Biden/Xi: oito pontos para compreender uma cimeira histórica

14 nov, 07:10
Joe Biden e Xi Jinping (Associated Press)

Há quem lhe chame a primeira cimeira da segunda Guerra Fria. Os líderes dos EUA e da China encontram-se hoje, para desanuviar as relações bilaterais e discutir diversos focos de tensão, de Taiwan à Ucrânia, passando pela Coreia do Norte e guerras comerciais

Joe Biden e Xi Jinping encontram-se esta segunda-feira, na Indonésia, numa cimeira que, mesmo antes de acontecer, já é histórica. Gideon Rachman, o respeitado comentador de política internacional do Financial Times, escreveu há dias que é “a primeira cimeira global da segunda Guerra Fria”. 

O timing do encontro é crítico, os seus protagonistas estão em momentos decisivos dos seus mandatos, e os assuntos em agenda são cruciais - desde a invasão russa da Ucrânia aos mísseis norte-coreanos, passando pela questão de Taiwan e pela guerra comercial que opõe norte-americanos e chineses. 

Em pano de fundo, está a disputa entre uma super-potência que não teve rival nas últimas décadas, e a super-potência emergente que quer desafiar a ordem global e a “pax americana”. Eis o essencial sobre a cimeira de Bali.

  1. O momento 

Este será o primeiro encontro presencial entre Joe Biden e Xi Jinping desde que o primeiro se tornou presidente dos EUA, em janeiro de 2021. Devido à pandemia, nos vinte meses que passaram entretanto, Biden e Xi só falaram diretamente através de telefone ou de videoconferência - fizeram-no por cinco vezes. Encontram-se finalmente face a face, à margem da cimeira do G20, que reúne na ilha indonésia de Bali os líderes das vinte maiores economias do mundo. A reunião do G20 acontece na terça e quarta-feira, com o mundo a enfrentar ameaças de segurança e a perspetiva de uma recessão. Após a interrupção destes encontros imposta pela covid-19, apenas um líder deverá faltar à chamada: Vladimir Putin, que havia garantido a sua presença ao presidente indonésio mas, afinal, não irá cumprir a promessa.

Biden e Xi chegam ao seu primeiro frente a frente em situação de força política na frente interna. Xi acaba de ser reeleito pelo Partido Comunista Chinês para um imprevisto terceiro mandato, tendo cimentado a sua posição como “núcleo” do partido e do governo chinês, afirmando-se como o líder com mais poder desde Mao Tse Tung. Biden acaba de ultrapassar um dos testes mais complexos do seu mandato, tendo conseguido assegurar a maioria no Senado dos EUA num contexto particularmente difícil - mesmo o eventual controlo republicano da Câmara dos Representantes (que ainda é provável, mas não inevitável) não ofusca o bom desempenho do partido de Biden numas eleições que, historicamente, costumam trazer reveses sérios ao presidente em funções. "Eu sei que estou a chegar mais forte, mas não preciso disso", disse Joe Biden ontem, depois de se saber que os democratas continuarão a controlar o Senado dos EUA. 

A cimeira de Bali acontece quando o mundo enfrenta uma forte travagem económica e uma eventual recessão, na qual o desempenho económico dos EUA e da China pode ser decisivo, tratando-se das duas maiores economias globais, mas também o estado das relações comerciais entre os dois países pode contribuir para carregar ou desanuviar as nuvens que ensombram a economia mundial.

Por fim, há o óbvio - a coincidência de um conjunto de conflitos militares ou tensões de segurança com potencial impacto global: a invasão russa da Ucrânia, a escalada armamentista da Coreia do Norte, o frágil status quo no Estreito de Taiwan, e a cada vez maior assertividade da China enquanto potência militar, que está a deixar nervosos muitos países do Indo-Pacífico. 

  1. O passado a dois

"Eu conheço Xi Jinping, passei mais tempo com ele do que qualquer outro líder mundial", disse ontem Joe Biden aos jornalistas, ainda no Camboja, onde participou na cimeira da ASEAN (que junta os países do Sudeste Asiático). Não é garantido que Biden seja o líder que passou mais tempo com Xi - esse prémio vai, provavelmente, para Vladimir Putin, com quem o presidente chinês já se encontrou 40 vezes desde que assumiu o poder, em 2013. Putin é, de longe, o político mundial com quem Xi manteve mais encontros nesta década de poder - só este ano, estiveram juntos em fevereiro, em Pequim, pouco antes da invasão da Ucrânia, e em setembro passado, no Uzbequistão.

