Crianças podem apresentar sintomas de ansiedade desde cedo. Saiba como detetá-los

CNN , Kristen Rogers
21 mai, 10:00
Ansiedade nas crianças

Apego excessivo aos pais pode ser um dos sinais de que uma criança está a lidar com um distúrbio de ansiedade, dizem especialistas

A sua filha não quer brincar com as outras crianças no parque, não quer ir à festa de aniversário de um amigo ou à ida à piscina com a turma. Como é que sabe se ela está apenas a ter um dia mau ou se é um sinal de ansiedade?

Os distúrbios de ansiedade são caracterizados por preocupações persistentes e excessivas. Enquanto uma pessoa com ansiedade generalizada preocupa-se com várias questões do quotidiano, alguém com ansiedade social tipicamente apresenta “medos intensos ou persistentes ou teme ser julgado negativamente por outras pessoas”, explicou Rachel Busman, uma psicóloga clínica e consultora cognitiva e comportamental especializada em ansiedade em White Plains, Nova Iorque. “Estão preocupados com a possibilidade de dizerem ou fazerem algo que os faça parecer estúpidos ou incompetentes”.

Um quinto das crianças a nível mundial tem sintomas de ansiedade que são “clinicamente elevados”, ou pior do que o considerado normal, de acordo com um estudo de 2021. Nos Estados Unidos, de acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, 9,4% das crianças dos 3 aos 17 anos de idade (cerca de 5,8 milhões) foram diagnosticadas com ansiedade entre 2016 e 2019.

Os sintomas de ansiedade podem ser difíceis de detetar, mas quanto mais cedo os pais derem conta dos sinais, mais cedo os profissionais de saúde mental “podem ajudar os pais e as crianças a compreender o que está acontecer”, alertou a Dra. Rebecca Baum, professora de pediatria geral e medicina adolescente na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill.

As crianças com ansiedade podem começar a evitar situações indutoras de ansiedade. Este comportamento poderá facilitar um ciclo que torna os seus medos cada vez maiores, acrescentou Baum. No entanto, “quanto mais cedo nos apercebermos do problema, mais cedo podemos colocar as crianças num caminho que as encoraje a serem resistentes e as ajude a enfrentar as coisas de que têm medo”, disse Busman.

Continue a ler para aprender sobre os primeiros sinais físicos, comportamentais e emocionais de ansiedade geral ou social, e como pode ajudar as suas crianças.

Ansiedade generalizada

De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, Michigan State University, Baum e Busman, os sinais mais comuns de ansiedade generalizada nas crianças incluem:

•   Dificuldade de concentração;
•   Distúrbios do sono, pesadelos ou fazer chichi na cama;
•   Mudança nos hábitos alimentares;
•   Apego;
•   Falta de confiança para experimentar coisas novas ou incapacidade de lidar com problemas simples do quotidiano;
•   Evitar atividades quotidianas, tais como ver amigos, sair à rua ou ir para a escola;
•   Incapacidade de falar em certas situações sociais;
•   Necessidade de reafirmação (repetição de perguntas para validar medos e preocupações, tal como a que horas exatas os pais os vão buscar à escola ou se vai estar bom tempo para ir brincar para a rua);
•   Sintomas físicos como ir frequentemente à casa de banho, lacrimejar, dores de cabeça, tonturas, suores, dores de estômago, náuseas, cãibras, vómitos, inquietação ou dores no corpo (especialmente se ocorrem antes de uma obrigação educativa ou social).

Birras, irritabilidade ou desobediência pode ser confundidas com má educação, mas a ansiedade pode ser a causa por detrás destas atitudes, disse Busman. A recusa em fazer os trabalhos de casa pode ser porque se sentem ansiosos com a possibilidade de cometerem algum erro.

As crianças “não têm necessariamente as ferramentas para dizer, ‘Isto está a causar-me aflição ou desconforto’”, explicou Busman. “Por isso, limitam-se agir conforme o que sentem”.

Ansiedade social

Muitos sintomas de ansiedade social assemelham-se aos de ansiedade generalizada, mas surgem em contextos sociais, disse Busman.

