Gavião: na terra mais socialista do país, as laranjas caem ao chão

19 jan, 07:01
Gavião, o concelho mais socialista do país

Por aqui, há muito que não passa um primeiro-ministro. E o fado de Gavião não irá mudar nos próximos dias. A caravana de António Costa não tem na agenda uma ida ao concelho que deu ao PS o melhor resultado em 2019. É porque está ganho à partida? “Não, é porque somos poucos”

“Aquela nora ali é como o nosso país: se faltar uma peça não trabalha”. O olhar está numa das rotundas à entrada da vila, onde uma nora serve de ponto de referência. José Morais não quer falar de uma coisa que lhe corre no sangue, a política. É preciso ganhar-lhe a confiança até lá chegar, encontrar pontos em comum. Foi carteiro em Lisboa, fez milhares de quilómetros de moto com correspondência para entregar. “Quando chegou a hora da reforma percebi que não ia chegar”. E foi nesse momento que o Gavião, terra vizinha de onde tinha nascido, se transformou em casa. De uma pertença tão grande que, nas últimas autárquicas, entrou nas listas do Partido Comunista Português. Só que há um outro partido que, desde 1976, está à frente da autarquia: o PS.

No caminho até à Câmara, o frio de janeiro torna as ruas ainda mais desertas. O som dos passos na calçada só é cortado por uma flauta que uma criança treina no carro e pelas marteladas das obras. Fazem-se longos metros sem companhia humana. E, quando ela surge, vai rápida na sua jornada. Porque cá fora, por muito que se conheçam os passeios, não é sítio para se passar muito tempo. Ainda para mais num tempo em que um vírus tira a sensação de segurança a cada encontro.

Nora na rotunda é um dos pontos de referência no Gavião

“Faça chuva, faça tudo”, é no Largo do Município que se pode encontrar Carolina Estevinha, quando a luz do dia começa a despedir-se. Sentada num banco, debaixo de uma laranjeira. É a árvore que mais se vê neste reduto socialista, onde outras vontades laranjas – sociais-democratas, clarifique-se -  se foram tentando impor sem sucesso. Árvores tão carregadas, que muitos dos frutos acabam no chão.

Mas esse fruto não chega para os gatos silvestres que Carolina Estevinha alimenta diariamente. Sozinha, de máscara posta, com um saco de comida do lado esquerdo. Vir aqui todos os dias ajuda-a na depressão. Afeiçoou-se a um dos mais pequenos, “o branquinho”. E, se o primeiro-ministro António Costa lhe aparecesse à frente, seria para esta companhia que lhe faria um pedido: “se não forem esterilizados, nascem cada vez mais. Uma boa ideia era baixarem os preços das castrações e esterilizações”. Após 30 de janeiro, quem sabe, o PAN lhe aproveite a ideia como linha vermelha para negociar a governação.

Laranjeiras são a árvore mais comum nas ruas desta vila socialista

Café Central, o encontro ao balcão

Com o cair da noite, no Gavião acendem-se as lareiras. O cheiro, nas ruas, reconforta, num país onde ainda se morre de frio. Mas o calor humano, do encontro e da partilha, encontra-se no Café Central. Também esta terra tem um Café Central. Uma senhora de bengala solta um “vão para casa” a quem esta à porta. “O vírus está em todo o lado”, respondem-lhe de imediato.

Lá dentro aquece-se o corpo (e a alma) com pequenos copos de vinho. A imperial também serve. Desde que o álcool venha acompanhado com um pires de amendoim, serve. A televisão ligada na bola. É que por aqui, “evita-se falar de política”, mesmo no concelho mais socialista de Portugal – ou, pelo menos, aquele que deu a António Costa o melhor resultado em 2019: 53,52%.

No final da jornada, o copo de vinho aquece o início da noite

Margarida Ferreira, mais conhecida como Guida, esfrega as mãos uma na outra, enquanto espera que a torrada fique pronta para lhe matar a fome. Há cinco anos abriu este negócio, com o marido Luís, que deixou a vida nas obras. “Se o Costa cá viesse, pedia-lhe para aumentar os ordenados. Mas se calhar ele é como eu, não faz mais porque não pode”, confessa.

Luís Ferreira aproveita a sugestão, sempre a pensar nas contas ao final do mês. “Tive de subir os preços, porque as coisas ficaram mais caras. Já ouvi bocas que sobe tudo mas não os ordenados. Dizia-lhe para pagar uma bebida a todos”. E, talvez assim, se afogassem (nem que fosse por uns segundos) as tristezas. E se enchesse a caixa.

