De capitão de juniores do FC Porto a empresário aos 21 anos

2 fev, 09:20
Vítor Andrade

Vítor Andrade foi campeão de sub-17, totalista na Youth League e negou título ao Benfica no Olival, mas não evitou a dispensa e focou-se no negócio familiar de Cash and Carry

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Em 2012, Vítor Andrade sagrou-se campeão nacional de juvenis pelo FC Porto ao lado de nomes como Rafa Soares (V. Guimarães), Francisco Ramos (Nacional), Nuno Santos (Sporting), Ivo Rodrigues (Famalicão) ou André Silva (RB Leipzig).

No escalão júnior, novamente sob o comando técnico de Nuno Capucho, os dragões ficaram a um ponto do Benfica na primeira temporada e em quarto lugar no segundo ano, para além de terem disputado a edição inaugural da UEFA Youth League.

Vítor Andrade não esquece o sabor agridoce dessa época 2013/14. O médio defensivo estava no FC Porto desde 2004 e cumpria uma década de ligação ao clube. Como capitão de equipa, fez mais de 40 jogos, foi totalista na Youth League e marcou cinco golos, um deles com um impacto decisivo no campeonato. Curiosamente, foi o seu último jogo e último golo com a camisola azul e branca.

«O Sp. Braga estava igualado com o Benfica na frente e foi empatar a Leiria. No Olival, o jogo também estava empatado (ndr. golos de Andre Silva e Romário Baldé) e dessa forma o Benfica seria campeão. Na segunda parte, consegui marcar o golo da vitória de livre direto e dessa forma dei o título ao Braga. Já era mau termos ficarmos em quarto, ver o Benfica a festejar o título no Olival seria ainda pior. Como portistas, preferimos dar o título ao Sp. Braga, claro.»

A 10 de maio de 2014, Vítor Andrade era um adolescente feliz. Porém, poucas semanas depois, foi confrontado com uma dispensa totalmente inesperada do FC Porto. O seu caminho para a afirmação plena foi bloqueado quando menos esperava.

«Até hoje não sei o que se passou. Fiz sempre o meu trabalho, senão não jogava tanto. Não era aquele jogador tipo Cristiano Ronaldo em termos de trabalho, mas sempre me sacrifiquei, nunca fui um adolescente de sair na sexta-feira à noite quando tinha jogo ao domingo. Durante a época, comunicaram-me sempre que eu ia subir à equipa B e ali pelo final de maio, junho, disseram que afinal não. E eu com uma década de FC Porto, sem contactos, sem empresário, fique ali sem chão. Foi complicado arranjar clube», salienta o antigo jogador.

Vítor Andrade não desistiu nessa altura. Fez uma grande temporada no Sousense e outra no Salgueiros, no Campeonato Nacional de Seniores. Foi nesse momento, com 21 anos, que fez um balanço e tomou uma decisão pouco comum: deixar o futebol para segundo plano e apostar definitivamente em outra área.

«Os meus pais têm empresas importadoras no setor do Cash and Carry (Oriente 2000 e Paula Andrade Importações Lda.) e eu sempre passei lá o meu tempo, desde miúdo. Mesmo nos juniores do FC Porto, treinava de manhã e ia para lá ajudar à tarde. Até aos 21 anos, ainda tentei chegar aos escalões profissionais, pelo menos à II Liga, e dei tudo na época do Salgueiros para isso acontecer. Não fomos à fase de subida por pouco, fiz uma grande temporada, mas só me apareceram mais convites do CNS.»

O médio, com passado na formação do FC Porto e nas seleções jovens, destacava-se claramente no terceiro escalão mas não estava disposto a continuar à espera para dar um salto na carreira: «Tive convites da U. Leiria, do Felgueiras, de muitas equipas do CNS com condições boas, mas teria que me afastar das empresas e recusei. Decidi que só iria para uma equipa que treinasse à noite e perto daqui, para me poder concentrar nas empresas. Foi aí que o sonho acabou para mim.»

Vítor Andrade aceitou um convite do Pedras Rubras e ainda fez mais três épocas no Campeonato Nacional de Seniores, divididas entre o clube maiato e o Sousense, até pendurar definitivamente as chuteiras, aos 24 anos, em 2019: «Já não era o Vítor cem por cento focado no futebol, estava cada vez mais virado para o trabalho, chegava em cima da hora aos treinos e não fazia sentido continuar assim.»

«Nós sempre quisemos prolongar o legado dos nossos pais e é isso que estamos a fazer. O meu irmão está na empresa do Porto, a Oriente 2000, e eu na de Vila do Conde, a Paula Andrade Lda. Temos dois armazéns de revenda, apenas para comerciantes, e temos clientes variados, sejam as chamadas lojas dos ‘trezentos’, mercearias, quintas, hotéis, etc». Quase três anos após o último jogo da carreira, o antigo jogador não se mostra arrependido da sua decisão.


«Adoro o que faço, é claro que o futebol faz-me falta, que adoro ver futebol e vou ao estádio sempre que posso, mas virei a página e não estou nada arrependido. Só penso em fazer as empresas crescer», remata, com confiança.
 

Uma década no FC Porto, cinco anos no CNS

Recuemos no tempo. Foi no Salgueiros que Vítor Andrade perdeu as esperanças de um salto para o futebol profissional e foi igualmente no histórico clube portuense que tudo começou, em 2003.