Segundo o Children's National Hospital em Washington, DC, o National Social Anxiety Center e a Mayo Clinic, as crianças que sofrem de ansiedade social podem apresentar estes sinais:

•   Evitar ou recusar-se a ir à escola;
•   Recusar-se a falar em ambientes sociais ou falar baixo;
•   Más competências sociais, como por exemplo ter medo de estranhos ou não estabelecer contacto visual;
•   Ter medo ou dificuldade em utilizar casas de banho públicas, falar ao telefone, fazer apresentações em público, comer em frente de outros, ser chamado na aula ou estar separado dos pais;
•   Sintomas físicos incluem batimento cardíaco rápido, tremores, dificuldades em respirar, tensão muscular e sensação de cabeça vazia.

Ter conversas que ajudam

É importante compreender o que provoca a ansiedade nos seus filhos, mas deve ser feito com cuidado e empatia. Forçar respostas, ou gritar, pode fazê-los sentirem-se na defensiva e levá-los a não quererem conversar consigo.

Questões curiosas e inofensivas são boas, recomenda Busman. Algo como “reparei que parecias hesitante a participar naquela atividade. Passa-se alguma coisa?” pode funcionar melhor do que “estavas com medo de entrar ou não gostas daquelas pessoas?”. Pergunte aos seus filhos como correu um dado acontecimento, o que eles gostaram e o que correu menos bem, e porquê.

De acordo com a associação Anxiety Canada, as crianças mais novas podem não ser capazes de identificar medos mais específicos, por isso, algumas verbalizam essas preocupações de maneiras que façam sentido para elas, como por exemplo: “Eu não queria que vissem o meu desenho” ou “A minha voz é estranha”, explica Busman.

Se os seus filhos são honestos acerca do que os deixa ansiosos, evite invalidar a experiência ao dizer que “isso não é motivo para ter medo” ou “não sejas criancinha”. Evite também validar os seus medos, pois, dizer coisas como “isso soa tão assustador. Lamento imenso que tenhas tido que fazer isso” pode fazer a criança sentir-se ainda mais frágil, alertou Busman.

Uma forma mais indicada de o fazer seria: “Isso parece difícil”, seguindo-se de palavras que reconhecem a capacidade do seu filho para enfrentar estas dificuldades e que você sabe que vão conseguir ultrapassar isto juntos, acrescentou a psicóloga Busman.

Se o seu filho estiver ansioso sobre começar a praticar futebol e não saber chutar a bola, utilize uma afirmação como a de cima e assegure-lhe que vai melhorar com prática, mas não exagere ao dizer que vai ser o melhor marcador de golos, pois isso pode não acontecer.

“Por vezes ficamos apreensivos por termos os nossos filhos a viver momentos que não são perfeitos”, disse Busman, mas ensinar que a imperfeição é algo normal é essencial. O seu filho não vai sempre acertar na bola, e ser apreciado por todos não é realista.

“A necessidade de compreender o stress é uma parte importante da infância”, afirmou Baum. Os pais e educadores podem moldar isto ao “falar de situações em que estiveram ansiosos com alguma coisa, mas que tentaram enfrentá-lo, apesar de não ter acontecido exatamente como eles esperavam”.

Se está preocupado com a possibilidade de que falar com os professores do seu filho cause estigma ou um problema onde antes não exista, saiba que consultá-los vale a pena, pois eles observam diariamente o seu filho durante muitas horas em ambientes diferentes. Portanto, “são geralmente fontes de informação muito boas”, disse Busman. “Por vezes, as crianças não são na escola o que são em casa e vice-versa”.
Um professor pode informá-lo sobre a forma como os seus filhos interagem com os colegas, se ainda estão tristes ou ansiosos depois de você os deixar na escola. Quando este tipo de preocupações persiste e “interfere com a capacidade da criança para fazer as suas atividades normais”, disse Busman, “é uma boa altura para procurar mais algum apoio”.

O melhor tratamento para os distúrbios de ansiedade é a terapia cognitiva comportamental que envolve um certo nível de terapia de exposição, a qual pode ajudar as crianças a sentirem-se confortáveis a fazer as coisas de que têm medo, informou Busman.

O profissional responsável pelos cuidados primários do seu filho pode ajudar a “distinguir entre o que é típico para a idade/desenvolvimento da criança e o que pode ser motivo de preocupação”, indicou Baum. “Mesmo que os sintomas sejam característicos da idade da criança, as famílias apreciam qualquer tipo de ajuda para resolver estes problemas.”

Baum acrescentou: “É importante alcançar a zona de conforto da criança, pois é onde o crescimento acontece”.

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Saúde Mental

Mais Saúde Mental

Patrocinados