"A gripe não é assim tão inofensiva como pode parecer": sintomas e complicações a que deve estar atento

5 out, 08:01
Quais os sintomas mais comuns de long covid?

Dependendo da estirpe do vírus e da fragilidade do sistema imunitário, por vezes podem surgir complicações, avisam os médicos

A gripe manifesta-se, de uma forma geral, durante três a cinco dias: febre, nariz a pingar, tosse, dores no corpo, pouco apetite, "pouca paciência até" são as características principais da ação do vírus no nosso organismo. Nada que não se resolva com uns dias em casa, descanso, hidratação e antipiréticos (para a febre). Mas, dependendo da estirpe do vírus e da fragilidade do sistema imunitário, por vezes podem surgir complicações.

"A gripe não é assim tão inofensiva como pode parecer", explica à CNN Portugal o médico Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. "Como em qualquer doença, devemos sempre estar atentos a todos os sinais."

O que é a gripe e quais são os sintomas?

"A Gripe ou 'Influenza' é uma infeção vírica da árvore respiratória superior, que normalmente dá febre, corisa [ranho], tosse, cefaleias, mialgias e mal-estar geral. Em termos de gravidade apresenta grande variabilidade, desde situações assintomáticas, até doença grave com atingimento sistémico (generalizado)", explica à CNN Portugal Mário Espiga Macedo, especialista em Medicina Interna no Hospital Lusíadas Porto.

"A gripe e constipação (resfriado comum) são por vezes confundidas, pois ambas surgem na mesma altura do ano e têm sintomas semelhantes a nível respiratório, mas o resfriado não apresenta a maioria das vezes febre elevada. Os seus agentes são na mesma vírus da família dos rinovírus e coronavírus", clarifica Mário Espiga Macedo.

Deve ter-se a noção que o vírus "não fica simplesmente alojado na nasorofaringe do doente, mas pode e tem a maioria das vezes uma disseminação generalizada no corpo humano", explica o médico. "A gripe ocorre a maioria das vezes com viremia, mais ou menos intensa, e daí as dores musculares (miosite) de intensidade e duração variáveis, os sinais de hepatite, a maioria das vezes assintomática, as cólicas intestinais com ou sem diarreia e vómitos, etc." Por isso, apesar de quase sempre não acarretar complicações, convém estar atento à evolução dos sintomas.

Como tratar a gripe e que cuidados devemos ter?

O diagnóstico da gripe é quase sempre clínico e raramente obriga à realização de exames complementares, mas por vezes estes são precisos. O seu curso é quase sempre benigno, e o tratamento, apesar de existirem antivirais, é feito com antipiréticos.

A gripe é transmitida pessoa a pessoa através de partículas víricas que andam no ar, e daí os cuidados a ter em ambientes pouco arejados. A vacina disponível todos os anos à população é a forma mais simples e eficaz de prevenir a gripe. Esta deve ser dada principalmente a crianças e adultos de risco, idosos e grávidas, mas é extensível à população em geral.

As situações mais graves e menos frequentes, se bem que possam aparecer em qualquer pessoa, atingem mais facilmente as pessoas mais débeis e com pior condição de saúde, sublinha Mário Espiga Macedo. Entre estes encontram-se as crianças com idade inferior a seis anos e principalmente menores de dois anos, mas também os adultos com idade superior aos 65 anos. A outra população mais susceptível são os doentes com doenças crónicas e mais graves, tais como: insuficientes cardíacos, insuficientes renais, diabéticos, doença isquémica do coração ou acidente vascular cerebral, os doente hepáticos, os doentes transplantados, doentes em heemodiálise, os doentes a fazer tratamentos imunosupressores, os doentes com doença respiratória crónica, etc.

Que complicações podem surgir?

As complicações da gripe são raras mas podem acontecer. Costumam surgir sobretudo em pessoas que já tenham outras doenças e após alguns dias de doença. Quando a febre não diminui e os sintomas respiratórios persistem para além de três dias, é conveniente consultar um médico. 

Pneumonia bacteriana

"A inflamação do sistema respiratório pode evoluir para quadros mais complicados", sublinha Nuno Jacinto. "Uma das consequências mais frequente da gripe é a pneumonia bacteriana, quer em adultos quer em crianças, que pode cursar de forma benigna, mas que nos doentes de risco pode por vezes ser fatal", explica o médico Mário Espiga Macedo.

