Josivan: do FC Porto à pintura de automóveis em Mangualde

6 jan, 09:40
Josivan
Josivan

Ex-jogador brasileiro está radicado na Beira Alta, onde trabalha, treina jovens e observa talentos

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«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

Josivan trocou o Brasil por Portugal em 1999 e deixou Fortaleza para abraçar o sonho de conquistar um espaço no plantel principal do FC Porto. Entre duas temporadas de bom nível na equipa B dos dragões, o avançado brasileiro chegou a fazer uma pré-época às ordens de Fernando Santos, em 2000, mas não conseguiu equiparar-se à forte concorrência.

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23 anos depois de ter chegado ao nosso país, Josivan constituiu família, radicou-se em Mangualde e não equaciona um regresso a Fortaleza, capital do Estado do Ceará onde a criminalidade atinge níveis preocupantes.

Josivan pendurou as chuteiras em 2017, após uma carreira maioritariamente nos escalões inferiores do futebol luso e sete temporadas consecutivas ao serviço da ADRC Aguiar da Beira, no Distrito da Guarda. Entretanto, mudou-se para o Distrito de Viseu - ainda na Beira Alta - e começou a trabalhar na Centro de Produção PSA (Peugeot-Citroen) em Mangualde, que pertence atualmente à Stellantis (como resultado da fusão com a Fiat Chrysler).

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«Tinha conhecidos nesta zona porque tinha jogado no Tondela, na III Divisão. Mudei-me para Mangualde e surgiu a oportunidade de trabalhar na PSA, na parte da pintura. Já trabalho aqui há mais de três anos e gosto do que faço», começa por dizer, ao Maisfutebol.

O antigo jogador adaptou-se a um horário noturno – trabalha das 23h00 às 7h00 – e a um estilo de vida completamente diferente: «Claro que foi um bocado complicado, mas fiz a formação na empresa e tive de me agarrar à minha força de vontade. É verdade que estive dois anos no FC Porto, mas de resto não tive uma carreira que me permitisse pensar em não trabalhar.»

«Neste centro de produção trabalham cerca de 700 pessoas mas apenas 15 por turno na parte da pintura. No meu posto, só tenho de observar os defeitos na pintura à medida que os carros passam. Se tiver algum risco ou isso, tento corrigir logo ou marco e os meus colegas no fim da linha corrigem depois. A empresa chegou a estar em lay-off, fiquei dois meses em casa, mas fui renovando contrato e gostam em mim. Em três anos e meio aqui, nunca faltei, penso que isso é importante», explica.

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Para além da atividade principal, a que garante a estabilidade financeira da família, Josivan observa jogadores nos escalões inferiores e treina a equipa de sub-13 do Grupo Desportivo de Mangualde.

«É um ritmo exigente e no início tinha de tomar uns energéticos para aguentar a noite. Agora, trabalho até às 7h00, durmo das 8h00 às 15h e ao final da tarde dou treino aos jovens do Mangualde, antes de jantar e ir trabalhar de novo. O que ganho a treinar é simbólico, mas vale pela experiência», frisa.

Ao fim de semana, o brasileiro de 42 anos concentra-se no futebol: «Ao sábado jogam os sub-13 e ao domingo tenho tempo livre para observação de jogadores para um empresário. Observo jogadores com potencial nas divisões inferiores, que possam ainda não ter representante oficial. Aí vou ganhando mais algum. Se der, se for em Aveiro por exemplo, levo a minha família, eles ficam a passear, eu vou ao jogo e depois junto-me a eles», completa.

Fortaleza, a cidade que deixou para trás em 1999, tornou-se conhecida por cá em 2001, quando o português Luís Miguel Militão assassinou seis empresários lusos, num crime com contornos grotescos. A «Chacina dos Portugueses» já foi há mais de vinte anos, mas a realidade na capital do estado do Ceará continua a ser preocupante.

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«Os meus filhos já nasceram em Portugal. A minha filha nasceu na Póvoa de Varzim, os dois filhos nasceram em Aguiar da Beira. Há dois anos e meio, fomos todos passar férias a Fortaleza e a minha filha ficou em pânico. Tivemos de trancar todas as portas por causa da falta de segurança. É pena, mas o cenário em Fortaleza é muito perigoso e penso ficar por aqui, porque a segurança e a qualidade de vida são muito importantes», salienta Josivan.

A casa que possui em Fortaleza deve ser vendida a breve prazo: «Construí essa casa quando estava no FC Porto mas estou a pensar vendê-la para comprar aqui em Portugal. Para já, moro num apartamento alugado. Tenho é de esperar por uma altura melhor, porque neste momento o real está muito desvalorizado e o euro está muito alto.»

Josivan está a concluir o processo de naturalização, interrompido por uma temporada no futebol do Vietname, e vai acompanhando o crescimento dos três filhos em Portugal. Os rapazes apresentam argumentos para seguir as pisadas do pai.

