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O patrão do ChatGPT diz que a fusão nuclear é a resposta às crescentes necessidades energéticas da IA. Calma com isso, dizem os especialistas

CNN , Laura Paddison
6 abr, 22:00
Sam Altman (Alastair Grant/AP)

Para alguns, a ênfase de Altman num futuro avanço energético ilustra um fracasso mais amplo da indústria de Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial (IA) consome muita energia e, à medida que as empresas correm para a tornar maior, mais inteligente e mais complexa, a sua sede por eletricidade vai aumentar ainda mais. Isto cria um problema penoso para uma indústria que se apresenta como uma ferramenta poderosa para salvar o planeta: uma enorme pegada de carbono.

No entanto, de acordo com Sam Altman, chefe da OpenAI que criou o ChatGPT, existe uma solução para este dilema complicado: fusão nuclear.

O próprio Altman já investiu centenas de milhões de dólares em fusão e, em entrevistas recentes, sugeriu que a tecnologia futurista, amplamente vista com o santo graal da energia limpa, vai eventualmente fornecer enormes quantidades de energia exigidas pela próxima geração de IA.

“Não há hipótese de chegar lá sem um grande avanço, precisamos de fusão”, a par do reforço de outras fontes de energia renovável, disse Altman numa entrevista em janeiro. Mais tarde, em março, quando o podcaster e cientista computacional Lex Fridman lhe perguntou como se resolve o “puzzle energético” da IA, Altman voltou a apontar para a fusão.

Ainda faltam provavelmente décadas para que a fusão nuclear – o processo que alimenta o sol e outras estrelas – seja dominada e comercializada na Terra. Para alguns especialistas, a ênfase de Altman num futuro avanço energético ilustra um fracasso mais amplo da indústria de IA em responder à questão de como se vai saciar as crescentes necessidades energéticas da IA no curto prazo.

Isto coincide com uma tendência geral de “pensamento positivo” no que toca à ação climática, diz Alex de Vries, cientista de dados e investigador na Universidade Vrije em Amesterdão. “Seria muito mais sensato concentrarmo-nos no que temos neste momento, e no que podemos fazer neste momento, do que esperar por algo que possa vir a acontecer”, diz à CNN.

Um porta-voz da OpenAI não respondeu a questões específicas enviadas pela CNN, referindo apenas os comentários de Altman em janeiro e o podcast de Fridman.

O apelo da fusão nuclear para a indústria de IA é claro. A fusão envolve fundir dois ou mais átomos para formar um mais denso, num processo que liberta quantidades enormes de energia.

Não bombeia carbono poluente para a atmosfera e não deixa qualquer legado de resíduos nucleares de longa duração, oferecendo uma visão tentadora de uma fonte de energia limpa, segura e abundante.

Mas “recriar na Terra as condições que se encontram no centro do sol é um enorme desafio” e a tecnologia requerida para tal não deverá estar pronta antes da segunda metade deste século, diz Aneeqa Khan, bolseira de investigação sobre fusão nuclear na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

“A fusão já vem demasiado tarde para lidar com a crise climática”, diz Khan à CNN, acrescentando que, “no curto prazo, precisamos de usar as tecnologias existentes de baixas emissões de carbono como a fissão e as renováveis”.

A fissão é o processo amplamente usado para gerar energia nuclear hoje em dia.

(Philip Fong/AFP/Getty Images)

O problema é encontrar energia renovável suficiente para responder às crescentes necessidades da IA no curto prazo, em vez de recorrer a combustíveis fósseis que aquecem o planeta. É um desafio particular, uma vez que o impulso global para eletrificar tudo, desde automóveis a sistemas de aquecimento, aumenta a procura por energia limpa.

Uma análise recente da Agência Internacional de Energia (AIE) calculou que o consumo de eletricidade por centros de dados, criptomoedas e IA pode duplicar ao longo dos próximos dois anos. O setor foi responsável por cerca de 2% da demanda global de eletricidade em 2022, de acordo com a AIE.

A análise previu que a procura por IA vai crescer exponencialmente, aumentando pelo menos dez vezes entre 2023 e 2026.

Bem como a energia necessária para produzir chips e outro hardware, a IA requer grandes quantidades de energia computacional para “treinar” modelos – alimentando-os com enormes conjuntos de dados – e depois novamente para utilizar o seu treino para gerar uma resposta à interrogação de um utilizador.

À medida que a tecnologia se desenvolve, as empresas estão numa corrida para a integrar em aplicações e pesquisas online, fazendo aumentar os requisitos de energia computacional. Uma busca online com recurso a IA pode exigir pelo menos 10 vezes mais de energia do que uma busca padrão, calculou De Vries num relatório recente sobre a pegada energética da IA.

