Anitta é tudo aquilo que não pensa dela. "A maior parte das pessoas nem sabe o que ela faz"

27 jun, 16:49

É uma das artistas brasileiras com maior sucesso internacional, mas também das que mais controvérsia causa e críticas gera. Porquê?

Anitta atuou este domingo em Lisboa, no festival Rock in Rio, e não tardou em tornar-se trending topic no Twitter. Não pela atuação em si, mas pelo facto de ter pegado por momentos numa bandeira de Espanha e não de Portugal, pelo seu corpo, pela forma como se veste e como dança. Há quem a chame mesmo de ‘cantora-porno’ brasileira. E as críticas a Anitta geraram discussão.

Mas isto não é de agora. Larissa de Macedo Machado - artisticamente conhecida como Anitta -, de 29 anos, é uma das artistas brasileiras com maior sucesso fora do país, mas a sua forma de ser e estar - quase sempre crítica e sem filtros - fazem dela um alvo fácil. O seu corpo é quase sempre o centro das atenções, até mesmo quando fala abertamente sobre o assunto.

“Trazemos essa cultura e herança, o que acaba por manter uma conotação negativa, por muito que nos queiramos desvincular, vamos precisar de tempo para fazer transição, são anos e anos debaixo deste tipo de crenças, ideias muito enraizadas em nós”, começa por dizer à CNN Portugal a psicóloga Catarina Lucas.

“Ainda há uma associação estereotipada, com base no preconceito, de que estas mulheres fazem uso da imagem corporal, que expõem mais o corpo, ainda estamos debaixo deste estereótipo”, continua a especialista, explicando que apesar de Anitta ter “toda uma carreira” noutras áreas, “não a associamos a esse tipo de perfil”, de empresária por exemplo, por causa da imagem que leva para o palco. “Isto está estudado, é uma questão de primeira impressão.”

Carreira de sucesso muito para lá da música

Os números são o espelho do sucesso: 16 milhões de seguidores no Facebook, 17,4 milhões de seguidores no Twitter, 20,1 milhões de seguidores no Tik Tok, 62,7 milhões de seguidores no Instagram. Só no Spotify tem 26 milhões de ouvintes e 500 milhões de streams só com o mais recente álbum ‘Versions Of Me’. ‘Vai, Malandra’ foi a primeira música em português a entrar no Top 20 Global do Spotify, que reúne as mais tocadas no mundo inteiro, segundo a edição do Brasil da revista Glamour

Anitta tem uma fortuna avaliada em 99 milhões de euros (553 milhões de reais), segundo a edição brasileira da revista Exame. Uma fortuna igual à de Eminem, com 20 anos de carreira, e maior do que o património de Nicki Minaj, diz a publicação. Mas não é apenas na música que Anitta faz dinheiro.

É CEO do Grupo Rodamoinho, head de criatividade e inovação na Cervejaria Ambev, diretora e membro do Conselho de Administração do Nubank, criadora do Curso Anitta Prepara na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. O currículo da cantora vai muito além da música e a própria mostra-o na rede social para profissionais LinkedIn. Aos 29 anos é a sua própria agente e quer ajudar outras vozes a chegar ao estrelato, sendo empresária e agente de duas promessas da música brasileira: Micael e Clau. Mas aos 16 já frequentava um curso técnico em administração. A cantora e empresária fala fluentemente cinco idiomas: português, inglês, espanhol, francês e italiano.

Mas o currículo de Anitta é muitas vezes ‘abafado’ por declarações que a cantora faz, por publicações suas nas redes sociais ou pela simples forma como age e atua. 

“Um dos problemas das redes sociais é a facilidade com que criticamos, julgamos sem ler, ver ou conhecer, julgamos com base na imagem. A maior parte das pessoas nem sabe o que ela faz”, diz a psicóloga. Além disso, a questão do estereótipo mantém-se. “É importante que façamos a distinção entre aquilo que somos e aquilo que é a forma como nos vestimos, comportamos ou dançamos: não isso define o que somos, não faz de mim uma mulher mais séria menos séria”, continua a psicóloga.

Catarina Lucas não tem dúvidas do efeito das redes sociais. Olhando para outros exemplos no mundo da música, houve uma Madonna provocadora nos anos 80 e uma Britney Spears a seguir o legado no início dos anos 2000. Mas as críticas não foram como as de agora - seja a Anitta ou a outra artista que exponha mais o corpo. 

“Não tenho a menor dúvida de que está diretamente relacionado com redes sociais, é o caso em que tudo é incendiado nas redes, na maior parte das vezes as pessoas usam as redes para criticar, todas as figuras públicas, de uma forma geral, sofrem disto”, esclarece.

A psicóloga não fala em conservadorismo, mas defende que o facto de “vivermos nesta era muito tecnológica”, em que estar atrás de um ecrã confere a sensação de impunidade, traz ao de cima “uma questão instintiva” em que, muitas vezes, a pessoa apenas ‘despeja’ o que tem de mal a dizer, já que, diz, “é mais fácil criticar do que elogiar”. “Somos movidos pela crítica fácil, por destilar raivas e angústias nossas, estamos a colocar ali [nas redes] a nossa frustração”, sublinha.

Para lá das críticas, é voz pelo empoderamento feminino

Na  música ‘Girl From Rio’, a cantora volta a trazer as favelas para o centro das atenções, numa música onde fala das suas origens e da diversidade. Para além de juntar-se a mulheres com vários tipos de corpos e voltar a mostrar o seu sem edição, com planos apertados ao rabo sem esconder a celulite. 

