Discretos, viciantes e potencialmente mais perigosos. O risco dos cigarros eletrónicos descartáveis (que começam a ser proibidos noutros países)

Daniela Costa Teixeira , atualizada às 13:02
21 mar, 08:00
Cigarros eletrónicos (Associated Press)

França, Reino Unido e Nova Zelândia já meteram um travão à venda destes produtos. Por cá, falta regulamentação e informação sobre os riscos

São pequenos, descartáveis, não cheiram a tabaco, têm sabores variados e prometem não fazer tão mal como o tabaco convencional. Os cigarros eletrónicos descartáveis - também chamados ‘pods descartáveis’ ou ‘vapes’ - captam sobretudo a atenção dos mais novos, mas já começam a fazer soar os alertas junto da comunidade médica mundial. 

Hilson Cunha Filho, médico pneumologista e membro do grupo de estudos de tabaco da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, diz que, cientificamente, ainda não é possível medir o impacto na saúde que estes dispositivos têm por serem recentes no mercado. “Percebemos que aparecem nas lojas de um dia para outro”, mas assegura que já há evidências de que causam uma “maior e mais rápida dependência” e que podem ser responsáveis por problemas pulmonares. Em causa, diz, está sobretudo o tipo de nicotina usado.

A nicotina que é colocada nestes produtos difere da nicotina presente no tabaco e no cigarro eletrónico, trata-se de sal de nicotina, que causa um nível de dependência muito maior e muito mais rápido, daí o interesse da indústria nos mais jovens, pois vai fidelizar os clientes muito rapidamente”, explica o também professor auxiliar na Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade da Beira Interior.

Países como França, Reino Unido e Nova Zelândia já apertaram o cerco e proibiram a comercialização de cigarros eletrónicos descartáveis, também pelo impacto que têm no ambiente (devido, em parte, às pequenas baterias de lítio não recarregáveis de que necessitam). A Bélgica prepara-se para dar um passo semelhante. Mas é a tentativa de travar o consumo destes produtos por parte dos mais novos a grande preocupação, sublinha Hilson Cunha Filho, explicando que há “estudos que têm sido feitos sobre o desenho do próprio produto em si e parece claro que é desenhado para jovens, para um consumo que não possa ser percebido pelos demais, tentando fugir à regulamentação”.

Por cá, e respeitando as normas impostas pela Comissão Europeia, estes dispositivos descartáveis já estão abrangidos no conceito de cigarro eletrónico e sob a mesma regulamentação no que diz respeito à proibição de fumar em determinados locais (artigo 2.º, alínea k) da Lei n.º 37/2007, atualmente em vigor). No que diz respeito à comercialização, a mesma lei - artigo 14.º, 1 - a) - apenas menciona que “para os cigarros eletrónicos e recargas, o líquido que contém nicotina deve ser fabricado exclusivamente com ingredientes de grande pureza e não pode conter mais de 20 mg/ml de nicotina”, mas não dá mais detalhes sobre ingredientes, informação também inexistente nos sites que comercializam estes produtos. 

A CNN Portugal contactou a Direção-Geral da Saúde para saber se está prevista alguma recomendação para a proibição de comercialização destes dispositivos descartáveis, mas não obteve qualquer resposta em tempo útil. Mas para Hilson Cunha Filho, a solução é simples: “Não se tendo noção da consequência para a saúde, não deveria estar a ser comercializado.”

O (mal) que fazem os sais de nicotina

“Ainda não sabemos o impacto a nível pulmonar, mas todas as substâncias que possam ser inaladas sem ser o ar normal e puro vão ter efeito pulmonar e respiratório”, garante Hilson Cunha Filho, deitando por terra todas as “promessas” de que estes dispositivos têm um menor grau de gravidade sobre a saúde quando comparados com os cigarros convencionais.

Os sais de nicotina 'nascem' da mistura de nicotina de base livre (NicBL) com um ou dois tipos de composto orgânico pertencente à função álcool (propilenoglicol e/ou glicerol) e ainda com um ácido, em particular o ácido benzóico. O resultado final, como explica o artigo Sais de Nicotina e Nicotina Sintética: Novos Desafios para um Velho Problema, da Revista Brasileira de Cancerologia, “possibilita entregar ao consumidor concentrações até 20 vezes maiores de nicotina”.

Hilson Cunha Filho explica que “a forma química como [este tipo de nicotina] é produzida já é conhecida há muitos anos, mas só agora é usada”, pois só agora é que foi possível eliminar o efeito irritativo que causava, isto é, tornou possível um maior consumo sem este efeito colateral. E o facto de o seu consumo ser recente dificulta muito a perceção dos possíveis danos.

Estes sais podem ter um impacto grande nas vias respiratórias superiores, mas não sabemos ainda o que podem causar a médio prazo, mas podem causar problemas respiratórios agudos, aumento da tosse, irritação. No fundo, são sempre uma porta de entrada para que haja outros problemas respiratórios normais, porque as pessoas ficam mais vulneráveis”, adianta o médico. 

Os sais de nicotina, continua o especialista, “têm um impacto muito mais forte no organismo, são absorvidos de uma forma muito mais impactante pelo organismo, chegam muito mais rápido ao cérebro”, podendo, por isso, as consequências ser tão ou mais graves do que o consumo de tabaco ‘convencional’ com nicotina.