Mas, sim, Biden e Xi conhecem-se há bastante tempo, desde 2011, quando ambos eram vice-presidentes dos respectivos países. Entre 2011 e 2013, os dois passaram algum tempo juntos, tanto nos Estados Unidos como na China, em quando serviam como nº2 de Barack Obama e Hu Jintao, respetivamente. Pelas contas do atual presidente dos EUA, os dois viajaram mais de 17 mil milhas juntos e passaram 78 horas em reuniões. 

Xi assumiu o cargo de vice-presidente da China em 2008, e no ano seguinte Biden tornou-se seu homólogo. Mas só em 2011, quando Biden visitou a China, começaram a conhecer-se melhor. Xi continuava a ser um mistério para as chancelarias ocidentais, apesar de já estar apontado como próximo presidente da China, e Biden, com a sua vasta experiência internacional, e toda uma vida como político, tinha a missão de tentar perceber melhor quem era aquele homem. Biden tentou construir uma relação com o futuro líder chinês, e até jogaram basquetebol juntos durante uma visita a uma escola. Numa investigação recente da Economist, Daniel Russel, que na altura era conselheiro da Casa Branca para Assuntos Asiáticos, recorda um jantar, nessa viagem, em que Xi "falou durante um tempo considerável" sobre as Primaveras Árabes, que então agitavam o mundo, e os seus receios sobre o impacto dessas revoluções - e a sua preocupação em entender que lições poderia o PCC retirar desses eventos. 

Esse era o tempo em que o Ocidente ainda olhava para Xi como alguém que poderia prosseguir o caminho de abertura que a China trilhara desde Deng Xiaoping, e que permitiu ao país ultrapassar o Japão como segunda maior economia do mundo em 2010. Mas as conclusões que Xi retirou de eventos como as Primaveras Árabes ou a queda da URSS não foram no sentido de abrir o regime, mas fechá-lo cada vez mais, invertendo um percurso de mais de três décadas. Ultrapassado esse equívoco inicial sobre quem é, o que pensa e como governa Xi, Biden garantiu ontem que sabe bem quem terá pela frente: "Nunca há qualquer erro de cálculo sobre onde cada um de nós está".

  1. O que Biden espera

Ainda Pequim não tinha confirmado a existência deste encontro bilateral, e já presidente norte-americano abria o jogo sobre o que espera da reunião: discutir com Xi "quais são cada uma das nossas linhas vermelhas" e compreender os "interesses críticos" de cada lado. E determinar se essas linhas vermelhas e interesses críticos “entram ou não em conflito e, se entrarem, como o resolver". 

Foi assim que Biden colocou a questão na semana passada, e ontem voltou a frisar que o que está em causa é aplanar o terreno para a relação bilateral e definir os limites intransponíveis desse terreno: "Só temos de perceber onde estão as linhas vermelhas e (...) quais são as coisas mais importantes para cada um de nós nos próximos dois anos".

  1. O que Xi quer

Pequim tem sido menos prolixa do que os EUA sobre esta cimeira, mas o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês saudou a “importância [da] proposta americana de realizar uma reunião entre os dois chefes de Estado em Bali", e exortou os “EUA a trabalhar em conjunto com a China para se evitarem mal-entendidos e julgamentos errados”.

Resolvida a questão interna do congresso do PCC e da reorganização do partido à medida dos desejos de Xi, este pretende retomar o protagonismo internacional, compensando os anos de “reclusão” perdidos com a pandemia, e o custo reputacional de a covid-19 ter surgido precisamente na China. Apesar de o país ser aquele que, a nível internacional, está mais longe de retomar a normalidade, mantendo a política de “covid zero”, Xi parece pronto a reivindicar outra vez o seu lugar no palco global como líder da super-potência emergente. O primeiro passo nesse sentido foi a deslocação, em setembro, ao Uzbequistão, para uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai, plataforma que junta China, Rússia e diversas repúblicas da antiga União Soviética da Ásia Central. 

