Euro 2024: animais, cores e geopolítica, a origem dos escudos das 24 seleções

20 jun, 08:07
Cerimónia de abertura do Euro 2024 (AP Photo/Sergei Grits)

Das águias aos leões, e com um galo pelo meio, os brasões no Europeu revelam perceções sobre a História. Entre epopeias e façanhas, há rivalidades acérrimas e, até, peculiares. Nesta viagem no tempo, guardamos uma «faixa bónus», a propósito de um dragão.

Da época medieval, o futebol herdou tradições, símbolos e cicatrizes. Por inerência, a heráldica das seleções – ou seja, a ciência dos brasões – espelha a cronologia de avanços e recuos territoriais, de epopeias de resistência e rivalidades que perduram no tempo. Em todo o caso, o Euro 2024 também reserva brasões mais recentes.

Para compreender estes símbolos, o Maisfutebol esteve à conversa com Miguel Metelo de Seixas, estudioso e apaixonado pela heráldica. Aliás, este investigador do Instituto de Estudos Medievais na Universidade Nova de Lisboa publicará um livro – «encomendado» pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) – sobre a heráldica no futebol português. Intitulada «Emblemas em Campo», a obra será anunciada até ao final do ano.

«O futebol é o agente social na qual a heráldica se encontra presente da forma mais medieval, porque a maioria dos Estados recorrem a símbolos da Idade Média», começa por explicar.

Ora, a coleção de 24 brasões no Europeu está no radar, pelo que a viagem nos séculos poderá arrancar.

Grupo A

Alemanha

«Na Idade Média há um duelo tradicional, entre dois animais heráldicos, aqueles que lutam pelo “título” do reino dos animais: a águia e o leão. A águia com a sua origem romana. O leão, por sua vez, que surge no sec. XII.

Todos os países que, de alguma forma, se relacionaram com o Império Romano, têm uma águia. É o caso da Alemanha. Na Idade Média, depois de surgir o Sacro Império Romano-Germânico, a ocidente, a necessidade de um emblema levou à escolha da águia, pela ânsia de reviver o Império Romano.

A Alemanha só se unifica politicamente na segunda metade do século XIX. Todos os Estados do império tinham águias. A unificação foi impulsionada pela Prússia, que também tinha uma águia como símbolo.»

Suíça

«Importa realçar a tendência para as entidades usarem um sinal heráldico e o logótipo, como neste caso. Muitas vezes, a bandeira não se adapta com a facilidade que as entidades gostariam. Recentemente tivemos essa questão no Governo português, com o logótipo da República.

A cruz da Suíça remete para a religião. Daí a necessidade de criar um logótipo [à esquerda da imagem], desvinculando de qualquer motivo religioso.»

Escócia

«Como heraldista, acho este escudo lindo, talvez o melhor. Temos a segunda figura heráldica, o leão. Na Europa da Idade Média, onde prevalece a águia há pouco leão, e vice-versa. Temos o Império Romano, ou os herdeiros, e, em redor, temos um cinturão de leões, como de Inglaterra e Escócia.

Neste caso, o emblema do leão é completado pelo cardo, a planta nacional da Escócia. Esta é a resposta à planta nacional de Inglaterra, a rosa. Isto porque a Escócia foi muitas vezes invadida pelos ingleses, pelo que o cardo – planta espinhosa, difícil de agarrar – define a resistência e dureza das terras escocesas. E acaba por espelhar a postura dos escoceses.»

Hungria

«Estamos diante de um caso muito curioso. O brasão em análise está à direita. O Estado húngaro foi comunista durante muitos anos. As faixas – às quais chamamos Hungria “antigo” – e a dupla cruz sobre um monte coroado – a Hungria “moderno” – são as armas medievais dos reis deste país.

O que há de mais curioso é a coroa, em muitas monarquias símbolo do poder régio. Neste caso, essa coroa relaciona-se com o responsável pela conversão da Hungria à fé cristã, São Estêvão. Hoje, está guardada numa sala do parlamento húngaro.

No século XVIII, a coroa sofreu um acidente, como reparamos pela cruz cimeira, entortada após uma queda. Para não se consertar um objeto sagrado, todos os reis da Hungria – a certa altura também imperadores da casa de Áustria – conservaram a coroa como estava.

Sobre a dupla cruz, simboliza a autonomia da igreja húngara, assim como a importância da conversão ao catolicismo e ao cristianismo. A Hungria funciona como enclave católico num território que se divide entre igrejas protestantes e a igreja ortodoxa.»

