Documentos confidenciais mostram como os Emirados usam ex-militares americanos para fortalecer o seu exército

19 out, 22:00
Exército dos Emirados Árabes Unidos (Photo by KARIM SAHIB/AFP via Getty Images)

Permitiram aos Emirados Árabes criar uma das mais formidáveis forças militares do Médio Oriente, mas levantam sérias questões de lealdade. Estarão os antigos militares norte-americanos a criar um monstro na região?

Generais, comandantes, pilotos, consultores estratégicos, especialistas em artilharia, em drones, cibersegurança, e até um antigo Secretário de Estado da Defesa. Documentos confidenciais obtidos pelo jornal The Washington Post revelam que centenas de ex-militares norte-americanos, de altas patentes a oficiais altamente especializados, estão a prestar serviços para as forças armadas dos Emirados Árabes Unidos a troco de salários milionários. Mas há quem questione o papel que estes antigos militares estão a ter nas ações cada vez mais agressivas que este pequeno reino está a ter fora das suas fronteiras.

São mais de 280 reformados do exército norte-americano que, nos últimos sete anos, aceitaram propostas para partilhar os seus conhecimentos e especializações com as forças armadas dos Emirados. Em Washington, é mesmo descrito como um dos destinos mais apetecíveis para reformados do exército.

Este número cada vez maior de pessoal altamente qualificado – que na vasta maioria dos casos foi desempenhar funções com o conhecimento e autorização do Pentágono e departamento de Estado – ajudou os Emirados Árabes Unidos a criar um dos exércitos mais capazes a nível regional. Mas esse desenvolvimento está a ter um preço, com o país a desestabilizar a região com guerras no Iémen e na Líbia.

“Os Emirados reuniram imensa influência nos EUA e estão muito acima da sua classe, mas usaram isso para minar a política externa dos EUA em termos do nosso apoio ao estado de direito, democracia e contraterrorismo”, afirma Jodi Vittori, professora da Universidade de Georgetown - Escola de Serviço Estrangeiro e veterana da Força Aérea dos Estados Unidos.

Este caso surge apenas dias depois de se descobrir que a China, país que os EUA designam como rival estratégico, está a recrutar pilotos da força aérea britânica para treinar militares chineses a compreender as fraquezas das aeronaves ocidentais. Segundo a notícia, cerca de 30 pilotos britânicos chegam a ganhar mais de 280 mil euros por ano para treinar os pilotos chineses. No caso dos Emirados, esses valores são muito mais elevados.

Apesar de a lei federal americana não permitir que militares reformados possam aceitar empregos ou presentes de governos estrangeiros sem autorização do Pentágono e do Departamento de Estado, as autoridades americanas permitem esta prestação de serviços caso não afete “de forma adversa” as relações externas dos Estados Unidos. Porém, quem serviu menos de 20 anos no exército americano não necessita de pedir autorização.

Mas houve quem violasse a lei. É o caso de Stephen Toumajan, tenente-coronel da Força Aérea, que se tornou comandante de uma unidade especial da Força Aérea dos Emirados chamada Grupo 18. Posteriormente, acabou por ter funções no centro de Comando Conjunto da Aviação do país. Esta ação contradiz a lei que impede antigos membros do exército de prestar juramento de lealdade a outro país, podendo receber pesadas coimas em caso de violação.

Toumajan e o governo dos Emirados descrevem o seu título em sites oficiais como “Sua Excelência o Major General Piloto Stephen A. Toumajan PhD”. O antigo tenente-coronel também já apareceu em várias fotos vestindo um traje de voo adornado com uma bandeira dos Emirados. No entanto, em 2018, afirmou publicamente que estava a trabalhar como empreiteiro civil e “não jurou lealdade aos Emirados Árabes Unidos”.

“A pequena Esparta”

Mas a relação mais controversa com a pequena nação é a de Jim Mattis, antigo Secretário da Defesa norte-americano. O general reformado que comandou as tropas americanas no Médio Oriente antes de ser escolhido por Donald Trump para ocupar o cargo mais alto da Defesa nos Estados Unidos refere-se aos Emirados Árabes Unidos como “a pequena Esparta”, devido às capacidades militares da nação.

Em junho de 2015, dois anos depois de ter entrado para a reforma nos fuzileiros, Mattis pediu uma autorização para exercer o cargo de conselheiro militar nos Emirados. O pedido foi aprovado.  Os documentos obtidos pelo The Washington Post não detalhavam quanto dinheiro Mattis terá recebido pelo cargo, nem durante quanto tempo o exerceu.