Alheio às coreografias de copos e garrafas ao balcão, José Chambel permanece na sua cápsula. Sentado, sozinho numa mesa. Já era socialista ainda o país não sabia o que era viver em liberdade. E a razão para o sucesso do socialismo no Gavião talvez seja mais simples do que os motivos que os especialistas podiam encontrar: “A nossa vila sempre foi de gente muito dada, muito socialista”. Hoje, aos 73 anos, já não pede nada para si. Quem vem a seguir, sabe, pode fazer a diferença: “queria boas condições de estudo para os miúdos”.

Televisor está ligado no futebol, que sempre conquista atenção

Ei-los que partem (deixando saudade)

Margarida Ferreira tem uma “certeza”: a filha com 19 anos, mais dia menos dia, há de deixar o Gavião. Já Lurdes Dinis sabe bem o que é viver longe de quem mais se ama. Trabalha como auxiliar na escola básica do Gavião. Vê futuros desenharem-se à sua frente a cada momento. No regresso a casa, vem com a mala na mão e com as filhas na voz. Uma é enfermeira, a outra educadora de infância. Saúde e educação, as bases para que a vida possa fluir. Nenhuma conseguiu arranjar emprego na terra natal.

“O que peço para aqui é o que peço para todo o interior”, começa. Para acabar numa palavra: “emprego”. Lurdes Dinis sabe que oportunidades são sinónimo de mais gente, de vida. A filha enfermeira sabe que já não volta. Para a outra, ainda há esperança, com a perspetiva de que as creches se tornem gratuitas (como o PS tem prometido) e sejam precisos mais braços por estes lados. Para trabalhar, para abraçar.

Há muito que, por estas ruas, se pede indústria, como se ela pudesse funcionar por si própria como um chamariz. Como se uma fábrica pudesse, de facto, fabricar as pessoas que fazem falta por aqui. “É verdade o que diz. Toda a gente lhe diria que queremos cá uma fábrica. Já eu preferia 10 empresas a empregar 10 pessoas cada”, resume o presidente da Câmara Municipal de Gavião, José Pio. E por um motivo simples: estabilidade. Por enquanto, a câmara e a Santa Casa continuam a ser os principais empregadores.

Ruas do Gavião estão praticamente vazias. Pandemia tornou o cenário mais evidente

Na vila há escola, centro de saúde, cineteatro com os filmes mais recentes, equipamentos desportivos e uma biblioteca que as andorinhas obrigam a pintar de novo a cada ano. Estão em marcha um museu de carros de atrelar com a assinatura de Carrilho da Graça, um ninho para empresas não tecnológicas ou uma piscina ao ar livre. Mas nem essa oferta de equipamentos tem conquistado os casais mais jovens. Nem isso nem lotes de 500 metros quadrados a cinco mil euros, que a autarquia promoveu, com apoios à construção. “Tem sido uma luta tremenda”, reconhece o autarca.

A escassez de transportes públicos torna a ida para estudar em Lisboa mais definitiva. De fim de semana em fim de semana, até ao corte derradeiro com a terra, aponta o presidente da câmara. Mas os últimos anos têm trazido uma realidade nova ao concelho: famílias portuguesas e estrangeiras que, à boleia do teletrabalho, aqui compram casa. O preço dos imóveis facilita a decisão, a calma completa-a. Mas nem sempre é algo permanente. Muitas vezes, as casas só se abrem aos sábados e domingos.

Mas serão um primeiro passo para a mudança, sobretudo se o Estado for criando condições para que tal aconteça. É nisso que acredita Ricardo Pinheiro, secretário de Estado do Planeamento e cabeça de lista do PS pelo distrito de Portalegre. “Um dos objetivos é ter uma região certificada para acolher pessoas que trabalham à distância”, diz, antes de pendurar no Gavião os primeiros cartazes desta campanha. Até então, por aqui, só se viam faixas da CDU. E bem mais tímidas do que esta propaganda socialista.

À mesa discute-se tudo (menos política)

O nome do restaurante faz lembrar um consultório de dentista. Nas paredes, um quadro do Benfica e outro do Sporting, para que a discórdia não se instale. E duas cabeças de javali embalsamadas. Aproximam-se as nove da noite. A família dona do espaço tem já a mesa posta para a própria refeição. Clientes poucos, muito poucos. Para um café rápido, pouco mais. Em escassos minutos, dois deles ainda tentam a sorte. Por um euro, sai uma bola com uma cor. Cada cor corresponde a um chocolate. Só que, para ambos, não foi desta que saiu a maior caixa de bombons.

