Dinheiro, poder e rancor: os ódios e as rivalidades que quase levaram à queda do regime de Putin

28 jun 2023, 07:00

Luta pelo poder fez tremer um regime cuidadosamente construído ao longo de quase três décadas que "depende da força"

Durante quase 24 horas, o maior país do mundo viu-se obrigado a suster a respiração, com os mercenários do grupo Wagner a preparem-se para o que parecia ser o início de uma guerra civil. Os eventos desenrolaram-se a uma velocidade alucinante, mas a perigosa mistura de ganância, inveja, rivalidade e ambição política que levou à rebelião já vinha a “fermentar” há vários meses.

Desde que começaram a ser utilizados como braço armado do Kremlin no estrangeiro, em 2014, Yevgeny Prigozhin tornou-se um dos principais protagonistas da política externa russa. Da Síria à Líbia, ao Mali e à Ucrânia, os “pequenos homens verdes” do grupo Wagner ganharam fama – e muito dinheiro – a fazer o trabalho sujo pelo qual a Rússia não queria ser conhecida. Daí a alcunha “pequenos homens verdes”, ganha durante o início da guerra no Donbass, quando estes homens apareceram vestidos de camuflado, mas sem qualquer insígnia militar que os identificasse.

Ao longo de quase oito anos, Prigozhin negou repetidamente ser o líder desta organização paramilitar. Mas a guerra na Ucrânia mudou tudo. Os primeiros meses do conflito mostraram que as forças armadas russas não eram capazes de capturar os seus principais objetivos na Ucrânia e Vladimir Putin decidiu utilizar todos os recursos ao seu dispor – incluindo o grupo Wagner. Segundo o presidente russo, entre 2022 e 2023, o grupo Wagner recebeu 86 mil milhões de rublos (917 milhões de euros) para salários e o grupo Concord recebeu 80 mil milhões de rublos (853 milhões de euros) para entregar comida ao exército russo.

A chegada de Prigozhin mudou a dinâmica de poder no terreno. O ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e o líder das Forças Armadas, Valery Gerasimov, eram vistos pela população russa como os principais responsáveis pelo insucesso do exército na Ucrânia e Prigozhin não fez questão de o ignorar.

Shoigu e Gerasimov são dos poucos membros do círculo restrito do presidente russo que não são de São Petersburgo. Shoigu, nascido na região de Tuva, na fronteira com a Mongólia, chefia a Defesa sem nunca ter servido nas Forças Armadas, sendo visto como um “apparatchik”, um político de carreira, que liderou a pasta das Emergências na década de 90. É o oposto de Valery Gerasimov, um militar de carreira, que ganhou fama por colocar fim a uma rebelião na Chechénia, na caótica década de 90.

Este perigoso triângulo de poder foi-se tornando cada vez mais tenso. O grupo Wagner, que em 2014 contava apenas com cinco mil soldados, quase todos veteranos do exército russo, viu o número de combatentes ao seu dispor saltar para aproximadamente 50 mil, no seu auge, muitos dos quais recrutados no sistema prisional russo. Este aumento de poder não passou despercebido ao Ministério da Defesa e à liderança militar, que começou a olhar com crescente desconfiança para este grupo de mercenários – cujo estatuto legal é inexistente na constituição, que estipula que todas as matérias de segurança e Defesa devem pertencer somente ao Estado.

O rancor entre a defesa privada e pública não nasceu com a guerra na Ucrânia. O primeiro momento de fricção entre os veteranos do grupo Wagner e o Ministério da Defesa aconteceu em 2018, quando cerca de 500 mercenários russos e soldados do regime de Bashar al-Assad atacaram um posto avançado das tropas especiais norte-americanas. O então secretário de Defesa norte-americano, Jim Mattis, contactou o Ministério da Defesa e perguntou se aqueles soldados cujas comunicações eram feitas em russo pertenciam às forças de Moscovo. O Kremlin negou e o resultado foi catastrófico. Os Estados Unidos bombardearam intensamente a localização com recurso a drones e bombardeiros, resultando em quase 300 mortos.

Mas foi com a chegada dos soldados do grupo Wagner a Bakhmut, onde foram a vanguarda da batalha mais violenta do século, que os ódios se acentuaram. “No auge do combate, em fevereiro e março, os homens de Prigozhin chegaram a ter cerca de 100 a 120 baixas por dia”, recorda o major-general Isidro de Morais Pereira. Então, Prigozhin criticou diretamente o ministro da Defesa, acusando-o de ser responsável pela morte dos seus homens ao não enviar as munições de artilharia necessárias e chegou mesmo a ameaçar retirar-se da frente de combate.

“O sangue ainda está fresco”, disse Prigozhin à frente de dezenas de cadáveres de militares do grupo Wagner, num vídeo publicado no seu canal de Telegram. “Eles vieram para aqui como voluntários e estão a morrer para que vocês se possam sentar como gatos gordos nos vossos escritórios luxuosos. Shoigu! Gerasimov! Onde estão as munições?”, questionou o líder dos mercenários. Nesse mesmo dia, segundo os documentos americanos, Prigozhin pediu uma reunião com Vladimir Putin e Sergei Shoigu.

