Como a China está a contar a história do encontro entre Xi e Biden (sim, é diferente da versão americana)

15 nov, 07:21
Joe Biden e Xi Jinping

Se os EUA propuseram a cimeira e Biden até foi ao hotel onde estava Xi, é porque reconhece que tem culpa pelas más relações bilaterais. Nas grandes questões ou nos detalhes, os media chineses e o governo de Pequim relatam uma cimeira diferente da que é contada pela Casa Branca

Foi uma conversa “franca”, “direta”, olhos nos olhos, dizem os relatos de ambos os lados. “Os dois líderes falaram francamente sobre as suas respetivas prioridades e intenções numa série de questões”, escreveu a administração norte-americana, no seu relato da reunião desta segunda-feira entre Joe Biden e Xi Jinping, em Bali, o primeiro encontro presencial entre ambos. “Os dois presidentes tiveram uma troca de pontos de vista franca e aprofundada sobre questões de importância estratégica nas relações China-EUA e sobre grandes questões globais e regionais”, lê-se no relato emitido pelo governo chinês.

Numa conversa à porta fechada (só os primeiros minutos, com as intervenções iniciais de cada líder, aconteceram perante os jornalistas), a história desta cimeira histórica faz-se com os relatos oficiais emitidos por cada lado sobre o que Biden e Xi disseram, a que se somam as declarações públicas subsequentes (apenas de Biden, que deu uma conferência de imprensa, ao contrário de Xi, que faz questão de nunca falar aos jornalistas), mais os detalhes que “fontes bem informadas” costumam passar à comunicação social de cada país. 

Há diversos pontos em que as duas histórias coincidem: por exemplo, a duração da reunião (3 horas e 12 minutos), a vontade comum de restabelecer vias de comunicação entre as duas super-potências, ou a disponibilidade para ambas as administrações para trabalhar em conjunto numa série de dossiês. Também o desejo de que a competição entre os dois países não degenere em conflito foi sublinhado por ambos os lados, assim como a convicção de que cada um deixou bem claro quais as suas prioridades e “linhas vermelhas” nos assuntos em que Washington e Pequim não estão de acordo ou em que podem surgir tensões. 

Boa parte da história que se conheceu em Portugal sobre esta cimeira é a que é narrada pelos media ocidentais, mais próximos da versão norte-americana do evento - desde logo, porque Biden deu uma conferência de imprensa transmitida por esses órgãos de comunicação social, dando prevalência à forma como Washington formatou a história deste encontro.

Mas há uma série de pormenores em que as narrativas não coincidem ou revelam o viés de pontos de vista diferentes. Também há aquelas questões em que as desconfianças históricas impõem um enorme ceticismo face às promessas proclamadas em público. Como é, então, a história desta cimeira segundo o governo e a comunicação social chinesa? 

A ameaça nuclear, de que a China não fala

O caso mais notório de duas narrativas distintas tem a ver com o acordo entre Xi e Biden na condenação das ameaças russas sobre o eventual uso de armas nucleares no âmbito da sua invasão da Ucrânia. Segundo a Casa Branca, “o presidente Biden levantou [a questão da] brutal guerra da Rússia contra a Ucrânia e as ameaças irresponsáveis da Rússia de utilização nuclear. O presidente Biden e o presidente Xi reiteraram o seu acordo de que uma guerra nuclear deve ser travada e nunca pode ser ganha e sublinharam a sua oposição à utilização ou ameaça de utilização de armas nucleares na Ucrânia.”

É, da parte de Xi, a repetição de um entendimento que já havia acontecido na cimeira bilateral que manteve com o chanceler alemão, em Pequim. Porém, no relato da reunião feito por Pequim, não há qualquer referência a esta condenação da retórica nuclear russa, ou do eventual uso de armas atómicas por parte de Vladimir Putin. E não é por economia de caracteres: o comunicado do governo chinês sobre a cimeira com Biden tem mais de 2 mil palavras; o texto emitido pela Casa Branca tem apenas 500. 