A seguir à reunião com Biden e à cimeira do G20, Xi estará na cimeira da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico), na Tailândia. Em ambos os palanques, aproveitará para apresentar-se como alternativa ao “imperialismo” e ao “militarismo” americano, protagonizando a defesa de uma nova ordem global.

  1. As linhas vermelhas

Segundo a Casa Branca, é pouco provável que da reunião desta segunda-feira resulte declaração conjunta, mas a expectativa é que as relações entre Washington e Pequim possam estabilizar, ao fim de meses em que se foram permanentemente degradando, fosse por causa da cumplicidade chinesa com a invasão da Ucrânia, ou pela forma como Pequim cercou Taiwan com manobras militares inéditas durante o verão. 

Na cimeira da ASEAN, que terminou ontem no Camboja, Biden disse que os Estados Unidos irão "competir vigorosamente" com Pequim, mas prometeu empenhar-se em "assegurar que a concorrência não se desvie para o conflito", sublinhando a importância da paz no Estreito de Taiwan. Em todo o caso, antes de embarcar para esta viagem, o presidente dos EUA já havia garantido que não haverá "concessões fundamentais" à China nestas negociações.

Pequim, por seu lado, também deixou um aviso que serve de linha vermelha: Taiwan continua a estar no "núcleo dos principais interesses da China", segundo as palavras do porta-voz da diplomacia chinesa. Xi já tinha dito isso mesmo no congresso do PCC, tendo prometido que a “reunificação” de Taiwan com a China continental continua a ser uma prioridade, e que se concretizará seja de forma pacífica, seja pela força, independentemente da vontade dos taiwaneses: “A resolução da questão de Taiwan é um assunto para o próprio povo chinês, a ser decidido pelo povo chinês". 

  1. Os focos de tensão militar

Ucrânia, Coreia do Norte e Taiwan são os focos de tensão militar que estarão sobre a mesa na conversa entre Biden e Xi. A China nunca condenou a invasão russa da Ucrânia, e tem-se demarcado de todas as iniciativas dos EUA ou de outros países ocidentais na ONU contra o regime de Vladimir Putin. Apesar de o próprio Putin ter reconhecido em setembro que Xi tem “dúvidas e preocupações” sobre esta dita “operação militar especial”, Pequim tem sido mais ativa a condenar as provocações dos EUA e da NATO do que as movimentações das tropas russas. Depois de ter pressionado Xi para não ajudar militarmente o seu “amigo” Putin (aparentemente com sucesso), Washington acredita que o líder chinês pode ter uma palavra decisiva no conflito, pois tem um ascendente único sobre o líder do Kremlin. Também no caso da Coreia do Norte os EUA e as democracias suas aliadas têm exortado Xi a travar a escalada armamentista de Kim Jong-un, que tem em Pequim um dos seus poucos aliados em todo o mundo. Mas, em vez de por um travão aos lançamentos de mísseis da Coreia do Norte, a China (com a Rússia) tem escudado Pyongyang de novas sanções das Nações Unidas. 

Apesar desta aparente cumplicidade com Moscovo e Pyongyang, Xi afirmou recentemente, num encontro com o chanceler alemão, que o recurso a armamento nuclear é inadmissível - numa aparente demarcação face às ameaças tanto de Putin como de Kim. 

Na questão de Taiwan, a posição chinesa é muito clara e está bem definida - aquele é território chinês -, e será Biden quem terá de dar explicações sobre como concilia a afirmação de que os EUA se mantêm comprometidos com a política de “uma só China” (que reconhece a soberania sobre Taiwan) ao mesmo tempo que promete defender a ilha de um eventual ataque e diz que só os taiwaneses podem definir o seu futuro. 

Biden insistirá na manutenção do status quo e na defesa de um Indo-Pacífico “livre e aberto” - o que será uma forma de olhar para aquela que, no plano macro, é a grande questão de segurança nesta zona do globo: a cada vez maior assertividade da China enquanto potência militar. A China tem reivindicado direitos de soberania não reconhecidos internacionalmente no Mar do Sul da China e no Mar da China Oriental, e tem procurado alargar a sua esfera de influência até ao Pacífico Sul. E Xi prometeu no congresso do seu partido um grande salto na dimensão e capacidade militar das suas Forças Armadas - tudo razões para os países vizinhos se sentirem cada vez mais pressionados pelo belicismo de Pequim.

