"Não quero disparar. Mas se me quiserem matar, não terei escolha”. Campeão de boxe junta-se à luta contra os russos

CNN , Don Riddell
6 mar, 18:00
Oleksandr Usyk

Os pugilistas ucranianos Oleksandr Usyk e Vasiliy Lomachenko são amigos de infância. Cresceram a sonhar lutar pela fama e glória, e juntos conquistaram o mundo com os seus punhos.

No total, Usyk, de 35 anos, e Lomachenko, de 34 anos, conquistaram três medalhas de ouro olímpicas e, desde então, estabeleceram-se entre os pugilistas de elite mundiais.

Mas agora enfrentam uma luta muito diferente - existencial - pelo futuro do seu país. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de fevereiro, Usyk e Lomachenko viajaram para o país, pegaram em armas e juntaram-se ao batalhão de defesa territorial.

A falar por um link de vídeo a partir de uma cave em Kiev, Usyk disse em exclusivo à CNN que não tem de estar atento apenas às forças invasoras, mas também aos saqueadores. Diz que, se for preciso, está preparado para tirar uma vida.

“Se quiserem tirar a minha vida ou a vida de quem me é próximo, terei de fazê-lo”, disse ele. “Mas não quero isso. Não quero disparar, não quero matar ninguém. Mas se me quiserem matar, não terei escolha.”

O agente de Usyk, Egis Klimas, ajudou a coordenar a entrevista e a traduzir para Usyk, que não fala inglês. Apesar da terrível situação em que muitos ucranianos se encontram, Usyk diz que não tem medo.

“Talvez isto pareça muito sentimental”, explicou ele, “mas a minha alma pertence ao Senhor e o meu corpo e honra pertencem ao meu país, à minha família. Portanto, não tenho medo, absolutamente medo algum. Há apenas perplexidade… como pode isto acontecer no Séc. XXI?”

Neste momento, ele não está na Ucrânia para lutar boxe, mas a nobre arte ainda lhe é útil. “Ajudou-me a ficar calmo e a preparar-me mentalmente”, disse ele, “e ajuda-me a ajudar outras pessoas que estão em pânico e nervosas.”

Oleksandr Usyk disse à CNN que “o país e a honra são mais importantes para mim do que um cinto de campeão.”

Ambos os homens estavam fora do país quando a Rússia invadiu. Usyk estava em Londres, a filmar cenas para um videojogo que irá sair.

Tinha voo marcado para regressar a casa apenas algumas horas após o início das hostilidades, mas com os aeroportos fechados, voou para Varsóvia, na Polónia, e fez quase 800 quilómetros de carro de volta a casa e até Kiev, junto à fronteira.

Lomachenko estava a visitar um mosteiro na Grécia e regressou a casa no dia seguinte. Em vez de voar diretamente para a sua cidade natal, Odessa, viajou para Bucareste, na Roménia, e depois fez nove horas de carro até ao porto, onde apanhou um ferry para a Ucrânia.

O agente de ambos disse à CNN que não sabia que eles estavam a considerar pegar em armas até já estarem ambos alistados no batalhão de defesa. Os antigos campeões mundiais de boxe, Vitali - que também é presidente da câmara de Kiev - e Wladimir Klitschko, também pegaram em armas em defesa do seu país.

“Os bombardeamentos são uma loucura”

Lomachenko estava marcado para falar com a CNN ao mesmo tempo que Usyk, mas não atendia as chamadas do seu agente. Na manhã de quarta-feira, horário local, Klimas confirmou à CNN que Lomachenko estava são e salvo.

Ele e Usyk continuam próximos: são padrinhos dos filhos um do outro e celebram juntos os aniversários da família. Com seis dias de guerra, Usyk sabe que já não há lugares seguros na Ucrânia.

“Os bombardeamentos são uma loucura”, disse Usyk. “Acabaram de bombardear a cidade de Mariupol. Um dos meus amigos levou com um rocket no telhado. [Os russos] não estão a brincar.”

À medida que a luta se intensifica, também aumenta o debate sobre se os atletas russos devem ser punidos pelas ações do seu país. Usyk optou por não dar a sua opinião, sugerindo que há pessoas inocentes nos dois lados do conflito.

“O povo russo não sabe ao certo o que se passa aqui. Não estão a ver o que está a acontecer. São vítimas do seu presidente [Vladimir Putin].”

Usyk conquistou os seus cintos de peso-pesado numa excelente exibição em setembro de 2021 contra o antigo campeão Anthony Joshua.

Usyk tinha acabado de se tornar campeão mundial de pesos-pesados da IBF, da WBA, da WBO e da IBO. Em setembro, derrotou Anthony Joshua em Londres, numa excelente exibição de boxe que lhe valeu os cintos. O agente diz que as negociações para um novo combate, este verão, estão já bastante avançadas.

O peso-pluma Lomachenko já foi campeão mundial em três categorias de peso diferentes e planeava enfrentar George Kambosos na Austrália, em junho.

Mas, compreensivelmente, o boxe é a última coisa em que pensam agora.

“Na verdade, não sei quando vou voltar ao ringue”, disse Usyk, que parecia exausto e emocionado na sua entrevista à CNN. “O meu país e a minha honra são mais importantes para mim do que um cinto de campeão.”

Usyk tem três filhos e, durante a entrevista, ouviu-se o som de vozes jovens a brincar atrás dele, na cave.

Ele conta que familiares, amigos e vizinhos têm estado a abrigar-se juntos. “Quando soa o alarme de um ataque aéreo, nós escondemo-nos. Claro, é mais divertido quando somos muitos aqui - estamos a divertir-nos. Temos de fazer um esforço para nos divertirmos.” Eles tentam manter o ambiente mais leve para as crianças.

Mas, numa conversa separada com a CNN, Klimas, o agente de Usyk, sublinhou a gravidade da situação: “Eles correm um grande perigo. Quando as balas começam a voar, a bala não quer saber se alguém é um campeão mundial. A bala limita-se a atravessar.”

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