Arrefecimento extremo há 1,12 milhões de anos terminou com primeira ocupação humana da Europa

Agência Lusa , DCT
11 ago, 07:55
Arrefecimento extremo (Associated Press)

Analisados em conjunto, os dados e os resultados do modelo sugerem que a Península Ibérica e o sul da Europa em geral ficaram despovoados pelo menos uma vez no início do Pleistoceno.

Um arrefecimento extremo há 1,12 milhões de anos terminou com a primeira ocupação humana da Europa, defende um estudo, através de uma amostra recolhida na costa portuguesa, e que “desafia a ideia de uma ocupação precoce e permanente”.

Os registos de hominídeos mais antigos conhecidos na Europa são da Península Ibérica e sugerem que os humanos primitivos chegaram do sudoeste da Ásia há 1,4 milhão de anos.

O clima na época, no início do Pleistoceno, era caracterizado por períodos interglaciais quentes e húmidos e períodos glaciais suaves, destacaram, em comunicados separados, o Conselho Superior de Pesquisa Científica (CSIC) e a University College London (UCL).

Há muito que se supõe que, uma vez que os humanos chegaram, foram capazes de sobreviver no sul da Europa, através de múltiplos ciclos climáticos, adaptando-se às condições cada vez mais frias dos últimos 900.000 anos.

No entanto, este trabalho realizado por uma equipa de investigadores da UCL, do Institute for Environmental Diagnosis and Water Studies (IDAEA-CSIC) e do IBS Center for Climate Physics na Coreia do Sul confirmou o aparecimento de condições glaciais extremas, desconhecidas até agora, há cerca de 1,12 milhões de anos.

“Isso desafia a ideia de uma ocupação humana precoce e permanente da Europa”, sublinhou Chronis Tzedakis, professor da UCL, citado pela agência EFE.

Paleoclimatologistas da UCL, da Universidade de Cambridge e do IDAEA-CSIC reconstruíram as condições de um núcleo sedimentar marinho recolhido ao largo da costa de Portugal, que revelou a presença de alterações climáticas abruptas que culminaram num arrefecimento glacial extremo há 1,12 milhões de anos.

"Para nossa surpresa, descobrimos que o arrefecimento era comparável com os eventos mais extremos das recentes eras glaciais", sublinhou o professor Joan Grimalt, investigador do CSIC no IDAEA.

Este clima teria submetido os pequenos grupos de caçadores-recoletores a um stress considerável, “particularmente porque podem ter faltado aptidões aos primeiros humanos”, como isolamento suficiente, roupas, abrigo ou conhecimentos eficazes sobre como fazer fogo, detalhou a investigadora Vasiliki Margari, da UCL.

Para avaliar o impacto do clima nas primeiras populações humanas, investigadores do IBS Center for Climate Physics desenvolveram um modelo de adequação de 'habitat' que relaciona dados climáticos a evidências fósseis e arqueológicas da ocupação humana no sudoeste da Eurásia, recolhidas por investigadores do Museu de História Natural de Londres e o Museu Britânico.

"Os resultados mostraram que o clima em redor do Mediterrâneo afastou-se muito das condições preferidas pelos primeiros humanos durante o máximo frio glacial", frisou o professor do IBS, Axel Timmermann.

Analisados em conjunto, os dados e os resultados do modelo sugerem que a Península Ibérica e o sul da Europa em geral ficaram despovoados pelo menos uma vez no início do Pleistoceno.

A aparente ausência de ferramentas de pedra e restos humanos pelos próximos 200.000 anos levanta a intrigante possibilidade de um hiato de longo prazo na ocupação humana europeia.

Caso seja verdade, “a Europa pode ter sido recolonizada há cerca de 900.000 anos por hominídeos mais resistentes, com mudanças evolutivas ou comportamentais que permitem a sobrevivência na intensidade crescente das condições glaciais”, realçou Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres.

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