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«A minha filha está na faculdade, depois tenho um filho de 10 anos que está no Académico de Viseu e que marca muitos golos e um filho de sete anos que está no Mangualde, nos sub-10. Também joga na frente mas mais na linha. Já foram os dois observados pelos grandes. Para além disso, vou treinando aqui os sub-13 do Mangualde, depois de ter sido adjunto dos sub-18, e estou a tirar o curso de treinador. Não quer dizer que vou ser um José Mourinho, mas nunca se sabe», atira.

Os miúdos que são treinados por Josivan em Mangualde mostram-se surpreendidos quando percebem que estão perante um antigo jogador do FC Porto: «Acho piada quando me perguntam: ‘mister, você jogou no FC Porto?’ Eu mostro as fotografias de 2000, com o Fernando Santos, e eles ficam maravilhados. Aqueles dois anos no FC Porto foram sem dúvida os mais especiais da carreira.»

Recuemos no tempo. Em 1999, então com 19 anos, um desconhecido Josivan Fonseca atravessou o Atlântico para dar continuidade a uma carreira iniciada ao serviço do Ferroviário. Chegando a um FC Porto que tinha acabado de sagrar-se pentacampeão nacional, o diminuto avançado começou por fazer uma bela temporada na equipa B, com seis golos em 17 jogos.

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Na pré-temporada de 2000, Fernando Santos chamou Josivan para a pré-temporada dos dragões. Porém, o sonho não durou mais que um par de semanas. «Fui fazer a pré-época na Bélgica, fiz dois jogos amigáveis e fiquei com pena de não ter dado o meu contributo, mas tento perceber. O FC Porto tinha perdido o título e não podia ficar dois anos sem ser campeão, então quiseram apostar em jogadores mais experientes.»

«Para a minha posição, ali nos flancos ou nas costas do ponta-de-lança, eles tinham o Capucho, o Drulovic, o Deco, o Alenichev, depois na frente havia o Domingos Paciência e ainda contrataram o Pena. Então, voltei à equipa B e acabei por ser emprestado em dezembro ao Desportivo das Aves, que estava na I Divisão, a par do Luís Cláudio. Porém, quem me indicou para o Aves foi o professor Neca e, quando cheguei ao clube, ele saiu para entrar o Carlos Carvalhal. Resultado: fui pouco utilizado (apenas três jogos) e pedi para regressar ao FC Porto B», recorda.

Josivan admite que essa foi uma das más opções que fez ao longo da carreira. A pior, porém, estava ao virar da esquina: «Quis sair do Aves, que estava na Liga, porque eu jogava pouco, era jovem e morava em frente ao antigo Estádio das Antas, onde treinava a equipa B. Era jovem, achei que se era para não jogar mais valia estar perto de casa, mas foi um erro próprio da imaturidade.»

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«Entretanto, terminou a época 2000/01, o FC Porto não foi novamente campeão, saiu o Fernando Santos e entrou o Otávio Machado, que dispensou muitos jogadores. Lembro-me do Panduru, do Féher e do Peixe a treinar à parte, por exemplo. Ia acontecer o mesmo comigo, eu tinha mais três anos de contrato com o clube mas o meu empresário disse-me para rescindir, porque me ia meter no V. Guimarães», salienta.

Aos 21 anos, o brasileiro abdicou de um contrato interessante com o FC Porto para rumar a Guimarães. De repente, ficou sem chão: «Os meus empresários eram o Rui Neno e o Nélson Almeida. Lá fui eu para Guimarães, fiz a pré-época com a equipa em Rio Maior, o Augusto Inácio falou comigo, parecia estar tudo bem. Depois da pré-época, instalei-me num hotel em Guimarães. Entretanto, há o jogo de apresentação e eu não sou apresentado. Nem queria acreditar! Ninguém me conseguiu explicar o que aconteceu e foi das piores coisas da minha carreira.»

Josivan não voltaria a jogar no escalão principal do futebol português. «Fui para o Vilanovense, depois fiz uma boa época no Leça, na II Liga, na Ovarense e no FC Marco, que me apresentou uma proposta financeira muito, muito boa. Tão boa que fiquei quatro meses sem receber», atira, resignado.

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Em 2006, o avançado rumou ao Vietname para ser treinado por Henrique Calisto e sagrou-se campeão ao serviço do Long An. De regresso a Portugal, o brasileiro representou Bragança, Pontassolense, Tondela (campeão na III Divisão com António Jesus), Sp. Mêda e finalmente o Aguiar da Beira. Chegou ao clube em 2010 e viria a terminar a carreira precisamente ali, já em 2017.

«Foi uma vila que me acolheu muito bem. Pagavam-me a casa, arranjaram trabalho para a minha esposa, enfim, fizeram tudo por mim e eu acabei por ir ficando lá, com muito gosto. Serei sempre muito grato a essas pessoas. E pronto, depois de acabar, mudei de Aguiar da Beira para Mangualde e já não pretendo sair mais de Portugal. Sinto-me português e vou naturalizar-me em breve», remata Josivan.

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