A situação entre a liderança russa tornou-se ainda mais tensa quando Prigozhin ameaçou abandonar as posições conquistadas em Bakhmut a 10 de maio, um dia depois da celebração do Dia da Vitória, que marca o fim da Segunda Guerra Mundial na Rússia. O cenário captou a atenção dos meios de comunicação ocidentais, que estranharam que uma figura tão proeminente da máquina de guerra russa criticasse abertamente algumas das principais figuras políticas do executivo de Vladimir Putin.

Documentos tornados públicos pelo funcionário da força aérea norte-americana Jack Teixeira, revelaram que o próprio Ministério da Defesa estava a ter alguma dificuldade em combater a crescente popularidade de Prigozhin, que, devido à conquista de Bakhmut, era agora visto como alguém que conseguia conquistas no terreno, ao contrário da liderança militar russa. Vladimir Putin parecia estar confortável com a crescente rivalidade - o presidente russo é conhecido por deixar rivalidades aparecer no seio do sistema político russo.

"Ele [Prigozhin] não poderia repetir essas afirmações se não tivesse ordens claras para o fazer. Situações como a que Prigozhin protagonizou são impensáveis na Rússia atual, onde se prendem cidadãos por dizer que decorre uma guerra", defende António José Telo.

Mas a estratégia pode não ter corrido tão bem quanto esperado. As críticas do oligarca foram constantemente subindo de tom. Ao mesmo tempo, Sergei Shoigu – um político hábil o suficiente para aguentar no poder várias décadas e governos – acabava os preparativos do seu plano de utilizar a máquina política russa para retirar o poder militar das mãos do empresário. Anunciado no dia 10 de junho, o decreto-lei dizia que os soldados de “formações voluntárias” teriam de assinar contrato diretamente com o Ministério da Defesa para serem integrados e receberem o estatuto legal que é dado aos militares.

Foi a gota de água para o oligarca russo. “O grupo Wagner não vai assinar nenhum contrato com Shoigu. Ele não consegue gerir adequadamente qualquer formação militar”, respondeu Prigozhin ao “ultimato”, que dava até ao dia 1 de julho para que os soldados assinassem o documento. Os próprios mercenários teriam pouco interesse em assinar o contrato, que significaria automaticamente um salário menor ao que é possível obter no setor privado da Defesa.

“Prigozhin encarna um tipo de herói que agrada à população russa. É patriota, desafia a autoridade instalada, mas sem deixar de ser um russo que cumpre os seus deveres patrióticos. Ele também controla uma parte significativa dos bloggers militares e essa proeminência faz com que a sua imprensa seja uma boa imprensa. Tudo isto faz com que possa ser um incómodo do ponto de vista político”, afirma Diana Soller, professora e investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade NOVA de Lisboa.

A situação culminou naquele que é visto por especialistas e analistas como um golpe de traição que pode colocar em causa a liderança de Putin. “O ministro da Defesa está a tentar enganar o público e o presidente”, disse Prigozhin momentos antes de declarar guerra à liderança política da Defesa russa, retirando as suas tropas da Ucrânia em direção ao bastião logístico do conflito, a cidade de Rostov, e depois em direção a Moscovo.

Durante várias horas, tudo esteve em suspenso. Esperou-se tomadas de posição de várias personagens do regime russo para ver "para que lado pendiam". E era em Ramzam Kadyrov que estavam postos mais olhos. O líder checheno é conhecido por governar a região autónoma da Chechénia com mão de ferro e por controlar uma força militar considerável, parte da qual se encontra a operar na Ucrânia. "Uma facada nas costas", foi assim que Kadyrov descreveu a aposta de Prigozhin de marchar para Moscovo e jurou lealdade a Vladimir Putin, uma posição que tem mantido desde que ascendeu ao poder para suceder ao seu pai. 

Após negociação com o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, o líder do grupo Wagner decidiu recuar e evitar dar início a uma guerra civil. O futuro do líder do grupo Wagner é agora muito incerto. Segundo o acordo, Prigozhin terá salvo-conduto para continuar as suas operações em Minsk, mas pouco se sabe sobre se o oligarca poderá manter a sua carreira empresarial na Rússia. Embora Shoigu e Gerasimov tenham sido capazes de afastar uma ameaça existencial ao seu poder, as condições para novas tentativas de golpe mantém-se. Segundo fontes ocidentais, existem mais de dez empresas militares privadas a operar no país.

"Putin precisa dramaticamente de vitórias visto que teve uma fenda muito profunda no seu sistema de poder e no modelo de segurança da Rússia, que é muito complexo. As milícias serviram para Putin fazer o que o Estado russo não queria fazer, tanto dentro como fora da Rússia. Ele precisa de milícias porque nunca quis fazer uma mobilização geral. O ponto mais importante para o enfraquecimento de Putin é que o regime dele depende da força, e é a força que gera o medo. Se há uma rutura, uma dissensão nessa força, fica obviamente mais fraco”, defende Paulo Portas.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados