Investigador reconstrói crime da Rua das Flores 130 anos depois e descobre: "O suspeito hoje não seria condenado"

29 jan, 17:00
Vicente Urbino de Freitas

Ricardo Dinis-Oliveira recuperou centenas de documentos históricos, repetiu a autópsia a uma das vítimas do famoso crime e garante que as análises feitas pelos peritos deste caso, que marcou a génese da Medicina Legal em Portugal, não foram bem realizadas. Por isso, diz, Urbino de Freitas, amigo de Camilo de Castelo Branco, não devia ter sido preso porque as provas não eram suficientes

Um dos crimes mais célebres, ocorridos em Portugal do século XIX e que ficou conhecido como o Crime Rua das Flores, em que um médico foi acusado de envenenar familiares para ficar com uma herança, está a ser reconstruído com detalhe por um investigador português. Para isso, ao longo dos últimos 14 anos, Ricardo Dinis-Oliveira recolheu documentos históricos, espalhados por todo o mundo, e há uns meses conseguiu autorizações e fez “a primeira autópsia no país a um cadáver com 130 anos”.

“Ao fim de mais de 100 anos, encontrei vários documentos que me permitem reconstruir a história do primeiro caso forense em Portugal”, adianta Ricardo Dinis-Oliveira.

Em exclusivo à CNN Portugal, o toxicologista revela que “depois de analisar todos os relatórios orenses, toxicológico, autópsia medica-legal e psiquiatria forense, que recolheu, “o suspeito hoje nunca seria condenado”.  

 

Ricardo Dinis-Oliveira, toxicologista, passou os últimos 14 anos a investigar este crime.

Vicente Urbino de Freitas, um conhecido médico e amigo de Camilio Castelo Branco, foi acusado de ter morto o seu cunhado, José Sampaio, e um sobrinho, Mário Sampaio, de 14 anos. Em tribunal foi condenado a oito anos de prisão e ao degredo de 20 anos em Angola pelo crime do menor, mas quanto ao outro não houve qualquer pena porque a autópsia foi inconclusiva.

 

O crime foi amplamente mediatizado pela imprensa.

 

Urbino sempre disse ser inocente e tentou, quando foi indultado da pena e se exilou no Brasil, reabrir o processo mas nunca conseguiu. “O caso ficou, desde sempre, mal-esclarecido, gerando grande discordância”, já na altura, entre peritos portugueses e estrangeiros relativamente à culpa do conceituado médico portuense, diz o investigador, que promete desvendar o que realmente sucedeu em 1890. 

 

O suspeito foi impedido de exercer medicina e condenado ao degredo em Angola.

 

Entre as provas que sempre levantaram polémica estão as substâncias que os peritos do Porto, ouvidos pelo Tribunal Criminal de São João, dizem ter encontrado no corpo do sobrinho do suspeito e numas amêndoas que ele tinha comido: morfina, narceina e desfilina. 

Na época, alguns peritos vieram criticar as conclusões dos colegas do Porto, considerando que as análises realizadas em laboratório estavam mal feitas. E este é a um dos mistérios que Ricardo Dinis-Oliveira acredita ter desvendado.

“Conclui que houve mesmo um erro laboratorial que levou a um resultado errado que causou a condenação de Vicente Urbino pelo tribunal ”, diz o também diretor da unidade de investigação científica em Toxicologia do Instituto Universitário de Ciências da Saúde e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.  O perito explica: “Analisei de novo toda a documentação e concluí que, pelos menos, a narceína e delfinina não poderiam ser encontradas. Ou seja, as conclusões dos peritos do Porto estavam erradas”. O toxicologista adverte, contudo: “Não acho que tenha sido um ato de má fé.  Mas poderá ter ocorrido por causa da falta de conhecimento da altura”.

Este foi, aliás, “o primeiro grande caso que marcou a génese da Medicina Legal, Toxicologia e da Química forense em Portugal”, sublinha o investigador.  Mas apesar disso, mesmo com a condenação ficaram dúvidas. “Nunca houve uma convicção plena, porque existia uma grande discrepância de opiniões entre os peritos”, recorda, explicando que as provas testemunhais também foram inclusivas para incriminar Urbino. E as audiências de julgamento revelam-no. “Rastreei toda a prova testemunhal que o incrimina e prova testemunhal é fraca, porque é baseada numa série de contradições”.

Na realidade, o caso foi tão badalado por ser um médico famoso, amigo de Camilo Castelo Branco, que “toda a gente parecia querer ficar na história”. Havia também, uma grande pressão da opinião pública no sentido de haver uma condenação. Mas “à luz dos conhecimentos atuais, o médico nunca teria sido condenado apenas com as provas periciais e os testemunhos contraditórios em tribunal”.

Relatório de Júlio de Matos

O investigador também descobriu os relatórios psiquiátricos que foram realizados por Júlio de Matos, que foi aluno do suspeito Urbino - e, que mais tarde, seria diretor do Hospital Conde Ferreira e daria nome ao hospital em Lisboa. Júlio de Matos descrevia Urbino “como tendo traços de psicopata, uma fisionomia de um homem maluco, além de um criminoso inato, antipático, repelente e com um instinto maléfico”, resume Ricardo Dinis-Oliveira.

 

Relatório toxicológico referencte à autópsia de José Sampaio Júnior.

 

Relatório da autópsia às vísceras de José Sampaio Júnior.

Para o investigador faltava uma peça chave para conseguir reconstruir o caso: repetir a autópsia do corpo do menor.  Mas o rastro ao cadáver perdeu-se uma vez que foi transladado, em meados de 1910, entre cemitérios do Porto.

