O dono da imobiliária que partilhou o ataque com Ronaldo

3 mar, 09:43
Diogo Andrade

Diogo Andrade e CR7 destacaram-se na seleção, entre os sub-15 e os sub-17; duas décadas depois, o lisboeta negoceia imóveis de luxo no Brasil

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

A 24 de fevereiro de 2001, Cristiano Ronaldo fez a estreia por uma seleção nacional de futebol, marcando o segundo golo dos sub-15 frente à África do Sul (2-1), em Torres Novas. O outro extremo, Diogo Andrade, tinha inaugurado o marcador para Portugal, ao 20.º minuto de jogo.

Diogo Andrade e Cristiano Ronaldo estrearam-se no mesmo dia, marcaram pela primeira vez no mesmo dia, jogavam na mesma posição e partilharam o percurso até ao Campeonato da Europa de sub-17, em 2002.

Os caminhos deixam de cruzar-se a partir de 2004. CR7 despontou no Sporting e garantiu uma transferência milionária para o Manchester United. Nesse verão, Diogo foi dispensado com enorme surpresa pelo Belenenses e apresentou-se para treinar à experiência no Bournemouth, equipa do terceiro escalão de Inglaterra.

Enquanto o madeirense fez uma carreira ao mais alto nível, o lisboeta percebeu desde cedo que a oportunidade estava a escapar entre os dedos e optou por experiências distintas.

Diogo Andrade jogou em Inglaterra (Bournemouth e Dorchester), França (Laval), Portugal (Portimonense e Varzim), Roménia (UTA Arad e Farul), Bulgária (Vihren) e Suécia (Assyriska) até pendurar as chuteiras, de forma precoce, aos 27 anos.

Desde então, oriundo de uma família com posses, o antigo avançado tornou-se proprietário de uma leiloeira em Lisboa, de uma cadeia de restaurantes na capital portuguesa e de um espaço de turismo rural em Magoito (Sintra).

O Maisfutebol encontra Diogo Andrade na luxuosa ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, no Brasil.

O ex-jogador português cruzou o Oceano Atlântico em dezembro de 2019, deixou-se encantar pela região e abriu uma agência imobiliária em Jurerê Internacional: a DDA Imóveis.

«Comecei por ter uma leiloeira em Lisboa com um amigo meu, mas entretanto fechei isso. Tive uma cadeia de restaurantes, The Smokery, que ainda tem um restaurante, do qual sou sócio. Sou igualmente sócio de outro restaurante em Lisboa, Pátio 14, e tenho um turismo rural em Magoito», começa por explicar.

O que leva um lisboeta a trocar a capital de Portugal pela capital do estado de Santa Catarina, no Brasil?

«Pontualmente, como tenho muitos contactos no mundo do futebol, participo em alguns negócios de empresários. Então, em dezembro de 2019, vim acompanhar o Augusto Inácio, que assinou pelo Avaí. Curiosamente, foi a primeira vez que vim ao Brasil», recorda.

Augusto Inácio ficou apenas dois meses no clube brasileiro. Diogo Andrade, por outro lado, optou por permanecer na região: «Esta zona é lindíssima, fabulosa. Como havia pandemia em Portugal e adorei estar aqui, decidi ficar, instalei-me em Jurerê e comecei a trabalhar no ramo do imobiliário. Tornei-me sócio investidor de uma empresa em São Paulo, aquilo correu muito bem, mas tinha de andar sempre em viagens para São Paulo e acabei por abrir uma imobiliária aqui.»


 

«O mercado imobiliário no Brasil é enorme. A empresa em São Paulo, por exemplo, tinha 3 mil imóveis e vendíamos uma casa por semana, algo impensável em Portugal. Mas a cidade era muito barulhenta (risos). Agora trabalho só em Florianópolis, que tem dos metros quadrados mais valiosos do Brasil, tanto aqui na ilha como em zonas como Balneário Camboriú», frisa Diogo Andrade.

A constante desvalorização do real não tem impacto no mercado do imobiliário de luxo no Brasil. «Sinceramente, aqui quem tem dinheiro, tem muito dinheiro. É uma questão de nicho, porque negociamos imóveis de qualidade elevada. Como o real está muito baixo, também é uma ótima oportunidade para investidores da Europa», acrescenta.

O antigo jogador português adaptou-se ao estilo de vida em Jurerê Internacional, com tempo para o surf e outras atividades ao ar livre, elogiando uma das regiões mais seguras do Brasil.

«Para já não penso voltar. Adoro esta zona e há muitos jogadores e ex-jogadores brasileiros a optar por residências nesta zona. O Siqueira ex-Benfica é daqui, o Jardel ex-Benfica é daqui, o Jorginho do Chelsea também é da zona e tem propriedades por cá. É uma zona do Brasil com enorme beleza e muita segurança, por isso torna-se atrativa», remata Diogo Andrade.


 

«Eu era muito possante, o Ronaldo ainda era franzino»

21 anos após aquele histórico 24 de fevereiro de 2001, Diogo Andrade está no Brasil e Cristiano Ronaldo regressou a Inglaterra, representando novamente o Manchester United. O Portugal-África do Sul em seleções sub-15 foi o ponto de partida para os dois avançados, que apresentavam fisionomias completamente distintas.

