"Não é a nossa terra”. Estas mulheres fugiram da Ucrânia para protegerem os filhos, mas estão de volta a casa

CNN , Eliza Mackintosh e Oleksandra Ochman
8 mai, 16:00
Mães fugiram da Ucrânia para protegerem os filhos (CNN)

No subconsciente de todas, há um medo persistente: teremos um lar para onde voltar?

Na estação de comboios de Lviv, na região mais a oeste da Ucrânia, as mulheres estão numa encruzilhada física e psicológica.

Depois de chegarem à cidade, agora um ponto de passagem para deslocados, ajuda humanitária e armas, elas viram-se obrigadas a fazer uma série de perguntas assustadoras. Para onde devemos ir a seguir? Os meus filhos estarão seguros nesse sítio? Quanto tempo ficaremos?

No subconsciente de todas, há um medo persistente: teremos um lar para onde voltar?

Se há alguma coisa a saber sobre o dilema que elas enfrentam, é que muitas têm de tomar, sozinhas, decisões repentinas sobre o futuro das suas famílias.

As regras de recrutamento militar na Ucrânia fizeram com que os homens entre os 18 e os 60 anos se vissem impedidos de deixar o país. E, mesmo se assim não fosse, muitos optaram por se alistar e juntar-se ao combate.

Mulheres e crianças descansam em bancos de madeira e colchões numa sala por cima da estação de comboios de Lviv. Um canto foi convertido numa zona de entretenimento para as crianças, com brinquedos, livros e jogos.

Assim, embora milhões de ucranianos tenham fugido da invasão da Rússia desde que esta foi lançada pelo presidente Vladimir Putin, há mais de dois meses, quase todos os que atravessaram a fronteira são mulheres e crianças. Representam uns impressionantes 90% dos refugiados da Ucrânia.

Em grande parte, as mães suportaram o peso da crise migratória, dando o apoio possível depois de as suas famílias terem sido desfeitas, cuidando das crianças e dos pais idosos.

A CNN conversou com várias que deixaram para trás as suas vidas, após a guerra, e que estavam a avaliar se seria hora de levar as famílias de volta à Ucrânia. Uma mulher, Liudmyla Sobchenko, de 28 anos, da região de Zhytomyr, a noroeste de Kiev, passou três semanas na Polónia com o filho pequeno e a mãe, antes de decidir que estava na hora de regressar a casa. “Não vou dizer que é mau na Polónia... Mas não é a nossa terra”, disse ela.

Desde o final de março, quando a CNN visitou a estação de Lviv, o fluxo de ucranianos de regresso ao país continuou a aumentar e representa agora 30 mil pessoas por dia, segundo Andrii Demchenko, assessor de imprensa do Serviço de Guarda Fronteiriça da Ucrânia.

Não temos o direito de perguntar o motivo da viagem, mas muitas mulheres partilharam connosco que já não querem ficar no estrangeiro”, disse ele à CNN, na terça-feira.

Viktoria, de 23 anos, fugiu de Sumy com os filhos Adam, de 2 anos, e Vasiliy, de 1 ano. Ela espera conseguir levar as crianças para a Alemanha. “O meu filho mais velho está a começar a falar e a aprender palavras. Quando as sirenes e as explosões dos ataques aéreos começaram, ele disse ‘sirene, sirene’. Tinha um olhar tão assustado.

Algumas das primeiras e mais comoventes imagens da guerra foram das estações ferroviárias por toda a Ucrânia. Multidões a subir para as carruagens, os bebés erguidos no ar. Casais abraçados em despedidas apaixonadas e desesperadas. Pequenas mãos e rostos pressionados contra as janelas embaciadas, enquanto os pais ficavam sozinhos, a soluçar nas plataformas.

Muitos passaram pela estação de Lviv antes de viajarem para a vizinha Polónia ou para mais longe. Hora após hora, desembarcava uma vaga de mulheres e crianças. Os nomes das cidades e vilas que deixaram - Sumy, Kiev, Kharkiv, Kherson - criaram uma constelação de sofrimento que cruzou a Ucrânia, refletindo em tempo real os locais onde os combates tinham começado.

