E depois da fatura do gás, o que mais podem os portugueses esperar? O aumento dos preços não vai ficar por aqui

25 ago, 11:33
Gás (Pexels)

É já a partir de outubro que algumas famílias portuguesas vão pagar mais na fatura do gás, mas o efeito bola de neve será transversal e é expectável que os preços continuem a subir - e não apenas no gás, mas também na luz, na água e nas compras

Numa altura em que o preço do gás atinge “os 300 euros por megawatt, mais 17 vezes do que há um ano”, tal como explica o economista Pedro Braz Teixeira, a fatura de algumas famílias vai ficar mais cara e o mais certo é que todas as outras faturas também. “Vamos assistir a novos problemas de preços e inflação”, avisa.

Para Miguel Coelho, economista e docente na Universidade Lusíada, o aumento esta quarta-feira anunciado pela Galp e pela EDP “não é surpresa para ninguém” e terá um efeito bola de neve que se fará sentir no orçamento dos portugueses, mas também um “efeito de segunda ordem em toda a indústria e comércio, com reflexo em todos os setores”. E o que pode resultar daqui? “Uma nova subida de alguns preços em função deste aumento”, seja nos produtos, como nos serviços.

“Face ao início do ano, já se observam subidas na ordem de 15% a 20% na restauração, o que começa a refletir o aumento de preços” praticados e pagos pelos consumidores, situação que, diz Miguel Coelho, tenderá a agravar-se, pois tal como acontece com as famílias, também os comerciantes e as indústrias terão de pagar a subida do preço do gás (e já tiveram de praticar “uma subida salarial” para fazer frente à “falta de mão de obra”, o que, por si só, já se reflete nos preços, explica).

“O mecanismo ibérico vem atenuar a subida dos preços no consumo final, mas não a vem anular. Parte desses custos terão de ser pagos pelos consumidores, o que já ficou refletido nas faturas de consumidores não particulares, que tinham contrato no mercado livre, com subidas [na fatura] de 50%. Agora, [a subida] vai ser para a generalidade dos portugueses e a situação pode agravar-se se a seca continuar e com o corte de gás russo na Europa previsível para final do ano”, continua Miguel Coelho.

Pedro Braz Teixeira partilha do mesmo ponto de vista e diz que os aumentos na fatura do gás podem não ficar por aqui. O especialista diz que se a Rússia “apertar ainda mais a torneira no inverno, que é quando o aumento de consumo de gás dispara, ainda por cima o consumo de gás tem um sazonalidade muito forte” é expectável um aumento dos preços, até mesmo para Portugal que é dos países menos dependentes dos russos nessa matéria por causa do “mercado europeu do gás”. E se a subida do preço do gás demorou algumas semanas a acontecer, o economista alerta que poderá também demorar a baixar. “[As empresas] podem precisar de compensar as perdas que tiveram entretanto, porque não aumentaram os preços de forma tão rápida como o gás subiu. O preço ao consumidor não subiu tão depressa como subiu o preço da gasolina, o preço ao consumidor esteve estável, mas também não irá descer tão depressa”.

Também João Rodrigues dos Santos, doutorado em Economia e professor na Universidade Europeia, defende que “só diminuindo a dependência, à escala global, de combustíveis fósseis, será possível ‘desarmar’ a Rússia” e conseguir abrandar ou travar a subida do preço do gás, sendo que, garante, “enquanto a transição energética não ocorrer, a inflação manter-se-á, podendo, inclusivamente, deixar de ser conjuntural para a passar a ser estrutural”. “É possível que o cenário de uma “recessão expectável” se torne sistémico”, alerta.

O Ministério do Ambiente vai apresentar esta quinta-feira medidas para mitigar os aumentos do gás anunciados pela EDP e pela Galp. As soluções encontradas para os consumidores fazerem face ao aumento do gás anunciado surgem de um trabalho conjunto com a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos), diz a Lusa.

Subida no gás pode incentivar a subida no preço da água e da luz (e o Governo já está a tomar medidas)

Também Pedro Braz Teixeira, diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, aponta a seca como um fator para esta subida, uma vez que está, diz, “a provocar dificuldades nas outras energias e o que sobe é o gás, que está a funcionar como energia de último recurso e por isso o seu preço está a subir muito”. 

Para Miguel Coelho, uma vez que Portugal deixou “de depender dos combustíveis fósseis para produzir energia por opção própria”, ficou dependente “apenas das renováveis e do gás”, mas como “do ponto de vista hídrico tem sido complicado” gerar energia, a dependência do gás intensifica-se. E a necessidade de poupar água também - e a subida de preços pode ser a solução. 

Esta quarta-feira, o Governo recomendou o aumento de tarifas da água nos 43 concelhos mais afetados pela seca. O aumento da tarifa, explicou Duarte Cordeiro, deve dirigir-se a consumidores de mais de 15 metros cúbicos de água, sendo que o consumo médio de uma família é de cerca de 10 metros cúbicos.

No que diz respeito ao preço da água, Miguel Coelho não hesita em dizer que “vamos ter um problema sério”, pois “não sabemos gerir os recursos hídricos e estamos agora a pagar a fatura que mais cedo ou mais tarde será refletida no preço da água no consumidor final”. Sobre a questão da água, o docente na Universidade Lusíada, diz que Portugal “carece de medidas públicas que permitam inverter o caminho” e que a gestão dos recursos hídricos “passa pelo Estado e pelas empresas e pelos particulares, que têm de saber consumir melhor e com inteligência”. 

Uma vez que o gás é o recurso mais usado para a produção de energia, este aumento irá levar inevitavelmente a uma subida na fatura do preço da eletricidade, algo já anunciado pela Endesa, embora a empresa tenha voltado atrás. “Do lado da eletricidade, esse processo de aumento de preço está em curso e vai-se agravar nos próximos meses”, alerta Miguel Coelho.

Também Pedro Braz Teixeira, que considera que a “Endesa falou cedo demais”, defende que os preços da fatura da luz “podem não subir já, mas vai haver uma subida inevitável” e que afetará famílias, setores e indústrias. 

Esta quarta-feira, a Galp anunciou que vai aumentar os preços do gás natural em outubro, num “valor a indicar brevemente”. O anúncio acontece pouco depois de a EDP Comercial ter revelado que vai aumentar o preço do gás às famílias em média em 30 euros mensais, mais taxas e impostos, também a partir de outubro. Ambas as empresas usam como argumento a escalada de preços nos mercados internacionais após um ano sem atualizações e, para o economista Pedro Braz Teixeira, face o facto de o preço do gás ter “subido extraordinariamente” nos últimos meses, “é impossível escapar a este aumento”.

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