Hoje à noite, há um rosto diferente na sala. Um jornalista de Lisboa, para perceber se à hora da refeição se fala de política no Gavião. Não lhes diz ao que vem, para que as suas palavras não condicionem o momento. Pede a comida e fica a observar. A televisão, curiosamente, já estava sintonizada no canal onde passaria o debate com os sete líderes partidários com presença no Parlamento.

O ecrã faz companhia, só. À hora marcada, o debate começa. “Agora é só deputados. Na televisão agora é só mentirosos”, diz o cliente ao balcão. Ninguém alimenta o assunto. Porque o alimento que importa está na mesa. E hoje, sem um motivo especial, há bolo de chocolate no final. Fala-se dos infetados da terra, do padre e da ementa na escola. Fala-se de tudo. Menos daquilo que está à frente dos olhos.

Noite era de debate político mas à mesa deste restaurante discutiram-se outros temas

A calma que se curva devagar

A cada curva apertada, Teresa Mota pressiona a buzina do automóvel. Do outro lado, não vem ninguém. As duas mãos voltam a ficar seguras ao volante. A estrada leva ao Alamal, a praia fluvial onde o Gavião desce para se banhar no Tejo. No verão, o cenário seria diferente. “Não tínhamos lugar para estacionar sequer”, conta.

Teresa Mota nasceu aqui. O trabalho no Exército levou-a a Lisboa. Mas ela foi fazendo questão de ir encurtando a distância. Primeiro no Entroncamento, por fim em Abrantes. A vida do marido, ligada ao campo, não deixava margem para outro caminho. O caminho era este Alentejo diferente, encaixado entre o Ribatejo e a Beira Baixa.

Agora reformada, é dona de uma loja de produtos agrícolas e ajuda a filha – a viver em Lisboa - no alojamento local que abriram no centro da vila. Uma casa recuperada, sempre a pensar no patriarca da família. Na viuvez, Teresa Mota tem conhecido outras histórias diferentes da dela, de turistas, que dão um pouco mais de vida à terra, que lhe rasgam momentaneamente a calma que tanto a caracteriza. “Houve um casal alemão, de pilotos, que cá veio ter de mota”, recorda.

O turismo, acredita, é um dos caminhos para o Gavião – o presidente da câmara concorda e a escola até tem cursos a pensar nesse futuro. Porque Teresa Mota sabe que, como ela, há quem não abdique dos passeios. Há quem viaje pelo simples conforto de regressar a casa. E também neste caso será assim: “sabia que o meu fim havia de ser aqui no Gavião”.

Alamal é atração para os turistas no verão

O sumo do dia a dia

No quiosque de Anabela Tavares, as notícias chegam frescas a cada dia. Mas há uma que os jornais pareciam não dar: apesar deste ser o concelho mais socialista de Portugal, não é desta que António Costa e a sua comitiva de campanha por cá passam – pelo menos, a fazer fé na agenda oficial, que apenas deixa fora do périplo destes 15 dias o distrito de Portalegre.

Se isso acontecesse, os socialistas até podiam deixar os panfletos com as ideias, como tem acontecido noutras disputas, diz. Mas era logo a abalar, porque o espaço é pequeno e não permite grandes ajuntamentos. Depois de um recado ao primeiro-ministro, claro: “tive quedas no negócio mas os impostos continuam iguais”.

Há muito que um primeiro-ministro não é visto por estas bandas. Há quem recorde, ainda que vagamente, o último: António Guterres. “Estou cá há oito anos e não veio cá nenhum. E não foi por falta de convite”, confirma o autarca José Pio. Em 2019, não foi só o Gavião a dar o melhor resultado ao PS. A nível distrital, também foi em Portalegre que António Costa se saiu melhor, com 44,6%.

Então, porque não vem aí a caravana? É porque está ganho à partida? “Não, é porque somos poucos”, reconhece o autarca. De Portalegre só saem dois deputados para a Assembleia da República. E o Gavião, que não chega aos 3.300 munícipes, ainda menos pesa nessas contas.

“O primeiro-ministro não passou por cá, mas teve a coragem de assumir uma série de investimentos para a região do Alto Alentejo. Se calhar, passou por cá, de outra maneira”, justifica-se o cabeça de lista Ricardo Pinheiro.

Se não o fizer nos próximos dias, como se espera, António Costa perderá as laranjeiras do Gavião cheias de fruto. Não verá as laranjas no chão, muitas vezes encaradas como um desafio à oposição. Mas não são, garante José Pio: “O presidente da câmara já mandou fazer a colheita, para entregar a instituições do concelho”. É que as laranjas são azedas. Mas depois de espremidas, até dão sumo.

Esta é uma das vistas que o Gavião tem para oferecer, a partir da freguesia de Belver

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