Consigo carregavam poucos pertences, mas histórias pesadas. Diziam que, após dias ou semanas escondidos em caves e bunkers, já não conseguiam suportar os bombardeamentos implacáveis, as sirenes e as noites sem dormir. Os filhos ecoavam os sons das bombas que os forçaram a fugir: “Ba-bah-ka, ba-bah-ka! Boom, boom!”

Famílias e os seus pertences empilhados em seu redor olham para a entrada da estação de comboios de Lviv. Lá fora, filas de autocarros levam os refugiados até a fronteira com a Polónia.

Semanas após o êxodo inicial, a grande estação ferroviária de Lviv, com o seu estilo Art Nouveau, situada a três quilómetros do centro histórico da cidade, ainda albergava famílias em fuga. Mas nem toda a gente se dirigia para oeste. Algumas pessoas, como Sobchenko, começavam a regressar.

Continua a haver mais pessoas a fugir da violência no país do que a regressar. Mas, de acordo com as autoridades e as pessoas deslocadas pela guerra, o número crescente reflete uma aceitação gradual de que os combates se podem arrastar durante algum tempo. Com isso em mente, muitos ucranianos decidiram que preferem regressar e correr o risco de viver numa zona de conflito do que serem refugiados noutro país, sem família nem rede de apoio.

Essa mudança de atitude também reflete os desafios que enfrentam os governos europeus ao tentarem lidar com a maior crise de refugiados no continente desde a Segunda Guerra Mundial.

Numa sala para mulheres e crianças por cima da confusão do terminal principal, as famílias estavam a reagrupar-se. Alguns descansavam em colchões finos, olhando fixamente para o teto abobadado e pintado. Outros mexiam nos seus smartphones e liam as últimas notícias da linha de frente.

Liudmyla Sobchenko, de 28 anos, procura informações sobre comboios com destino a Korosten e sobre os combates na região.

Sobchenko fugiu da cidade de Korosten com o filho Nazar, de 3 anos, e a mãe Tetiana, de 57 anos, no início de março. As explosões aproximavam-se cada vez mais de sua casa. Depois, numa noite, uma explosão estilhaçou as janelas do quarto de Nazar e Sobchenko soube que estava na hora de se irem embora. Deixaram para trás o cão e o gato, fugindo com pouco além das roupas do corpo e uma mala com objetos essenciais - medicamentos, documentos e uma muda de roupa. A viagem de autocarro até a fronteira polaca, que normalmente demora quatro horas, arrastou-se durante 24 horas.

Foram acolhidos com outros refugiados em Nowy Targ, uma cidade a sul de Cracóvia, perto da fronteira com a Eslováquia, mas não conseguiram estabelecer-se. Nazar tremia durante a noite e gritava: “Mãe, bum! Bum!” Depois de a mãe dela ter sofrido um esgotamento nervoso, que a fez ser levada de ambulância para o hospital, Sobchenko decidiu que, apesar dos perigos, era melhor regressar. “Eu não durmo há um dia. Sentia alguma ansiedade e alegria ao pensar na minha casa”, disse ela.

Enquanto a jovem mãe pesquisava os horários dos comboios e via o Telegram, Nazar, vestido com uma camisola às riscas azuis e laranja, brincava no espaço de entretenimento ali perto, ao lado de outras crianças, vasculhando entre os peluches, os blocos e os livros. Sobchenko chamou-o para lhe dar uma bolacha e um abraço.

“Não falo com ele sobre a guerra. Só lhe digo que agora é seguro, que não haverá mais ‘boom’. O que pode uma mãe fazer?”, perguntou ela.

A última vez que esteve na estação de Lviv, Arina Matiushenkova, de 3 anos, tinha acabado de fugir de casa com a mãe, Yana. Depois de se tentar estabelecer na Polónia, elas partiram. “Era difícil para a Arina... Em casa, acho que será muito mais fácil”, disse Yana.

