Uma volta de Trabant, o carro mais popular da Alemanha de Leste

Vítor Maia , Enviado especial ao Euro 2024, em Leipzig
20 jun, 08:07

Símbolo da República Democrática da Alemanha, o «amigo leal» está de volta às ruas de Leipzig. «O meu pai conseguiu um Trabi em troca de uma bebida.»

Leipzig, uma cidade que conjuga fragmentos do passado da República Democrática Alemã (RDA), que existiu sob influência soviética, e traços de modernidade. É como viajar no tempo sem sair do mesmo lugar, no fundo.

Tanto se vê dos carros mais modernos do mundo como um Trabant, o carro mais popular do leste da Alemanha.

«O meu pai conseguiu um Trabi praticamente novo numa discoteca. Ofereceram-lhe o carro em troca de uma bebida. E conseguiu-o porque as pessoas queriam os carros que havia no outro lado do muro», conta Stefan, funcionário de uma empresa de aluguer destes veículos, ao Maisfutebol.



A queda do Muro de Berlim e a consequente reunificação da Alemanha, no fim de 1989, transforma o país e faz o Trabant praticamente desaparecer. A produção, feita em parte com material oriundo da União Soviética, pára definitivamente em abril de 1991.

«As pessoas que não atravessaram para o lado ocidental, deixaram os seus Trabant na rua com notas nos vidros. 'Por favor, levem-no. Tem gasolina'», relata o germânico de 37 anos.

«A engenharia do carro não era muito sofisticada. Este carro [modelo P60] foi o mais produzido na Alemanha. O S significa standard e não versão desportiva (risos). O Trabant é feito com duroplástico, uma mistura de plástico feito a partir de algodão reciclável e de resina. Este atinge uma velocidade máxima de cerca de 100 km/h», explica enquanto abre o capot do Trabi, como é carinhosamente tratado pelo povo alemão.

Stefan esclarece que a gasolina no tanque é medida através de uma vareta e aponta para o motor. «É um motor de dois cilindros a dois tempos refrigerado a ar. Não há bomba de óleo, radiador, todas as coisas que os carros modernos têm. O combustível vai para o carburador através da força da gravidade.»




Stefan abre as portas do carro e convida-nos a entrar. O carro, produzido em 1989, é bastante simples no interior e não prima pelo conforto (como é natural). O nosso guia senta-se ao volante e brinca: «Tem ar condicionado», atira ao mesmo tempo que abre a janela.

De seguida, Stefan abre uma válvula, coloca o motor a trabalhar e sorri ao apontar para o lado direito do volante. «É aqui que colocamos as mudanças. Tem quatro posições. Prepara-te, vamos sentir a estrada toda», alerta.

Passeamos num parque de estacionamento. O alemão grita, entusiasmado. Nota-se que tem prazer em conduzir o Trabi. «Este é um carro para desfrutar», confessa.

Stefan surpreende-nos: passa-nos a chave, sem pedirmos. Agradecemos, mas dizemos que não. O germânico insiste e acabamos, com receio, por aceitar. «Sente o carro!», adverte antes de explicar como se conduz o Trabant.

Damos duas voltas e aceleramos um bocadinho. De imediato, sentimos a estrada toda e o carro abana por todo o lado. Sorrimos e Stefan lembra que já nos tinha avisado. Temos dificuldades em colocar a segunda mudança. Inversão de marcha? Difícil, muito difícil. Não é fácil conduzir um Trabi e o desempenho acaba por não ser brilhante. «Ainda nenhum mestre caiu do céu», responde de forma simpática.





Stefan é apaixonado pelo Trabant, assume-se como um 'freak'. Fala com paixão acerca do carro, produzido VEB Sachsenring Automobilwerke, em Zwickau, a 80 quilómetros de Leipzig e que se tornou um problema após a reunificação do país.

Os Trabant apareciam abandonados um pouco por todo o lado e foi necessário recorrer à ciência para destruir o duroplástico. Mas cerca de 40 mil Trabi estão registados na Alemanha.

«As pessoas deitaram fora os seus Trabant. E sabe o que significa Trabi em alemão? Amigo leal. Há quem esteja arrependido e diga: 'Não, o meu carro!'. Não estou a brincar. As pessoas adoram o carro atualmente e sentem saudades. Estão arrependidos por terem desistido dos Trabi», frisa Stefan.

«O Trabi deve ser conduzido num dia de sol, como hoje, e sem poeira. As pessoas que colecionam estes carros só conduzem com bom tempo. É um carro que deve ser guiado de forma tranquila», sublinha.

Como um amigo leal, o Trabi sobrevive aos anos junto de quem o estimou e volta às estradas paulatinamente. É um símbolo do passado que não devemos esquecer e ao qual não queremos voltar e do presente, onde podemos guiá-lo com prazer sem uma Cortina de Ferro a ofuscar-nos a visão.

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