Só esta terça-feira, bastantes horas após a cimeira com Biden, o ministro dos Negócios Estrangeiros chinês confirmou que Xi disse ao presidente norte-americano que as armas nucleares não podem ser utilizadas e que não podem existir guerras nucleares.

Nas mais de 2 mil palavras do comunicado chinês, só 160 são sobre “a crise da Ucrânia e outras questões”. Nenhuma refere as ameaças nucleares de Putin, e nunca a guerra desencadeada pelo Kremlin é adjetivada ou condenada. A China diz-se “muito preocupada com a situação atual na Ucrânia” (é uma “situação”, nunca é uma “guerra”) e resume a posição de Xi em quatro pontos: 1) “conflitos e guerras não produzem nenhum vencedor”; 2) “não existe uma solução simples para uma questão complexa; 3) “o confronto entre os principais países deve ser evitado; 4) “a China tem estado sempre do lado da paz e continuará a encorajar as conversações de paz. Apoiamos e aguardamos com expectativa o reinício das conversações de paz entre a Rússia e a Ucrânia. Ao mesmo tempo, esperamos que os Estados Unidos, a NATO e a UE conduzam diálogos abrangentes com a Rússia.”

Silêncio sobre a Coreia do Norte

A condenação do uso ou ameaça de uso de armas nucleares, por parte de Biden e Xi, poderia aplicar-se, também, à Coreia do Norte, cuja escalada armamentista estará na iminência de um novo teste nuclear. Porém, não só a China omite no seu relato da reunião a questão nuclear, como ignora a instabilidade na península coreana, devido aos sucessivos testes de mísseis por partes da Coreia do Norte. 

Sobre isso, a Casa Branca escreve que ”o presidente Biden também levantou preocupações sobre o comportamento provocador da RPDC [República Popular Democrática da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte], observou que todos os membros da comunidade internacional têm interesse em encorajar a RPDC a agir responsavelmente, e sublinhou o compromisso de ferro dos Estados Unidos em defender os nossos Aliados Indo-Pacíficos.” A China, que tem travado novas sanções à Coreia do Norte no Conselho de Segurança das Nações Unidas, omite esta questão do relato do encontro. 

Nas declarações aos jornalistas, Biden insistiu que Pequim tem a obrigação de tentar dissuadir a Coreia do Norte de retomar os testes nucleares, mas acrescentou que não ficou claro claro se a China seria capaz de influenciar Pyongyang.

A notícia sobre a cimeira publicada no Global Times, jornal em língua inglesa do Partido Comunista Chinês, inclui uma referência breve a estas preocupações norte-americanas: “A China e os EUA partilham um terreno comum em muitos aspetos, desde as alterações climáticas à questão nuclear na Península Coreana e no Irão, bem como no tratamento da pandemia da COVID-19, da crise da Ucrânia e no tratamento das crises alimentar e energética.” E é isto.

Taiwan, o elefante no meio do Estreito

Para o lado chinês, foi Taiwan o grande tema deste primeiro encontro presidencial entre Biden e Xi. Do lado norte-americano, a questão de Taiwan resume-se, no essencial, à necessidade de preservar o status quo das últimas décadas. Visto de Pequim, o foco é outro… e o ceticismo sobre a posição norte-americana é mais do que muito.

“Relativamente a Taiwan, [Biden] expôs em detalhe que a nossa política de ‘uma só China’ não mudou, os Estados Unidos opõem-se a qualquer alteração unilateral do status quo por qualquer dos lados, e o mundo tem interesse na manutenção da paz e estabilidade no Estreito de Taiwan. [Biden] levantou objeções dos EUA às ações coercivas e cada vez mais agressivas da RPC [China] contra Taiwan, que minam a paz e a estabilidade em todo o Estreito de Taiwan e na em toda a região, e põem em risco a prosperidade global”, lê-se no comunicado da Casa Branca.