Grupo B

Espanha

«Brasão monárquico e complexo. Se olharmos para o escudo, percebemos que esta é uma monarquia resultante de um conjunto de nações. Temos um esquartelado com os quatro principais reinos. Por ordem. Castela e Leão. Em baixo, Aragão e Navarra, com as palas aragonesas e as cadeias do reino de Navarra.

A planta, em baixo, são armas falantes do reino de Granada. Romã em espanhol diz-se “granada”. Este foi o último reino reconquistado aos muçulmanos, pelo que os reis assinalaram o término dessa fase – de sete séculos – com a romã. E com o bónus simbólico de a romã representar Cristo e a igreja.

No meio, temos um escudeto oval, com três flores de lis, um elemento dinástico. Diz respeito à casa de Bourbon, daí vermos as flores de lis de França. A ladear o escudo temos as duas colunas de Hércules, com menção para ao Imperador Carlos V, que depois serviu como sinal do Estado espanhol, equiparável à esfera armilar em Portugal.

Quanto às cores, além de serem os tons da bandeira, são as cores do primeiro quartel das armas de Castela. O campo de vermelho e o castelo de ouro.»

Itália

«Sem grande novidade, é o símbolo tradicional, o tricolor revolucionário que aponta à unificação do país, na segunda metade do século XIX. Chamo à atenção para a quarta cor, o azul. É curioso, porque o azul é a cor emblemática da Casa de Saboia, os protagonistas na unificação de Itália. E o tom passou para a equipa nacional de futebol.

No pós Segunda Guerra Mundial, a Itália foi a referendo, a fim de decidir se continuariam como regime monárquico, ou se passariam para uma república. Ainda que a opção republicana tenha vencido, o tricolor foi conservado – enquanto cores nacionais, e não monárquicas – e, surpreendentemente, também se conservou o azul da Casa de Saboia, da antiga casa reinante, até 1945.»

Croácia

«Não foi escolhido por parecer uma toalha de piquenique [risos]. Estamos perante uma reinterpretação de armas medievais.

O jogo de xadrez era muito apreciado na Idade Média, pelo que este padrão enxaquetado era muito divulgado. Houve muitas famílias e entidades que o adotaram como emblema. Quando se fundou a nova república, já no século XX, o Estado recuperou este símbolo medieval. Neste caso, reinterpretaram o escudo, adicionando a bola de futebol e a designação da seleção.»

Albânia

«O escudo da seleção espelha a bandeira. Estamos perante uma águia peculiar, por ser bicéfala, com duas cabeças. Esta águia liga-se à renovação do Império Romano. Na sua fase final, o império foi dividido em dois, no Sacro Império Romano-Germânico e no Império Bizantino. Na Idade Média foi criada esta águia, a fim de simbolizar ambos os impérios.

Ou seja, a Albânia e a Sérvia consideram-se herdeiras destes impérios da Antiguidade.»

Grupo C

Inglaterra

«Mistura os três leões com um semeado de rosas, a planta emblemática, símbolo da devoção à Virgem Maria.

Há uma história curiosa. Estes animais são leões na origem, mas a grande rivalidade entre o reino francês e inglês conduziu a guerras e a troca de propaganda por imagens. Estes leões ingleses têm um pormenor importante para o homem medieval.

O corpo está numa direção, o olhar noutra, visando o observador, o que criava confusão. Este recurso – de olhar noutra direção – é um sinal de desordem.

Então, os franceses aproveitaram esse aspeto para tecer uma enorme teorização, alegando não se tratar de leões – nobres, os reis e sinal de Cristo – mas sim de leopardos. Reparemos no nome: leo/pardo. Era apresentado como fruto da união iníqua entre o leão e a pantera, daí ficar com uma pelagem mosqueada. Portanto, era um animal bastardo e cujo caráter não era fiável.

Os ingleses, por sua vez, dizem que é o “leão que passa e olha”.

São três leões por uma mera questão prática, de preencher o escudo. O leão escocês, de patas levantadas, ocupa a maioria do escudo. Contudo, quando se aplica um leão “passante”, sobra muito espaço. E a heráldica tem o horror do vazio. Portanto, se queremos um leão “passante”, não poderá ser um só. Além disso, o três é número de referência na era medieval.»

Sérvia

«Temos a águia bicéfala, mas chamaria à atenção para as referências imperiais. Além da águia, temos o escudete sobre o peito do animal, que é algo estranho. Uma cruz ladeada de quatro figuras, as armas do Império Latino do Oriente.

No século XIII, o Império Bizantino foi atacado por uma cruzada cristã, o que não faz muito sentido. Quem assumiu o território criou, então, esta nova entidade. O emblema é aquele que vemos neste escudete. Temos uma dupla menção imperial, conjugadas com as flores de lis.»

Dinamarca

«Não optaram pela heráldica, por ser complexa, à semelhança de Espanha. A Dinamarca aposta na bandeira, a primeira bandeira medieval que se mantém até aos nossos dias. Desenharam pequenos pormenores.»

Eslovénia

«Integra as armas criadas no século XX, apostando na recriação heráldica. Os anéis simbolizam a atividade desportiva.»

Grupo D

Países Baixos

«O cerco heráldico dos leões às águias tem o caso mais forte nos Países Baixos, assim como na Bélgica e no Luxemburgo. Sempre tiveram uma vivência conturbada por invasões e contra invasões, ora na dependência de França, ora na dependência de impérios, ou até na dependência de Inglaterra.

Há uma história densa de resistência, pelo que o leão representa essa resiliência face à águia imperial. Por isso, o leão é partilhado com belgas e luxemburgueses.

Chamo à atenção para o fator cromático. Quando se tornam independentes, no século XVII, os Países Baixos deixaram o domínio espanhol. A república, então, era liderada por uma família que detinha um pequeno território no sul de França, o principado de Orange.

E, portanto, naquela associação falante, essa casa tinha como cor associada o laranja. Quando se constituiu o reino dos Países Baixos, no século XIX, e a Casa de Orange foi chamada a ocupar o trono, o laranja tornou-se a cor do país.»

França

«Optaram pela bandeira, porque se tornou o símbolo mais forte da revolução e do regime republicano, o que serviu de inspiração a outros países. O tricolor italiano “bebe” deste tricolor.

Em simultâneo, no século XVIII, quando o regime republicano foi instaurado, foi decretada a abolição da heráldica.

A única exceção aconteceu quando Napoleão chegou ao poder. No império, a águia serviu como símbolo, remontando ao Império Romano. Todavia, havia quem apontasse ao galo. Esse animal provém do caráter falante, porque “gallus”, em latim, designa o galo, mas também o gaulês. Portanto, já antes era usado na simbólica francesa, aproveitando este jogo de palavras. Além disso, é um animal combativo.»

Polónia

«Vemos as antigas armas do reino da Polónia. Temos, uma vez mais, raízes medievais. É um reino antiguíssimo na Europa. A águia é de influência imperial. A Polónia não fez parte, mas confinou com o Sacro Império Germânico-Romano, pelo que a relação foi muito próxima.»

Áustria

«Há uma estilização ultramoderna da águia. Os emblemas heráldicos têm esta caraterística, são gráficos, mas é possível representar o mesmo emblema das mais variadas formas, desde que cumpra as normas heráldicas, de cor e de estilização. É uma interpretação diferente da águia heráldica, que resulta muito bem.

Esta águia, com o escudo da Áustria ao peito, e sobreposta a uma bola de futebol, é um ótimo exemplo sobre como desenhar símbolos heráldicos de forma livre.»

Grupo E

Eslováquia

«Heráldica diferente, porque este país fez parte de várias entidades políticas. Nota para a dupla cruz, como na Hungria. A origem é comum, medieval, mas com cores diferentes. Estes montes são azuis e aqui não há coroa, uma vez que a Eslováquia nunca foi um reino. Ainda assim, a dupla cruz tem o mesmo significado.

Gosto desta moderna capacidade de adaptação dos símbolos heráldicos. Não temos um escudo, mas sim uma delimitação dos vincos da bola de futebol, nos quais se inserem as armas. Mostra o carácter vivo desta heráldica, misturando com outro tipo de emblemática.»

Roménia

«É um país independente desde o século XIX, pelo que a heráldica reflete esse carácter recente. Temos componentes territoriais que formaram o reino da Roménia, e depois a república. Antes de tudo isso, eram entidades distintas: Valáquia, Moldávia, Banat, Transilvânia e Dobruja.

O espaço ao centro, a negro, era dedicado às armas da dinastia reinante. Neste caso, uma casa germânica. O espaço vazio foi aproveitado para fazer referência à bola de futebol.»

Ucrânia

«Estamos diante de uma recriação, já do século XX. A Ucrânia, na Época Moderna, faz parte da Rússia, e no século XX está na União Soviética. Em momentos chave da sua história, e ainda antes de se tornar independente, precisou de recriar alguns símbolos. Então, recuperou selos – a cera – dos antigos príncipes deste território.

Esses símbolos – tridentes – na verdade são desenhos cuja origem é desconhecida, ou, pelo menos, não é consensual. Os selos eram objetos de dimensão reduzida, nem sempre impressos de forma percetível.

Em 1917, no primeiro movimento nacionalista ucraniano, este sinal foi recuperado, recebendo o significado do tridente de Neptuno. Portanto, quando a Ucrânia se tornou independente, esta escolha foi óbvia.»

Bélgica

«Estamos diante do abandono do heráldico tradicional – o leão – e a adoção de uma figura mais neutral, meramente geométrica, permitindo realçar a união do país. Temos um desenho da bandeira, baseada nas cores originais. O campo do escudo, a cor do leão e a cor das garras do leão. Está subjacente a heráldica, mas sem o animal. E a coroa, o que denota a presença da dinastia. Diria que é um brasão híbrido.»

Grupo F

Turquia

«Temos o crescente e a estrela. São as armas desta república, formada no pós Primeira Guerra Mundial, ainda que fizessem parte também do Império Otomano. Têm origem medieval, mas não tão antiga quanto se pensa. Estes símbolos eram utilizados por cristãos, muçulmanos e judeus. No final da Idade Média, os usos foram especificados, sendo associado o crescente ao Islão. A simbologia parte do cósmico.»

Chéquia

«São as armas do antigo Reino da Boémia, com um leão diferente. Não é bicéfalo, mas bicaudado, com duas caudas. É uma especificidade do leão da Boémia, uma questão estilística. A Chéquia retoma essas armas, colocando-se como herdeira desse antigo reino.»

Geórgia

«Temos aqui o São Jorge, um culto que se funde na Idade Média e que abarca também Portugal. Aliás, é com o Mestre de Avis que o grito de guerra dos portugueses – Santiago – se transmuta em São Jorge, enquanto santo guerreiro.

Portanto, este santo está presente nas armas da Geórgia porque os relatos da sua vida apontam para que tenha habitado naquela região. O que gosto de ver neste brasão é, de novo, a capacidade de reinterpretar símbolos. A Geórgia sempre teve São Jorge a combater o dragão, mas optou por reinterpretar o brasão de forma artística.

O dragão é um símbolo etnográfico de São Jorge. Um cavaleiro com uma lança no ato de vencer o dragão. Assim, percebemos a quem a imagem se refere. Neste contexto, o dragão simboliza o mal.»

Faixa bónus: o dragão arturiano que «aterrou» na Invicta

Então, o que representa o dragão no futebol português?

«No FC Porto? Precisamos de recuar ao século XIV e à guerra pela independência. O Mestre de Avis, já eleito como Rei nas cortes de Coimbra, quis assumir um sinal próprio e forte. Então, elege o dragão. Não há propriamente uma explicação explícita para a escolha, mas creio se relacionar com as crónicas de Fernão Lopes, nas quais se estabelece a comparação do Mestre de Avis com o Rei Artur, de Inglaterra. Era a figura daquele que defende o reino perante uma ameaça externa.

As armas do Rei Artur contavam com o dragão.

Quando chegamos ao século XIX, após as guerras liberais – quando as forças miguelistas cercaram os liberais no Porto – foi instaurada a monarquia constitucional e liberal. Para premiar o triunfo, o regente D. Pedro decidiu acrescentar as armas municipais do Porto, dando o timbre da casa real, o dragão.

No século XX, quando se dá a grande reforma heráldica do Estado Novo, a partir de 1930, foi definido que as armas municipais não poderiam ter timbre. Por isso, no Porto, o dragão foi retirado. Quando tal aconteceu, as armas foram adotadas pelo FC Porto, uma vez disponíveis.

O dragão do clube é o da casa real, o dragão arturiano de D. João I, o Mestre de Avis.»

De regresso ao Euro 2024…

Portugal

«A FPF fez o mesmo que a República Portuguesa, em 1910 e 1911, entendendo que as quinas não eram armas da dinastia, mas sim da identidade do país e da continuidade política. Por isso, a federação recuperou o símbolo, mas com algumas alterações menores. A bordadura vermelha não tem os castelos de ouro.

Trata-se de uma simplificação, relacionada com a vertente visual, pelo que os castelos foram substituídos pelas iniciais “FPF”.

Acho interessante a necessidade de completar o emblema. Foi adicionada a cruz da Ordem de Cristo, sinal da entidade política desde o século XVI. Todavia, a Primeira República teve dificuldades em usar a cruz, uma vez que se tratava de um regime anti-igreja.

No Estado Novo, esta cruz volta a ser muito difundida, no intuito de transmitir que o Estado queria pacificar a relação com a igreja católica.

Se fosse convidado a fazer algum ajuste, enquanto heraldista, voltaria a colocar os castelos na bordadura, porque as armas nacionais estão incompletas. Em simultâneo, retiraria as letras da bordadura, porque não devem estar no escudo. Colocaria em baixo, ou em cima, até para dar melhor visibilidade.»

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