«Eu destacava-me no Belenenses e era dos poucos nessa seleção que não jogava nos grandes. Eu já nessa altura era muito possante, enquanto o Cristiano Ronaldo ainda era franzino. Ele tinha uma qualidade técnica enorme, mas só mais tarde começou a desenvolver essa parte física», recorda Diogo Andrade.

Carlos Dinis apresentou uma linha ofensiva com três unidades: o 15 (Diogo Andrade do Belenenses), o 16 (Ricardo Costa do FC Porto) e o 17 (Cristiano Ronaldo do Sporting): «Eu marquei o primeiro golo de Portugal, o Ronaldo marcou o segundo e depois a África do Sul fez o 2-1.»

 

«A base daquela seleção foi sendo trabalhada até ao Campeonato da Europa de sub-17, em 2002, e eu fui sempre jogando a par do Ronaldo. Eu era extremo como ele, portanto às vezes jogávamos os dois em 4x3x3, outras jogava um de nós, ou jogava um de nós pelo meio», diz.

Cristiano Ronaldo já era um jovem com capacidade de trabalho acima da média, indo para o ginásio depois dos treinos da seleção, mas não perdia a oportunidade de uma boa brincadeira: «Lembro-me de um dia em que estávamos num hotel em Cascais com a seleção e o Ronaldo decidiu pegar num carrinho de golfe. Correu mal.»

«Ele ia a conduzir o carrinho, eu fui ao lado dele e acabámos por embater numa árvore. Partimos o carrinho todo», atira Diogo Andrade, entre gargalhadas.

Após o Campeonato da Europa de sub-17, Cristiano Ronaldo começou a queimar etapas (um ano depois já estava na seleção A), enquanto o avançado do Belenenses trilhou um caminho menos entusiasmante: «Mesmo assim, aos 16 anos ainda fiz duas semanas de treino com a seleção A, antes do Ronaldo, com o Scolari. Treinei com o Figo, o Pauleta, o Deco, etc.»

«Eu era o único internacional do Belenenses e tive sempre propostas dos maiores clubes portugueses e de clubes internacionais, mas o Belenenses não me deixava sair. Diziam que eu era a grande aposta, porque jogava sempre num escalão acima, marcava em quase todos os jogos, etc. Só que de repente tudo mudou», desabafa.

Na transição para o futebol sénior, Diogo Andrade recebeu uma notícia totalmente inesperada: «Acabei a época dos juniores, fui de férias e disseram-me que a época dos seniores começava a 4 de julho. Entretanto, dias antes recebo uma carta a dizer que tinha sido dispensado. Assim, do nada, aos 18 anos, fiquei no vazio. Já era julho, as equipas estavam formadas e comecei a enviar currículos para todo o lado.»

O avançado reconhece que parte da responsabilidade é sua: «Até hoje não sei o que aconteceu, o que levou a essa decisão do Belenenses, mas tenho a consciência que alguma culpa foi minha, como é óbvio. Eu tinha qualidade e gostava de jogar, mas treinar era mais complicado. Como sabia que tinha talento, facilitava.»

«Aos 18 anos, fui treinar à experiência ao Bournemouth e assinei logo contrato. Só que queriam que eu morasse com uma família, enquanto eu dizia que já era adulto e que por isso ia morar sozinho. Claro que tendo 18 anos e estando sozinho em Inglaterra…», reconhece Diogo, acrescentando: «Assinei contrato a ganhar dez vezes mais que os jovens que ficaram no Belenenses, como o Ruben Amorim, o Rolando ou o Gonçalo Brandão.»

Diogo Andrade acumulou desempenhos interessantes no Dorchester, filial do Bournemouth: «Por causa disso, tive a oportunidade de jogar pelo Bournemouth pelo estádio do Blackburn Rovers, para a Taça da Liga. Vencemos nos penáltis e foi uma experiência inesquecível.»

«No fim da época, estive à experiência em clubes ingleses como o Plymouth, mas a oportunidade caiu por terra e fui para o Laval, de França. Tive bastantes dificuldades porque não era fluente em francês, aquilo era uma cidade pequena e estive praticamente três meses sem falar com ninguém. Tinha 19 anos e foi uma má experiência», admite.

O avançado regressou a Portugal, fez meia época pelo Portimonense na II Liga e voltou a emigrar, passando por Roménia (UTA Arad e Farul), Bulgária (Vihren) Suécia (Assyriska): «Sinceramente, aos 18 anos percebi que não ia chegar ao topo, portanto decidi experimentar. Nunca tive medo de ir jogar para fora, queria experiências novas. Se fosse um bom contrato e permitisse conhecer o mundo, ótimo.»

«Como disse antes, eu gostava de jogar, mas não de treinar. Ainda assim, como tinha qualidade, como era forte e muito possante, ainda consegui fazer uma carreira boa. Só tive problemas físicos nos últimos anos, com várias lesões», explica o antigo jogador.

Diogo Andrade decidiu terminar a carreira aos 27 anos, depois de uma derradeira etapa no Varzim, equipa que disputava o terceiro escalão.

«Fomos campeões da II Divisão, o meu único titulo, e tínhamos um grupo muito bom. Chegámos a ter salários em atraso, não treinámos em protesto com a situação mas mesmo assim vencemos e garantimos a subida. Isso ainda me deu motivação para continuar, mas o clube tinha problemas financeiros e acabou por não subir por causa disso. Foi quando decidi que já chegava daquela vida», remata o avançado.

Relacionados

Patrocinados