  1. Os focos de tensão económica 

Desde os anos 80 que os Estados Unidos prosseguiram em relação à China uma política de abertura económica, incentivando a sua integração na Organização Mundial do Comércio, aumentando as trocas comerciais e até facilitando o acesso a tecnologia norte-americana - a ideia sempre foi que, à abertura económica corresponderia também maior abertura política, respeito pelos direitos humanos e, talvez, o fim da autocracia do Partido Comunista. Essa ilusão desapareceu entretanto, e Donald Trump foi o presidente que inverteu uma política de décadas, abrindo uma guerra comercial com a China, ao mesmo tempo que Pequim apertava o controlo sobre os investidores privados e politizava cada vez mais a sua gestão económica. 

As tarifas e as restrições impostas por Trump não foram levantadas por Biden, mas, pelo contrário, têm sido aprofundadas. A decisão de cortar de forma quase radical o acesso da China aos semicondutores mais sofisticados produzidos nos EUA ou com tecnologia norte-americana pode ser a decisão mais consequencial de Washington em termos de impacto sobre a economia chinesa, mas também no desenvolvimento do seu aparelho militar e de vigilância.

Xi, pressionado por uma economia em forte abrandamento, tanto por razões externas (crise global, inflação, guerra na Ucrânia) como internas (política de covid zero, implosão da bolha imobiliária), quererá evitar mais dores de cabeça na frente económica. Mas, apesar das críticas chinesas à forma como os EUA estão a usar a economia como arma política, dificilmente haverá mudanças nesta frente.

  1. Os aliados

Antes da cimeira Biden/Xi, houve uma importante reunião ontem entre o presidente dos EUA, e os líderes do Japão e da Coreia do Sul, à margem da cimeira da ASEAN. Nesse encontro, os três líderes comprometeram-se a dar uma “resposta conjunta” forte e “bem coordenada” a qualquer teste nuclear da Coreia do Norte. E colocaram na comunidade internacional (leia-se: também na China e na Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU) a responsabilidade de darem também essa resposta: Pyonyang não pode evitar enfrentar uma "resposta forte e resoluta da comunidade internacional" se for realizado outro ensaio nuclear, lê-se no comunicado do encontro Biden/Kishida/Yoon. 

Sem nomear a China, os três líderes disseram também, na declaração final, que se opõem firmemente a "quaisquer tentativas unilaterais de alterar o status quo nas águas do Indo-Pacífico, incluindo através de reivindicações marítimas ilegais, militarização de locais reivindicados, e atividades coercivas". Não é preciso lá estar a palavra China para se perceber a quem é dirigido o recado.

E, sobre Taiwan, Washington, Tóquio e Seul mostraram-se igualmente unidos: reiteraram que a manutenção da paz e estabilidade em torno da ilha é um "elemento indispensável de segurança e prosperidade na comunidade internacional".

Há anos que Pequim vê sinais de declínio dos EUA e de desagregação das alianças que os norte-americanos lideraram desde o final da II Guerra Mundial. Mas, após anos de deslaçamento dessas alianças, Washington voltou a assumir esse papel de liderança das democracias. Em boa medida, porque os aliados dos EUA se sentem ameaçados, seja por Xi Jinping, na Ásia-Pacífico, seja por Putin, na Europa. A forma ambígua como Xi tem lidado com os aliados Putin e Kim pouco fazem para sossegar as democracias ocidentais e de estilo ocidental. E o discurso nada ambíguo de Xi sobre a China enquanto nova super-potência também tem feito soar alarmes e alicerçado velhas alianças. 

Num mundo outra vez dividido entre dois pólos, a cimeira de Bali traz à memória outros encontros em que os líderes das super-potências discutiam o futuro do mundo em terreno neutro. As águas de Bali são quentes, mas a guerra volta a ser fria.

Ásia

Mais Ásia

Patrocinados