No entanto, ao fim de 14 anos de pesquisa, o perito deparou-se com algo que o pode ajudar a decifrar tudo: descobriu no cemitério de Agromonte, também no Porto, o cadáver de José Sampaio, cunhado de Urbino, a outra  alegada vítima de envenenamento que morreu antes do menor e supostamente com as mesmas substâncias.

Investigador repete autópsia  

“Esta descoberta foi uma tarefa árdua que demorou anos”, descreve o professor universitário, que conseguiu, entretanto, exumar o cadáver.  Em 2020, repetiu a autópsia ao corpo de José Sampaio, que há 130 anos tinha sido dada como inconclusiva.

Por sorte, o corpo foi, nessa época, sepultado num caixão de chumbo que o preservou, permitindo que agora o investigador o conseguisse autopsiar e colher “novas amostras biológicas de cabelo, tecido ósseo e muscular, rim e pele que está muito preservada”.

“Quero perceber qual foi a real causa da morte de José Sampaio, cunhado do assassino”, explica, esclarecendo que, com isso, poderá também perceber o que sucedeu com a outra vítima, Mário, de 14 anos, “já que o modus operandi provavelmente terá sido semelhante”.

Ricardo Dinis-Oliveira vai ainda “fazer análises de natureza toxicológica, porque os sintomas que José Sampaio teve, à data da morte, eram compatíveis com a intoxicação do sobrinho Mário”. Ou seja, resume, “todos os relatórios médicos descrevem que o Mário tinha sintomas muito semelhantes ao de José Sampaio, sobretudo crises convulsivas, uma sedação muito intensa, sonolência e alucinações”.

 “Acho que consigo chegar a outro tipo de conclusões diferentes dos peritos de 1890, com todos os meios que hoje temos à nossa disposição”, diz, frisando que desde o século XIX  há a teoria de que o mediatismo público teve um peso muito grande em condicionar os resultados periciais produzidos através de métodos. “E alguns métodos foram pela primeira vez desenvolvidos e aplicados para este caso”.

À época, serviram de prova os relatórios de autópsia e as análises toxicológicas que também incluíram a análise às amêndoas e doces que envenenaram o sobrinho. “Esses relatórios foram encabeçados por António Ferreira da Silva, que viria a ser o fundador da Sociedade Portuguesa da Química, e que é considerado um dos maiores químicos de todos os tempos. Foi o primeiro a levar as provas toxicológicas a um tribunal português”, conta o investigador, que recuperou todos estes documentos de 1890.

A fortuna da família Sampaio

Este crime tornou-se mediático por estar cheio de personagens famosos. O suspeito era Vicente Urbino Freiras, professor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, que em 1877 casou com Maria das Dores Basto de Sampaio, filha de António Sampaio, um comerciante de linhos e detentor de uma das maiores fortunas do Porto.

Além da mulher Urbino, seriam herdeiros daquela fortuna o cunhado José Sampaio que vivia em Lisboa e três sobrinhos órfãos que residiam com os avós - sogros do médico - na Rua das Flores. Terá sido essa fortuna o móbil do crime e que terá espoletado todo o enredo que culminou na morte de José Sampaio e de Mário, um sobrinho de 14 anos.

A morte de José Sampaio ocorreu em janeiro de 1890. Ficou doente depois de ter chegado ao Porto, vindo de Lisboa. Instalou-se no famoso Grande Hotel de Paris, um dos mais antigos da cidade e foi tratado pelo cunhado e médico Urbino. Mas por causa da fortuna suspeitou-se que em vez de lhe dar medicamentos, o tenha envenenado com substâncias tóxicas - morfina, narceína, delfinina e pilocarpina, entre outras.

Já Mário, assim como outros dois sobrinhos, terão comido, apesar da relutância da avó, várias amêndoas e três bolos de chocolate, enviados de Lisboa por um remetente desconhecido. Mário foi o que se sentiu mais indisposto, porque ingeriu uma maior quantidade. Na altura, as três crianças também receberam cuidados médicos do tio Urbino que acabaria por lhes prescrever clisteres de cidreira, recomendando que os retivessem o maior tempo possível. Só que Mário não resistiu e acabaria por morrer a 2 de abril de 1890 com espasmos e convulsões, com sintomas de intoxicação muito semelhantes aos do tio que tinha morrido no Grande Hotel de Paris.

 

Ricardo Dinis-Oliveira conseguiu recuperar documentos antigos, como estes manuscritos

 

Neste seu périplo, o investigador Ricardo Dinis-Oliveira conseguiu recuperar também uma espécie de diário do então diretor do hotel, através de um bisneto que lhe enviou os manuscritos de França. Nesse papeis, o então diretor do hotel apontou “tudo o que via Urbino fazer”, desde as misturas de substâncias, até à forma como a administrava no cunhado, passando pelo momento em que este adormecia”.

 

Não é nova a suspeita da inocência de Urbino de Freitas

 

Agora, depois de analisar todos estes documentos, o investigador acredita que se fosse hoje as perícias não o conseguiam incriminar. Mesmo que Urbino fosse culpado.

Desde o início que o médico lutou pela sua inocência, tendo o apoio da mulher, e do amigo e escritor Camilo Castelo Branco. Urbino acabou por morrer a 23 de outubro de 1913, sem o fazer. Mas, recorda Ricardo Dinis-Oliveira, deixou marca na história da medicina: era um clínico conceituado no estuda da lepra, tendo uma fotografia de um doente seu a ser a primeira utilizada numa publicação científica.

 

A pedra tumular de Urbino de Freitas, que morreu a clamar inocência.

 

 

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