A principal bactéria responsável por esse tipo de pneumonia é Streptococcus pneumoniae, que se aproveita do facto de o sistema imunitário estar mais frágil devido à gripe. O tratamento pode ser feito em casa com repouso e uso de antibióticos por sete a 14 dias, de acordo com a recomendação médica.

Miosite Infecciosa

É normal a gripe provocar dores musculares generalizadas, mas por vezes estas tornam-se incapacitantes. A miosite é uma inflamação dos músculos, que causa o seu enfraquecimento, provocando sintomas como dor muscular, fraqueza muscular e aumento da sensibilidade dos músculos. Geralmente, a miosite não é grave, considera Nuno Jacinto. Na maioria dos casos, trata-se com o tratamento da infeção que lhe deu origem. Nos casos mais graves pode ser necessária fisioterapia para reuperar os movimentos musculares.

Encefalite viral

"Outra situação é a encefalite, que obriga a cuidados mais intensos", afirma Mário Espiga Macedo. Este tipo de infeção pode ser uma complicação da infeção por vírus relativamente comuns, como herpes simplex, adenovírus ou citomegalovírus, que se desenvolvem em excesso, devido ao sistema imune enfraquecido, e que conseguem afetar o cérebro. Afeta, principalmente, bebés e crianças, mas também pode acontecer em adultos com o sistema imunológico enfraquecido.

Quando a encefalite não é muito grave, os indícios são semelhantes aos de outras doenças: febre não muito elevada, cefaleias moderadas, fadiga e perda de apetite. Pode ainda ocorrer confusão, desequilíbrio, desorientação, irritabilidade, sensibilidade à luz, rigidez da nuca e do pescoço, e vómitos. Geralmente, para confirmar o diganóstico, realiza-se um exame de ressonância magnética (RM) e punção lombar.

O tratamento da infeção deve ser feito de acordo com a prescrição médica. A fase aguda normalmente dura uma a duas semanas, desaparecendo depois a febre e os restantes sintomas de um modo gradual. Algumas pessoas podem demorar meses a recuperar por completo.

Miocardite

"Também a miocardite (atingimento cardíaco) apresenta por vezes formas complicadas e que deixam sequelas nem sempre reversíveis", sublinha Mário Espiga Macedo. A miocardite é uma inflamação do músculo cardíaco, que normalmente surge como complicação de uma infeção por vírus. Os sintomas são muito semelhantes aos da gripe, acrescidos de dor no peito, inchaço das pernas e dos pés e tonturas.

O diagnóstico da miocardite é feito pelo cardiologista através de exames como raio X do tórax, eletrocardiograma ou ecocardiograma, que permitem identificar alterações no funcionamento do coração. O tratamento inclui medicação para a tratar insuficiência cardíaca e as arritmias e, raramente, cirurgia.

Síndrome de Reye

"Uma forma grave, em crianças, é o Sindrome de Reye, em que há um atingimento sistémico de vários órgãos, cérebro, fígado, metabolismo lipídico", explica Mário Espiga Macedo. Esta doença é rara mas pode ocorrer na sequência de uma infeção viral, como gripe ou varicela, e quando se administra aspirina ou salicilatos. Entre os sintomas, temos a fraqueza muscular ou paralisia, vómitos frequentes e, nos casos mais graves, convulsões e até perda de consciência ou coma. 

O tratamento deve ser feito em meio hospitalar e pode exigir o internamento numa unidade de cuidados intensivos. Com os avanços que se fizeram nos últimos anos no que toca a diagnóstico e tratamento, a maior parte dos doentes sobrevive e alguns recuperam completamente. Contudo, algumas pessoas podem sofrer danos cerebrais permanentes.

A que devemos estar atentos?

"Os doentes crónicos devem estar atentos e saber os sinais de uma possível descompensação das suas doenças", avisa Nuno Jacinto. Pessoas com diabetes, doença coronária, insuficiência cardíaca ou alguma doença auto-imune são aquelas que devem estar mais alerta.

As pessoas saudáveis devem preocupar-se se ao fim dos tais três a cinco dias os sintomas persistirem, explica o médico. Se tiverem falta de ar, uma tosse persistente que pode até provocar vómitos ou uma febre que não cede aos medicamentos - estes são os principais sinais de alerta. Nesse caso deve consultar o médico: "Pode ser uma gripe muito grave e que precisa de um outro tratamento ou pode até não ser gripe".

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