Robert Tryer, vice-presidente do grupo Cohen, a consultora onde Mattis trabalha, descreveu as funções do general na reserva nos Emirados como de “natureza operacional, tática, informacional e ética”. A mesma fonte garante que Mattis não terá pedido qualquer remuneração, além da cobertura das despesas. “O general Mattis tem um grande respeito pelos Emirados Árabes Unidos, uma nação que apoiou os EUA em vários conflitos e operações de socorro”, justificou Tryer ao jornal americano.

Depois de chefiar o departamento da Defesa da administração Trump durante dois anos, Mattis voltou à vida civil e, em 2019, voltou a pedir autorização ao departamento para poder exercer funções para o governo dos Emirados. Desta vez, Mattis participou numa conferência, onde fez questão de referir que rejeitava “99% dos convites que recebe para falar”, mas que fazia uma exceção para o Sheik Mohamed, devido à sua relação de proximidade com os EUA.

“Tive de discutir constantemente com aqueles no governo que queriam que os direitos humanos fossem o único critério da nossa política externa”, escreveu Mattis, referindo-se ao seu mandato como general de quatro estrelas durante o governo Obama. “As monarquias árabes e os líderes de homens fortes não estavam a reformar-se ao ritmo que os nossos idealistas de direitos humanos insistiam. Mas as nações que nos apoiaram após o 11 de Setembro tiveram registos muito melhores do que os de regimes hostis e opressivos como Irão e Síria”, acrescentou.

Mas Mattis não é o único general a ocupar posições de consultoria no país. O major-general Charles F. Bolden Jr., que serviu como administrador da NASA durante o governo de Barack Obama, também tem uma ligação com os Emirados que data de, pelo menos, 2016, de acordo com o pedido que este entregou às autoridades para poder exercer funções para um governo estrangeiro. Apesar dos valores não terem sido revelados, Bolden devia ser pago para estar presente em duas reuniões de administração do programa espacial dos Emirados, pelo menos duas vezes por ano.

“Algumas pessoas diriam que eram valores generosos, outras diriam que nem perto disso”, disse. “[O dinheiro] não é a razão pela qual entrei”, reforçou. Bolden observou que os Emirados Árabes Unidos têm um programa espacial ativo e ambicioso e que o país lançou uma nave interplanetária não tripulada que começou a orbitar Marte em 2021.

Salários astronómicos e abusos de poder

Apesar do Pentágono não revelar quanto é que ganham os generais e almirantes que prestaram serviços neste país, alegando questões de privacidade, a julgar pelos valores auferidos por ex-militares de patentes mais baixas os salários são bem elevados.

Um antigo comandante membro da unidade de elite dos Seals recebeu um salário anual de 348 mil dólares, mais 54 mil dólares de despesas de deslocação e alojamento, pela função de instrutor de tiro. Um coronel norte-americano, com as funções de consultor do exército dos Emirados, recebe um salário de 324 mil dólares por ano. De acordo com a plataforma do Governo Federal norte-americano, é mais do dobro do que receberia nos Estados Unidos, onde esta patente oferece um salário que varia dos 87 mil aos 155 mil dólares. Além disso, a maioria continua a receber a sua pensão.

Quanto mais específica for a formação destes militares, maior é o salário. Um dos casos mais bem pagos é o do antigo comandante da Marinha Sean Connors, que auxiliou o país a construir a sua primeira central de energia nuclear, em 2019, a troco de um salário de 600 mil dólares por ano, na empresa Nawah Energy Company.

As capacidades adquiridas pelo exército dos Emirados levaram os líderes do país a tornarem-se mais agressivos na resolução dos problemas. Um exemplo é a intervenção do país no Iémen, onde surgem várias questões em relação ao respeito pelos direitos humanos dos soldados. Em 2015, o exército terá criado uma rede de prisões secretas, onde os cidadãos iemenitas foram torturados e, segundo um relato da Associated Press, vários prisioneiros foram queimados vivos nestes estabelecimentos.

Vários membros do executivo norte-americano questionam também o papel dos Emirados na morte do colaborador do The Washington Post, Jamal Khashoggi, assassinado pelos aliados da Arábia Saudita. Muitos acreditam que a pequena nação terá ajudado os sauditas a obter informação sobre o crítico do príncipe Mohammed bin Salman. Em julho de 2018, um dos advogados de Khashoggi foi detido nos Emirados, onde ficou encarcerado durante mais de um mês.

Não menos violenta foi a intervenção deste país na Líbia, onde os militares dos Emirados Árabes Unidos enviaram suas forças para ajudar Khalifa Hifter, um comandante rebelde que tenta tomar o controlo do país. Em 2020, o inspetor geral do Departamento de Defesa americano informou que o governo dos Emirados Árabes Unidos estava a ajudar a financiar o Grupo Wagner, o exército mercenário russo próximo ao Kremlin que foi acusado de atrocidades na Líbia e em outros lugares da África. O Grupo Wagner também enviou forças para lutar em nome da Rússia na Ucrânia e na Síria.

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