Julia Kovalska, uma voluntária de 27 anos que organiza jogos e outras atividades para as crianças que passam pela estação, disse que é assustador ver como elas falam sobre os horrores que testemunharam.

“As crianças são sempre crianças, tanto antes como depois da guerra. Mas os olhos delas são completamente diferentes. Elas falam de mísseis e de bombas com muita calma. Eu choro por causa disso. As mães choram, as avós choram, e as crianças limitam-se a falar desta experiência tal e qual como ela é”, disse ela.

A guerra deslocou quase dois terços dos 7,5 milhões de crianças da Ucrânia e matou mais de 160, segundo a UNICEF. Dirigindo-se ao Conselho de Segurança da ONU, no início deste mês, a embaixadora dos EUA, Linda Thomas-Greenfield, disse aos membros que “quando homens como o presidente Putin iniciam guerras, as mulheres e as crianças são desalojadas”, feridas, violadas e vítimas de abusos - e morrem. “O que está a acontecer com as mulheres e as crianças na Ucrânia é tão horrível que vai além da nossa compreensão”, disse ela.

Numa sondagem recente a refugiados ucranianos na Polónia - a maioria mulheres - o Comité Internacional de Resgate descobriu que muitos sofreram traumas graves desde que deixaram as suas casas, incluindo a separação familiar, o tráfico de pessoas e a violência física e sexual. Os funcionários que trabalham em centros de refugiados disseram que o preço da guerra foi devastador para as crianças. Muitos relataram incidentes de menores traumatizados a chorar ou a urinar-se.

Nadiia Taratorina, de 22 anos, e o filho Artem, de 6 meses, fugiram para a relativa segurança das montanhas dos Cárpatos, no início de março. Semanas depois, ela decidiu voltar para casa em Kryvyi Rih, apesar dos combates contínuos.

No início de março, Nadiia Taratorina, de 22 anos, pegou no filho bebé e fugiu de sua casa em Kryvyi Rih, uma cidade industrial no coração da Ucrânia e a cidade natal do presidente Volodymyr Zelensky, deixando para trás o marido, o pai e outros familiares do sexo masculino.

Taratorina e a mãe, Liubov, de 38 anos, partiram para a relativa segurança do oeste da Ucrânia, viajando para a estação de Lviv e depois para as montanhas dos Cárpatos, na região de Zakarpattia. Semanas depois, ela estava de volta a Lviv - desta vez de regresso a casa.

“Vamos para casa, o pai está à nossa espera. Parece que as coisas acalmaram, mas quem sabe o que vai acontecer a seguir”, disse Taraatorina. O pai dela, voluntário nas Forças de Defesa Territoriais da Ucrânia, disse-lhes que os combates tinham diminuído e que era seguro para a família regressar, mas não sabia bem quanto tempo essa paz iria durar.

Enquanto Taraatorina dava o biberão a Artem, limpando o leite das bochechas do bebé, a mãe perguntava sobre os bilhetes e os horários do comboio para Dnipro. “A criança distrai-me da guerra. Ele está numa idade em que faz uma coisa nova todos os dias. Mas é difícil estar longe do meu marido, é difícil estar 'na chuzhyni'", disse ela, usando uma expressão emotiva em ucraniano para descrever a sensação de estar longe de casa, numa terra desconhecida e estrangeira.

Carrinhos de bebé, fraldas e leite em pó acumulam-se na entrada da sala para as mulheres e crianças, por cima da estação de Lviv.

É um sentimento expresso por muitas outras mulheres, que dizem ter fugido da guerra para manter os filhos em segurança, mas viram-se atormentadas por um sentimento de culpa inquietante e implacável por terem deixado a sua “pátria”.

Nos primeiros dias da guerra, Yana Matiushenkova, de 30 anos, e a filha Arina, de 3, amontoaram-se num comboio sobrelotado com destino a Lviv, vindo da região de Dnipropetrovsk, no centro da Ucrânia. Após vários dias de uma viagem caótica, elas chegaram finalmente a Wroclaw, uma cidade no oeste da Polónia conhecida pela sua pitoresca zona velha e pela praça do mercado. Mas ela teve dificuldades em adaptar-se ao novo ambiente.