E Biden, na conferência de imprensa, pareceu aliviado ao dizer: “Não creio que haja uma tentativa iminente da China de invadir Taiwan”. Sobre uma eventual escalada do assédio militar da China sobre a ilha, Biden disse que "queremos ver as questões do resolvidas pacificamente”, e que deixou bem clara a posição dos EUA. "E estou convencido de que ele compreendeu exatamente o que eu estava a dizer. E compreendi o que ele estava a dizer".

Neste ponto, era difícil não compreender a mensagem de Xi. Não podia ser mais clara: Taiwan é “a primeira linha vermelha”, que os Estados Unidos não podem ultrapassar. "A questão de Taiwan está no cerne dos interesses centrais da China, é a base da fundação política das relações China-EUA, e a primeira linha vermelha que não deve ser ultrapassada nas relações China-EUA", escreve o comunicado chinês reproduzindo as palavras de Xi. E é “um assunto interno dos chineses e da China” - ao contrário do que disse Biden recentemente, quando afirmou que compete aos taiwaneses determinar o seu próprio futuro.

“Qualquer um que procure separar Taiwan da China estará a violar os interesses fundamentais da nação chinesa; o povo chinês não deixará absolutamente que isso aconteça! Esperamos ver, e estamos sempre empenhados, na paz e estabilidade através do Estreito de Taiwan, mas paz e estabilidade e "independência de Taiwan" são tão irreconciliáveis como a água e o fogo”, avisou Xi.

A desconfiança sobre as verdadeiras intenções de Washington ficou patente quando Xi sentiu necessidade de acrescentar: “Esperamos que o lado norte-americano faça corresponder as suas palavras à ação e respeite a política de ‘uma só China’ e os três comunicados conjuntos. O Presidente Biden afirmou em muitas ocasiões que os Estados Unidos não apoiam a ‘independência de Taiwan’ e não têm qualquer intenção de utilizar Taiwan como instrumento para procurar vantagens em competição com a China ou para conter a China. Esperamos que o lado norte-americano atue com base nesta garantia”.

Mais uma vez, a leitura do Global Times torna ainda mais clara a forma como Pequim vê este assunto. Como faz muitas vezes quando quer vincar uma posição sem a assumir como sua, o jornal oficial cita um perito anónimo dizendo que "é importante que o líder chinês alerte novamente o lado americano sobre onde está a linha vermelha e o que aconteceria se os EUA cruzassem a linha vermelha [na questão de Taiwan]. É assim que a China está a fazer esforços para evitar conflitos diretos enquanto os EUA estão a ser provocadores".

Do ponto de vista chinês, as garantias de Biden sobre Taiwan valem pouco, não só devido ao histórico de “provocações” (de que a última terá sido a visita de Nancy Pelosi à ilha, em agosto), mas também por aquilo que pode ser a realidade futura da política americana. Outro perito, desta vez identificado (Jin Canrong, reitor associado da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Renmin da China), disse ao Global Times que "os EUA vão continuar a provocar a China na questão de Taiwan. Após as eleições intercalares, os republicanos vão tomar a Câmara, e o novo orador da Câmara Republicana irá muito provavelmente seguir o que Pelosi fez para visitar a ilha, para mostrar que os republicanos se atrevem a ser duros contra a China". Além disso, “os dois principais partidos dos EUA pressionarão [para a aprovação do] Taiwan Policy Act, para continuar a forçar a Casa Branca a abandonar a ambiguidade estratégica sobre a questão de Taiwan, e isto trará então uma nova ronda de impactos graves nas relações China-EUA”, antecipou este académico.

As “questões internas”

Outro exemplo curioso na forma diferente como o encontro é relatado na China tem a ver com as denúncias norte-americanas sobre violação dos direitos humanos por parte do governo de Pequim. Tudo indica que essas questões foram levantadas sem grande relevo por Joe Biden, mais focado noutros assuntos, como Taiwan, a Ucrânia ou a Coreia do Norte - e o facto de terem ficado relegadas para segundo plano já foi uma vitória de Xi. Mas foram mencionadas, e isso para Pequim é um passo longe demais por parte dos EUA.

