“É o sangue do meu filho morto”. Como Vitaly enfrentou o russo que lhe tirou Denis, o único filho

8 mai, 17:43
Vitaly Selevny enfrenta o homem que lhe terá morto o filho (Twitter)

Um homem mostra as mãos sujas de sangue ao soldado russo capturado no ataque que lhe matou o filho. Denis, de 15 anos, procurava salvar os animais do zoo de Kharkiv. Mas os estilhaços cortaram-lhe a segunda maior artéria do corpo

Vitaly Selevny está calmo. Quase demasiado calmo para quem acaba de perder o único filho. A esposa Svetlana, pelo contrário, chora e grita de desespero. Denis, de 15 anos, morreu. O sangue dele seca nas mãos do pai. Estão agora todos no hospital, depois de um ataque russo em Kharkiv.

A manhã de quinta-feira começa no jardim zoológico da segunda maior cidade ucraniana, o Feldman Ecopark. A família Selevny faz parte dos voluntários que ajudam a retirar os últimos animais. Procura levar-se as desorientadas avestruzes até à saída. Até que um forte ataque lança o pânico. Os estilhaços atingem Denis na perna esquerda. O sangue escorre sem parar.

Sem olhar nos olhos

“Mataste o meu filho. Este é o sangue do meu filho. Vês? E agora o que devo sentir por ti?”. As palavras são ditas de joelhos, quase em sussurro, ao homem que terá tirado a vida ao filho. É um dos dois soldados russos capturados pelos ucranianos após o ataque. Está sentado numa escada de cimento, com uma fita verde a tapar-lhe os olhos. Mas, nem quando essa fita lhe cai do olhar, consegue enfrentar a dor deste pai. Chora apenas, sem parar.

A história e os detalhes são transmitidos pelos jornalistas que documentavam a evacuação do zoo de Kharkiv. É no carro dos repórteres que a maioria dos feridos neste ataque chega ao hospital. Denis segue na dianteira com o pai no único veículo do Feldman Ecopark que não acabou destruído. E é o condutor desse veículo que, já na unidade de saúde, desperta a atenção deste pai enquanto grita a um soldado russo: “Olha para este homem. É o pai do rapaz que acabaste de matar.” Nesse momento, Vitaly Selevny parece não ouvir mais nada.

A artéria femoral

“Já não tenho o meu filho. Já não tenho o meu Denis.” É com estas palavras, repetidas sem fim, que Vitaly procura começar o inesperado luto num abraço à esposa. Denis morre a tentar salvar os animais que tanto amava. Apesar da corrida contra o tempo, de nada serve. A morte impõe-se. Um dos estilhaços cortou a artéria femoral, a segunda maior do corpo. Denis esvai-se em sangue. Os outros feridos estão a lutar pela vida, no hospital, em estado grave. São vítimas com nome, numa lista que engrossa a cada dia em Kharkiv, uma das cidades mais massacradas do conflito.

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