Asma e EVALI - um tipo de lesão pulmonar associado a estes cigarros eletrónicos - são alguns dos problemas de saúde possíveis, sobretudo os detetados nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças. Também no Canadá, Filipinas, Bélgica e Suécia foram relatados problemas pulmonares associados a estes produtos. Além disso, mantém-se ainda o risco de cancro, lê-se no site da CUF.

Mas não é apenas o sal de nicotina que preocupa. Segundo a Universidade de Harvard, a substância química chamada diacetil, encontrada em muitos sabores de cigarros eletrónicos, tem sido associada a casos de bronquiolite obliterante - “um tipo de inflamação nos pulmões que causa respiração ofegante, tosse e falta de ar”, lê-se no site. Esta condição, com o tempo, “pode causar cicatrizes nos pequenos sacos de ar dos pulmões, juntamente com espessamento e estreitamento das vias aéreas”.

A presença do aromatizante diacetil, assim como líquidos que contêm canabidiol e outros derivados de canábis e acetato de vitamina E, levaram a Direção-Geral da Saúde e o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) a desaconselhar, em 2019, o uso de cigarros eletrónicos.

"O cigarro eletrónico descartável é uma caneta com a qual as pessoas absorvem um sal de nicotina, com aromas e sabores para disfarçar qualquer desagrado, tornando o produto mais apetecível", descreve o médico Hilson Cunha Filho, membro do grupo de estudos de tabaco da Sociedade Portuguesa de Pneumologia

Sem noção da quantidade consumida

Por serem apelativos, saborosos e capazes de disfarçar o hábito tabágico, estes dispositivos tornam-se fáceis de usar, fazendo até com que se perca a noção de consumo. E a falta de informação sobre a sua composição acaba por não travar o uso. “Quem compra não tem a percepção de que está a comprar um produto oriundo da nicotina, quem vende não sabe que causa mais dependência do que o tabaco, vende mais livremente, acha que não causam tantos problemas”, lamenta o médico Hilson Cunha Filho.

Os cigarros eletrónicos descartáveis são pequenos dispositivos alimentados por pilhas que libertam nicotina vaporizada com vários aromas. Cada dispositivo tem um tempo estimado de uso de um dia e pode ter entre 800 a 8.000 ‘puffs’, sendo que cada 600 ‘puffs’ equivalem a 20 cigarros. Ou seja, um único dispositivo descartável contém o equivalente a mais do que um maço. E cada dispositivo custa entre sete a 15 euros, dependendo do número de ‘puffs’.

“Isto é terrível para quem está até a começar agora a fumar, pois não vai conseguir parar mesmo que esteja só a experimentar”, adverte o médico, que destaca ainda a grande carga de nicotina que é ‘empurrada’ para o organismo.

De acordo com o médico, por serem fáceis de usar e até agradáveis ao palato, “não há um controlo na quantidade que usam”, mas os riscos estão lá: “um dispositivo tem presente uma quantidade muito grande de sais de nicotina, a pessoa consome muito mais nicotina do que com um cigarro normal, são doses mais facilmente absorvidas e mais elevadas. E nem os grandes fumadores conseguem consumir tanta nicotina”.

Hilson Cunha Filho alerta que os jovens - o “principal alvo” desta indústria - “não conseguem associar os malefícios destes produtos a qualquer produto com tabaco e nicotina”, não tendo, por isso, noção do “alto grau de dependência” que podem causar. Em causa, diz, está o facto de estes dispositivos descartáveis terem “todos os requisitos para causar problemas de iniciação do consumo, são descartáveis, fáceis de usar sem os outros perceberem, no trabalho é proibido, por exemplo, mas até o adolescente pode usar durante uma aula e descartar antes de chegar a casa”.

Poucos dados sobre o consumo

Apesar de o consumo de tabaco ter recuado nos últimos anos entre os adultos, as estatísticas mostram que pelo menos 37 milhões de jovens são consumidores de tabaco, sendo que 10% entre os 13 e os 15 anos em todo o mundo consomem um ou mais tipos de tabaco. Pelo menos 12 milhões utilizam novos produtos, como os cigarros eletrónicos. Mas há pouca informação sobre os cigarros eletrónicos descartáveis.

Uma vez que a sua chegada ao mercado é recente e passa despercebida a muitos, não há ainda dados concretos sobre o consumo em Portugal: quem o faz, como faz e em que alturas. No entanto, o estudo Uso de cigarros eletrónicos em 12 países europeus: resultados da pesquisa TackSHS, publicado em 2023 e que inclui dados sobre Portugal, a prevalência do uso de cigarros eletrónicos é de 0,9%. No que toca aos padrões de consumo, a mediana do número de inalações diárias por parte dos participantes portugueses é de 99, mas nenhum dos participantes relatou usar um dispositivo descartável, sendo os cigarros eletrónicos recarregáveis a principal escolha. Dados do Eurostat, referentes a 2019, colocam os portugueses entre os que menos usam cigarros eletrónicos, mas os que fumam estes dispositivos fazem-no diariamente, 

A Organização Mundial da Saúde já emitiu um alerta sobre os riscos para a saúde, sobretudo dos mais jovens, do consumo destes dispositivos, advertindo ainda que “não se mostraram eficazes” na tentativa de deixar de fumar. Além disso, o organismo mostra-se preocupado com a quantidade de menores que fumam cigarros eletrónicos: “As crianças entre os 13 e os 15 anos de idade utilizam cigarros eletrónicos em taxas mais elevadas do que os adultos em todas as regiões da OMS”, lê-se no site.

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