"Estamos na fase do tudo ou nada". Contraofensiva ucraniana atinge momento-chave

4 set, 12:55
Guerra na Ucrânia (Associated Press)

Kiev prepara-se para tentar explorar "o ponto fraco" que já criou na frente russa. Com o outono no horizonte, o resultado pode encaminhar o desfecho da guerra

O tempo começa a esgotar-se para Kiev. A contraofensiva começou mais tarde do que o planeado, no início de junho, e acabou por esbarrar numa das estruturas defensivas mais difíceis de ultrapassar da era moderna, que fez da Ucrânia o país mais minado do mundo. Quase sem apoio aéreo e com recursos limitados, o exército ucraniano entrou numa fase decisiva da guerra.

“Estamos na fase do tudo ou nada. A Ucrânia está a começar a empregar na região de Robotine as últimas unidades de reserva. Nestas próximas semanas, vamos ver o último esforço da contraofensiva ucraniana para conquistar o máximo território possível e tentar chegar a Tokmak”, afirma o major-general Agostinho Costa.

A chegada dos primeiros meses do outono pode representar um perigo para a capacidade ucraniana de prosseguir as operações militares no sul do país. O outono no país é marcado por períodos muito intensos de chuva, que impossibilitam a passagem de veículos blindados com rodas, já que se afundam nas lamas. Até mesmo os carros de combate com lagartas podem "encalhar". É o chamado Rasputitsa, o fenómeno natural - um temido lamaçal - que pode acabar por confinar as operações blindadas ucranianas apenas às estradas de asfalto, o que torna as colunas de militares em alvos perfeitos para a artilharia.

Mas a Ucrânia sabe-o e, por isso, os especialistas acreditam que as próximas seis semanas serão cruciais e marcadas por intensos combates na região da recém-libertada vila de Robotine. Esta localidade tem a particularidade de ser atravessada por uma importante estrada, a T0408, que segue em direção à cidade de Tokmak.

“A Ucrânia vai fazer todo o esforço na zona de Robotine. É aqui que a Ucrânia está a concentrar toda a sua força, em direção a Tokmak. O que vamos assistir é à Ucrânia a tentar romper a primeira linha de defesa”, explica Agostinho Costa.

Um ponto fraco

Soldados ucranianos perto de Bakhmut em junho. (Roman Chop via AP)

Além de ser um importante centro logístico para as operações de combate russas na região de Zaporizhzhia, Tokmak permitiria à Ucrânia, se libertada, o acesso a 65 quilómetros da costa do Mar Negro. Esta distância faz com que todas as rotas russas de abastecimento terrestre à Crimeia fiquem à mercê dos Himars ucranianos.  Este é um passo fundamental na estratégia de Kiev de cortar o acesso terrestre à península da Crimeia.

Durante os dois meses anteriores, a Ucrânia esbarrou numa das mais complexas linhas defensivas militares. Além de um vasto sistema de trincheiras preparadas ao longo do inverno, algumas delas com pequenos bunkers com ventilação, o terreno foi preparado com centenas de milhares de minas, tornando a Ucrânia o país mais minado do mundo. Quando as operações começaram, o número de baixas foi tão elevado que obrigou o general Zaluzhny a mudar de estratégia e a optar por ações de infantaria e artilharia, com conquistas de metro a metro. Agora, a Ucrânia acredita que está mais perto de poder progredir com maior velocidade.

“A Ucrânia conseguiu criar um ponto fraco na frente. Por isso, acredita que estão reunidas as condições para que a contraofensiva a sul possa acelerar, em termos de ritmo. Até porque a densidade de campos minados será muito inferior e parte das reservas serão empregues nesta frente”, afirma o major-general Isidro de Morais Pereira.

Porém, o governo ucraniano permanece firme na ideia de que, apesar de querer recuperar o território do seu país atualmente ocupado pelas tropas russas, não o irá fazer desperdiçando em vão a vida dos seus soldados.

Em entrevista à CNN, o antigo ministro da Defesa ucraniano Andriy Zagorodnyuk explicou isso mesmo. “Fazemos tudo o que é possível para tornar isto [a contraofensiva] o mais rápido e o mais bem-sucedido possível. Mas, ao mesmo tempo, não vamos ser pouco razoáveis. Vamos tentar o mais possível salvar as vidas dos nossos soldados. Não vamos cometer erros estúpidos e atirá-los para uma espécie de batalha de Estalinegrado para dizer que conseguimos fazer qualquer coisa até ao final do verão.”, explicou.

"Ocidente exigiu demais para aquilo que deu"

Os especialistas são unânimes em apontar ao dedo ao Ocidente por ter criado uma combinação mortal, que misturava o excesso de expectativas devido ao sucesso da contraofensiva ucraniana em Kharkiv e Kherson, com o envio de armas e munições em números insuficientes para a elevada intensidade dos combates. Segundo o blog de análise militar Oryx, que rastreia a ajuda enviada para a Ucrânia, o número de veículos enviados para operações de desminagem foi de apenas 77, um valor baixo para uma frente de batalha que se estende por mais de 1000 quilómetros.