“Eu andava com a minha filha em Wroclaw... era tudo lindo, à nossa volta. E, na Ucrânia, há bombardeamentos, as pessoas não dormem à noite… Isso começou a perturbar-me muito. Deve ser culpa. Disseram-me que há uma coisa chamada ‘síndrome do sobrevivente’”, disse Matiushenkova. O stresse e a depressão da mãe começaram a afetar Arina, que começou a ficar rabugenta e a fazer birras. Matiushenkova sentiu que não podiam esperar mais – tinham de viajar de volta para Kamyanske.

“Não tenho dúvidas sobre a retidão da minha decisão. Quero estar perto da minha família, aconteça o que acontecer”, acrescentou.

Yana Matiushenkova, de 30 anos, fugiu para a Polónia, mas passadas três semanas, ela disse que se sentia deprimida e a filha Arina, de 3 anos, começou a fazer muitas birras. Elas estão a voltar para casa, em Kamyanske, na região de Dnipropetrovsk, para se juntarem à família.

Nadiia Aleksina, uma psicóloga voluntária na estação de comboios de Lviv, conversou com muitos deslocados sobre essa turbulência interior.

“A culpa do sobrevivente é algo que agora é comum entre a maioria dos ucranianos. Todos nós vemos o que pode acontecer connosco. Demorará a desaparecer”, disse ela, explicando que tentou lembrar às mães que não se devem sentir culpadas por terem sobrevivido e salvado os filhos.

A decisão de fugir foi algo com que Ksenia, de 32 anos, se debateu durante algum tempo. O distrito de Kiev, onde ela morava com o marido e os dois filhos, Oleksandr, de 6 meses, e Andrii, de 3 anos, foi um dos primeiros a ser atacado pelas forças russas. Ksenia levou os filhos para casa da sogra, num subúrbio da capital. O marido tinha-se alistado no exército e ela queria ficar por perto.

Mas quando as tropas russas avançaram e os filhos continuaram a acordar com as bombas, gritando durante a noite, “Ba-bah!”, arrumaram as coisas depressa e fugiram. “É muito difícil. É difícil sairmos de casa sem percebermos realmente porque temos de fazê-lo. Fugimos pelas crianças”, disse Ksenia, embalando Oleksandr nos braços.

Ksenia, uma jovem de 32 anos de Kiev, embala o filho de 6 meses, Oleksandr. “As crianças acordavam durante a noite por causa das explosões, tinham medo”, disse ela, descrevendo os dias antes de fugirem.

A sogra de Ksenia, Valentyna, de 58 anos, também estava decidida a ficar. Ela achava que a guerra seria resolvida com diplomacia. Agora, já não tem tanta certeza.

Enquanto mãe, é muito difícil para mim deixar o meu filho e fugir com os meus netos”, disse ela, os seus olhos escuros a brilhar enquanto pegava em Andrii ao colo. “Quando penso na minha casa, só me vêm lágrimas aos olhos. Muito difícil. Deixámos lá tudo. Não queremos deixar o nosso país! Porque devem as crianças sofrer? Porque devem os nossos filhos sofrer?”

As duas mulheres disseram que vão viajar de Lviv para os Países Baixos. Mas, assim que for seguro o suficiente para regressarem, elas vão fazê-lo. Sonham em regressar a uma Ucrânia com paz, onde terão uma palavra a dizer sobre o futuro dos seus filhos - e sobre o seu próprio futuro.

“Putin nunca vai derrotar as mulheres, muito menos as ucranianas. Nós, as mulheres ucranianas, somos fortes”, disse Valentyna.

Valentyna, de 58 anos, com o neto Andrii. Ela disse que espera que as mães russas ouçam aquilo que os soldados do país delas estão a fazer às mulheres ucranianas.

 

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