Por agora, na cidade de Kherson, mantém-se um recolher obrigatório das 17:00 às 8:00 e as pessoas estão proibidas de entrarem ou saírem da cidade: a polícia ucraniana continua a verificar os documentos dos locais e a tentar despistar a presença de espiões disfarçados de civis ou mesmo de soldados russos - na semana passada houve relatos de que as forças de Moscovo disseram aos militares de algumas unidades, durante a retirada, que tirassem os uniformes e que se fizessem passar por civis para sobreviverem. 

Zelensky fez visita de meia hora a Kherson (Foto: Gabinete Presidencial da Ucrânia)

Já esta segunda-feira, o presidente da Ucrânia passou 30 minutos em Kherson. Durante a rápida visita à cidade, Zelensky garantiu às tropas nacionais - que os residentes receberam efusivamente na semana passada - que o país está a andar para a frente. "Estamos prontos para a paz, paz para todo o nosso país." Agradecendo à NATO e aos aliados, o presidente surge num vídeo que circulou nas redes sociais a admitir perante um grupo de jornalistas que a cidade precisava da sua visita. "É necessário estar aqui e falar sobre os residentes de Kherson, apoiar as pessoas. Fazê-las sentir de que não estamos só a falar sobre isto, estamos realmente a regressar, a hastear a nossa bandeira", disse Zelensky, citado pela CNN Internacional. "Também gostava, de forma humana, de ter a emoção, a energia das pessoas. É motivador", resumiu.

Apesar dos motivos para celebrar, as forças de Kiev já alertaram que, nos próximos dias, a Rússia poderá estar a planear mais ataques nas zonas libertadas da região de Kherson. E o porta-voz do Kremlin declarou esta segunda-feira, depois de lhe ser pedido um comentário a propósito da visita de Zelensky a Kherson, que nada mudou: "Sem comentários. É território russo", disse apenas Dmitry Peskov.

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