Reconquista de Kherson, em novembro de 2022. (AP Photo)

O envio de mísseis de longo alcance ATACMS ou Taurus poderia permitir à Ucrânia atingir cada vez mais alvos que se encontram longe da linha da frente, mas acabou sempre por não se concretizar. É em muitos destes locais mais remotos que a Rússia sabe estar fora do alcance ucraniano que Moscovo utiliza como centros de abastecimento logístico para as operações militares que decorrem na frente.

“O Ocidente exigiu demais para aquilo que deu. As expetativas foram exageradas e o material prometido pelos vários países só começou a chegar à Ucrânia a conta-gotas. Os carros de combate prometidos ainda não chegaram todos. Além disso, não fornecemos os meios de longo alcance, como aviões, ATACMS ou os Taurus”, frisa Isidro de Morais Pereira.

Não menos importante foi a quase completa ausência de envio de meios aéreos para a Ucrânia.  A Polónia e a Eslováquia enviaram 24 MiG-29 entre março e maio de 2023, mas os F-16 ficaram pelo caminho. Este facto amplificou uma vantagem que a Rússia soube aplicar, através do uso dos helicópteros Ka-52, que puderam voar sem contestação e destruir alvos a longa distância. Este helicóptero de ataque moderno é responsável pela destruição de vários veículos blindados ucranianos durante a contraofensiva e é citado pelos militares ucranianos como sendo uma das suas principais dores de cabeça.

“A Ucrânia lançou-se num combate de manobra, com centenas de carros de combate, mas foi alvo de críticas ocidentais. No entanto, o Ocidente jamais lançaria uma contraofensiva nestas circunstâncias, sem ter superioridade aérea local”, reforça Agostinho Costa.

E se a contraofensiva fracassar?

Durante meses, tanto a Ucrânia como os seus aliados anteviram com expectativa a chegada de uma forte contraofensiva que rompesse violentamente as linhas defensivas russas no sul da Ucrânia e chegasse ao mar de Azov, cortando a ponte terrestre russa para a Crimeia, criada no início da guerra. Esta visão, defende o professor catedrático José Filipe Pinto, foi “demasiado romanceada”.

“Devido ao avanço lento da contraofensiva, é possível que haja um cansaço da ajuda. O elevado preço em termos humanos e orçamentais pode levar vários líderes políticos a reequacionar as suas posições e querer sentar os dois lados à mesa”, considera José Filipe Pinto, professor catedrático especialista em Relações Internacionais.

O Ocidente entendeu que esta operação seria uma espécie de blitzkrieg (guerra relâmpago) mas as tropas russas tiveram tempo suficiente para se entrincheirarem e minar o terreno, criando obstáculos difíceis de ultrapassar. O Presidente Zelensky abordou esta preocupação numa entrevista à BBC em julho. "Alguns querem uma espécie de filme de Hollywood, mas as coisas não acontecem assim", disse.

Zelenski com o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak em fevereiro de 2023. (AP)

Sem sucessos militares no terreno, os especialistas temem que a opinião pública – mesmo a que condena a invasão russa – pode começar a pressionar os seus líderes políticos para colocarem um travão na guerra. Mas o resultado não seria a paz, mas sim um mero silenciar das armas. Um armistício.

“Um acordo não traria a paz, mas haveria um armistício, que poderá congelar o conflito. As armas calam-se num primeiro momento, mas fica a pairar no ar um clima de guerra”, explica José Filipe Pinto.

Mas esta solução é algo que o Ocidente – e em particular o líder da Aliança Atlântica – diz reiteradamente que não será permitido. O presidente Volodymyr Zelensky tem verbalizado a intransigência ucraniana em negociar a paz, por defender que esta beneficiaria Moscovo. "Só há cessar-fogo com a retirada russa", reforçou Zelensky, perante um emissário enviado pelo Papa Francisco. No entanto, depois de mais de um ano de guerra de constantes bombardeamentos contra a sua indústria militar, sabe que continua dependente do apoio dos seus aliados para continuar o esforço de guerra.

Por outro lado, a própria Rússia pode não estar interessada em manter o conflito, uma vez que este está a ter efeitos pesados para a economia e para a sociedade russa. Os objetivos iniciais de Moscovo, como a deposição do governo de Kiev, a desmilitarização da Ucrânia e a conquista de territórios que ligassem o seu território à Transnístria, estão longe de ser atingidos. Além disso, os recentes indicadores económicos mostram que as sanções, afinal, estão a começar a pesar na economia russa. Um rublo fraco e a desvalorizar, misturado com uma elevada inflação – que segundo os números oficiais atingir os dois dígitos até ao final do ano – pode tornar-se uma combinação explosiva para o Kremlin, tornando um problema económico num problema político.

“A Rússia quer ficar definitivamente com a Crimeia e com Donetsk e Lugansk. A questão que se coloca é nas regiões de Kherson e Zaporizhzhia. Estamos numa situação muito parecida ao que aconteceu na Primeira Guerra Mundial, onde não houve paz mas sim um armistício", recorda o professor: "Ao fim de 20 anos tivemos um novo conflito”.

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