“De acordo com a leitura divulgada pela Casa Branca, Biden permaneceu firme nos temas que são assuntos internos da China, incluindo Taiwan, Hong Kong, Xinjiang e Xizang [Tibete]. Os analistas chineses disseram que os EUA não se aperceberam de que foi a sua estratégia unilateral, arrogante e hostil contra a China que colocou os laços bilaterais em risco de espiral fora de controlo e em direção a um conflito directo, e no futuro, o risco de confronto entre as duas grandes potências continuará a existir se os EUA se recusarem a mudar a sua atitude arrogante e a sua estratégia hostil”, escreveu o Global Times. 

Também nas questões relativas às guerras comerciais - e em particular a decisão norte-americana de cortar o acesso chinês aos semi-condutores mais sofisticados de design ou fabrico norte-americano -, a China aponta o dedo a Washington pelo “agravamento das tensões”. Segundo o global, Times, a estratégia de ‘concorrência’ dos EUA, “confronto de facto, minou seriamente a soberania da China em questões sensíveis como a questão de Taiwan e o desenvolvimento da China na ciência e tecnologia, especialmente na indústria de semicondutores, pelo que a China está também a aproveitar a oportunidade para ‘traçar linhas vermelhas’ em relação aos EUA, alertando os oportunistas e os ‘falcões’ em Washington sobre o perigo de desafiar os interesses centrais da China”. 

Também Hu Xijin, antigo editor-chefe do GT e uma das vozes pró-Pequim mais ativas no Twitter, escreveu que “os EUA dizem sempre que querem competir ferozmente com a China mas evitar o confronto. Mas penso que o que os EUA fizeram, incluindo em Taiwan, Hong Kong, Xinjiang e o bloqueio de chips, foi contenção e confronto. Os EUA dizem sempre uma coisa e fazem outra.”

A prova da “culpa” americana

Como em todas as questões politicamente delicadas, as autoridades chinesas estão a controlar tudo o que é publicado sobre a cimeira desta segunda-feira, e os relatos dos principais meios de comunicação social (como o Diário do Povo, a televisão estatal CCTV ou o Global Times) pouco diferem do relato oficial e da notícia da agência Xinhua, que é quase decalcada do comunicado. A correspondente da CNN Internacional da China, Selina Wang, escreveu no Twitter que “é evidente que a China quer controlar a narrativa em casa. As hashtags sobre a reunião Biden/Xi nas redes sociais está fortemente censurada, e as secções de comentários são fortemente restringidas.”

Segundo Wang, só “nos próximos dias” se verá em que medida a mensagem interna da China sobre a cimeira difere da mensagem no estrangeiro.”

Mas há mais alguns detalhes curiosos na forma como a China está a retratar o encontro de segunda-feira. Vários órgãos de comunicação social têm salientado o facto de ter sido Joe Biden a dirigir-se a Xi Jinping para o aperto de mão, no início do encontro - do lado norte-americano isso é visto como proatividade do presidente dos EUA, que se dirige ao seu homólogo; do lado chinês, o facto de Xi “receber” Biden dá ao líder chinês a posição de comando, enquanto o seu interlocutor o procura.

Também o facto de a cimeira ter acontecido por iniciativa dos EUA, e ter decorrido no hotel onde estava alojada a comitiva chinesa tem uma interpretação diferente de ambos os lados. Para os EUA, é a prova de que é Washington que procura o diálogo, para desarmadilhar pontos de tensão e evitar conflitos. Para Pequim, o significado é outro. 

Segundo o Global Times, “algumas opiniões públicas notaram que o local deste encontro é a residência da delegação chinesa em Bali, e o hotel onde a delegação americana está hospedada fica a cerca de 10 minutos de carro. Além disso, esta reunião foi proposta pelos EUA. De facto, não é difícil descobrir que cada vez que a contínua deterioração das relações China-EUA acontece, é devido à provocação unilateral por parte dos EUA. Como diz o ditado, ‘quem cria o problema deve resolvê-lo.”

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