A dinâmica é a de que “maior é melhor no que toca à IA”, diz De Vries, o que empurra as empresas para modelos maiores e mais esfomeados por energia. “Esse é o principal problema da IA, porque ‘quanto maior melhor’ é fundamental e simplesmente incompatível com sustentabilidade”, acrescenta.

A situação é particularmente grave nos Estados Unidos, onde a procura energética está a aumentar pela primeira vez em cerca de 15 anos, diz Michael Khoo, diretor do programa de combate à desinformação climática na organização Friends of the Earth e coautor de um relatório sobre clima e IA. “Enquanto país, estamos a ficar sem energia”, diz à CNN.

Em parte, a procura está a ser impulsionada por um aumento dos centros de dados. Estima-se que o consumo de eletricidade por centros de dados vai triplicar até 2030, no equivalente à eletricidade necessária para alimentar cerca de 40 milhões de lares nos EUA, de acordo com uma análise do Boston Consulting Group.

“Vamos ter de tomar decisões difíceis” sobre quem obtém essa energia, diz Khoo, quer sejam milhares de casas, quer seja um centro de dados que vai alimentar a próxima geração de IA. “Não podem simplesmente ser as pessoas mais ricas a ficar com a energia primeiro”, acrescenta.

(Yiannis Kourtoglou/Reuters)

Para muitas empresas de IA, as preocupações quanto à utilização de energia ignoram dois pontos importantes: o primeiro é que a IA em si mesma pode ajudar a enfrentar a crise climática.

“A IA vai ser uma ferramenta poderosa para o avanço de soluções de sustentabilidade”, diz um porta-voz da Microsoft, que tem uma parceria com a OpenAI.
A tecnologia já está a ser usada para previsões meteorológicas, para rastrear poluição, mapear a desflorestação e monitorizar o degelo. Um relatório recente publicado pelo Boston Consulting Group, encomendado pela Google, alega que a IA pode ajudar a mitigar até 10% da poluição na raiz do aquecimento do planeta.

A IA também pode desempenhar um papel nos avanços da fusão nuclear. Em fevereiro, cientistas da Universidade de Princeton anunciaram que encontraram uma forma de usar a tecnologia para prever potenciais instabilidades nas reações de fusão nuclear – mais um passo no longo caminho até à sua comercialização.

As empresas de IA também dizem que estão a trabalhar arduamente para aumentar a eficiência. A Google diz que os seus centros de dados são 1.5 vezes mais eficientes do que o típico centro de dados empresarial.

Um porta-voz da Microsoft diz que a empresa está “a investir em investigações para medir o uso de energia e o impacto carbónico da IA enquanto desenvolve formas de tornar os grandes sistemas mais eficientes, quer em treino quer na sua aplicação”.

Tem havido um aumento “tremendo” na eficiência da IA, diz De Vries. Mas, adverte o especialista, isto não significa necessariamente que a procura da IA por eletricidade vai diminuir.

Na verdade, a história da tecnologia e da automação sugere que pode muito bem acontecer o oposto, acrescenta De Vries, que dá como exemplo as criptomoedas. “Os ganhos de eficiência nunca reduziram o consumo de energia na mineração de criptomoedas”, diz. “Quando tornarmos determinados bens e serviços mais eficientes, observam-se aumentos na procura.”

Nos Estados Unidos, há alguma pressão política para escrutinar mais de perto as consequências climáticas da IA. Em fevereiro, o senador Ed Markey apresentou legislação destinada a exigir às empresas de IA que sejam mais transparentes quanto ao seu impacto ambiental, incluindo face à crescente procura de eletricidade nos centros de dados.

“O desenvolvimento da próxima geração de ferramentas de IA não pode ter lugar à custa da saúde do nosso planeta”, disse na altura Markey em comunicado. Mas poucos antecipam que o projeto obtenha o apoio bipartidário necessário para se tornar lei.

Entretanto, o desenvolvimento de IA cada vez mais complexa e sedenta de energia está a ser tratado como uma inevitabilidade, diz Khoo, com as empresas numa “corrida armamentista para produzir o próximo produto”. Isto traduz-se em modelos cada vez maiores e num consumo de eletricidade cada vez maior, adianta.

“Portanto eu diria que, sempre que alguém diz que está a resolver um problema de alterações climáticas, temos de questionar exatamente de que forma é que está a fazê-lo hoje?”, diz Khoo. “Está a tornar isso menos intensivo em termos energéticos de dia para dia? Ou está a usar isso como uma cortina de fumo?”

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