«Comecei no Salgueiros com 8 anos, joguei lá uma época. Após um jogo que fizemos no campo do Infesta, o mister João Brandão veio falar comigo para ir para o FC Porto. Eu não queria, porque queria ficar ao pé dos meus amigos, mas eles insistiram, foram falar com o meu pai à empresa e lá nos convenceram. Fui para o FC Porto com 9 anos», recorda o antigo jogador.

Ao longo de uma década, entre 2004 e 2014, o médio percorreu todos os escalões de formação do clube portista: «Vivi ali momentos inesquecíveis, como ter sido campeão nacional de sub-17 com o mister Capucho, participar na Youth League e ouvir o hino da Champions, participar num torneio da Nike, enfim, vários episódios inesquecíveis. Também fui à seleção nacional (12 internacionalizações entre os sub-16 e os sub-17), algo que me orgulha imenso e isso também fica na mesma história».

Tudo mudou na transição para o futebol sénior. Capitão de equipa, jogador mais utilizado, totalista na Youth League…e dispensado.

«Sempre achei que ia subir à equipa B. Não sei, se calhar acharam que eu não tinha qualidade. Durante a época, comunicaram-me sempre que eu ia subir, comunicaram-me que afinal não. Fui dos poucos que não subi e até fui o jogador que fiz mais jogos», desabafa.

Vítor Andrade garante que superou essa tristeza, embora pense no que podia ter acontecido se continuasse no FC Porto: «Fui dispensado e entretanto chegou o Julen Lopetegui, que precisou de um médio defensivo na equipa A, porque o Fernando foi vendido. O Tomás Podstawski estava no Euro sub-19, eu tinha sido dispensado e acabou por subir o Rúben Neves, que tinha jogado nos sub-17. Não sei se tudo seria diferente se tivesse continuado, mas pronto. Não guardo rancor a ninguém.»

O jovem médio sentiu dificuldades em ultrapassar o obstáculo, mas respeita a decisão dos responsáveis portistas.

«Em dez anos fiz 95 ou 96 por cento dos jogos. Até aos 21 anos, não há um treinador que possa apontar algo de mim em termos de qualidade e entrega, mas as pessoas têm de tomar decisões e quem tomou essa decisão deve ter achado que eu não tinha qualidade. Não sei. Eu segui em frente, não podemos ficar a chorar num canto.»

Sem empresário e sem experiência longe do FC Porto, Vítor Andrade olhou em redor, para o vazio: «Acabei por ir treinar à experiência ao Sousense. Passei de treinar como um profissional no Olival, com dois ou três campos para nós, de fazer treinos com a equipa B, às vezes com a equipa A, para treinar à experiência no Sousense, em metade do campo, à noite».

«No primeiro treino no Sousense, o mister Filipe Cândido, o treinador que mais me marcou na carreira, disse logo que eu ficava. Éramos a equipa com menor orçamento no Campeonato Nacional de Seniores mas ficámos em quarto lugar na zona de subida. Não foi nada fácil a adaptação mas gostei  da experiência e correu-me bem», frisa.

Com 20 anos, Vítor Andrade sentiu que ainda chegar aos maiores palcos. Aceitou uma proposta do Salgueiros e regressou ao ponto de partida para mais uma temporada a excelente nível no terceiro escalão.

«É um clube histórico e tinha um projeto de subida à II Liga. Infelizmente, não fomos à fase de subida por pouco, após uma bela época com o mister Paulo Gomes. Foi nesse momento que fiquei à espera de convites para os escalões superiores e não surgiram. Assim sendo, dei prioridade às empresas», explica.

«As empresas sempre fizeram parte da minha vida»

Nas três épocas seguintes, ao serviço de Pedras Rubras e Sousense, o médio defensivo já era sobretudo um empresário que ainda jogava futebol. Até que chegou a hora da despedida completa: «Eu ia a rasgar para chegar a horas aos treinos, ia a um cliente, o treino era às 20h00 e eu chegava às 19h55. Sou o rei das multas! Na última época no Pedras Rubras, senti que já não estava ali totalmente focado e não fazia sentido continuar assim.»

«No futebol, um jogador depende de lesões que possam aparecer, depende de outras pessoas, das oportunidades. Aqui, dependo mais de mim e dos frutos do meu trabalho. Isso também faz a diferença. Fui jogador durante 17 anos, joguei a bom nível durante 14 ou 15 e claro que tenho saudades, mas agora a minha vida é outra.»
 

 

 

Aos 26 anos, Vítor Andrade passa os dias longe dos relvados de futebol, desempenhando as funções de diretor da Paula Andrade Importações, em Vila do Conde. «As empresas sempre fizeram parte da minha vida, mesmo quando jogava. Agora é esse o meu dia a dia. Importamos produtos da China, de toda a Ásia, da Turquia, etc, e revendemos para comerciantes.»

«Felizmente, as empresas têm crescido e se antes tínhamos 12 empregados, agora temos 44. Isso também traz mais responsabilidades. Claro que sentimos os efeitos da covid, não tanto a nível das vendas, porque mantiveram-se, mas no preço dos contentores vindos da China, que triplicou. Ainda assim, o negócio vai bem e sinto-me realizado.»

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