“Nós não parecemos modelos”, canta.

Tal como em ‘Girl From Rio’, o videoclipe de ‘Vai, Malandra’ captou as atenções de muitos pela forma como a cantora expressou e mostrou o corpo. Anitta estava 'ao natural', isto é, sem retoques de edição. 

“Eu penso nos jovens a ver uma revista ou o Instagram e a dizer ‘Como eu queria ter nascido assim. Ela é linda. A vida dela é perfeita’, e a sentirem-se mal. Para mim, há duas opções: ou os meus fãs vão saber a verdade – por exemplo, que eu sou cheia de plásticas –, ou eles vão saber que eu sou uma mentirosa”, disse em entrevista à revista Allure.

Sobre este ponto, a psicóloga Catarina Lucas não hesita em dizer que é positivo Anitta ter uma postura de transparência perante a sua imagem, o que poderá ser visto como uma forma de empoderamento e aceitação corporal para muitos jovens, mas defende que essa mesma transparência, da forma como está a ser transmitida, pode soar a “contra-senso” e dar azo a mais críticas. “Ela aqui joga com duas coisas no mesmo comportamento, por um lado mostra um lado real, mas por outro lado mostra um trabalho, mas isto nem tem a ver com a crítica da cirurgia, que ainda bem que existem, mas não deixa de ser um lado inacessível para muitas pessoas, o que pode levar a muitas críticas.”

“Não há nenhum problema com isso, com o ter sido submetida a cirurgias estéticas, mas há contra-senso”, diz, frisando que quem usa redes sociais “não está minimamente interessado em saber quem ela é”, o que quer “é informação rápida” e que seja alvo fácil de crítica.

A confiança que expressa nas letras das músicas, nos vídeos e nas atuações é dos aspetos mais comentados, mas até para isso Anitta tem resposta. “Eu só canto o que sinto e gosto de fazer. Se me sinto romântica, expresso, se me sinto sexy, também. A minha meta com a música é fazer com que nos respeitem como quisermos ser. Sensuais ou não, beijando um ou beijando seis”, disse à Efe.

Além da diversidade de corpos e da normalização das escolhas de cada um com o seu corpo, Anitta tem também sido uma voz ativa pelos direitos LGBTQI+, sendo, no entanto, muitas vezes acusada de usar a bandeira arco-íris como estratégia de marketing.

No The Tonight Show, programa de Jimmy Fallon, Anitta falou abertamente da sua vida amorosa e, tal como já tinha dito à Efe, não hesitou em falar da possibilidade de ter vários relacionamentos ao mesmo tempo, algo que acabou por levar ao aparecimento de vários comentários nas redes sociais. “Eu tenho um [homem] em cada cidade, eu viajo muito. São muitos países! Ontem, eu estava no Brasil, no dia anterior, em Los Angeles, então eu preciso ter opções. Eu sou prática! É a energia brasileira. Eu não diria que todas as brasileiras são assim, mas eu sou. Depois disso, acabei indo a Cincinnati e eu sei que eles vão ganhar [final do Superbowl] porque eu vou me certificar que ele [Tyler Boyd] tenha tido uma ótima noite antes”, disse Anitta a Jimmy Fallon.

Para Catarina Lucas, este é mais um exemplo de ideias pré-concebidas que ainda estão enraizadas na sociedade e que vão levar anos a ser desconstruídas. “A nossa primeira reação é a crítica, achar que é uma mulher mais vulgar. É o caso de que façamos o que fizermos seremos sempre alvo de crítica e quanto mais expostos pior.”

A cantora esteve há duas semanas no programa de Kelly Clarkson e a sua presença é cada vez mais frequente nos Estados Unidos - e é rara a entrevista onde não critique a indústria e a forma como a mulher é desvalorizada.

Mas o empoderamento feminino de Anitta vai além das letras das suas músicas ou das imagens que passam nos videoclipes. Num documentário da Netflix, Anitta revelou que, na adolescência, foi vítima de violação e tem usado as redes sociais para apoiar quem também já sofreu de abuso sexual, como aconteceu recentemente com a atriz Klara Castanho, que se viu obrigada a revelar que foi violada depois de a imprensa brasileira ter descoberto.

AntiBolsonaro, ou como a própria diz, Voldemort

Nos últimos meses, Anitta tem sido presença frequente em talk shows, programas televisivos e festas públicas nos Estados Unidos, como é o caso da Met Gala. A própria cantora diz que quer levar o Brasil ao mundo, mas sempre mostrando-o tal como é, sem hesitar nas críticas, sobretudo feitas ao presidente do seu país, Jair Bolsonaro. Anitta fala das favelas do Rio de Janeiro desde o início da sua carreira, nunca escondendo as suas origens - que acabam por ser um dos pontos no documentário Anitta: made in Honório

Em entrevista a Jimmy Fallon, Anitta voltou a abordar as suas raízes. “Eu quero levar o Brasil para o palco. A favela. Eu vim de uma comunidade. Sabe o que é favela?”, perguntou ao apresentador.

No seu concerto no festival Coachella, nos Estados Unidos - onde até agora tocaram poucos artistas brasileiros, menos de dez -, a cantora não só cantou com Snoop Dog, como fez do palco um espelho do que é uma favela - e o funk, música que diz querer levar ao mundo. O cenário do espetáculo da cantora foi criado pelo arquiteto Joe Rohde, autor de parte do parque Animal Kingdom, no complexo da Disney, em Orlando. Durante a performance, foram ainda feitas referências a favelas e a “paredões de som”, escreve a Veja.  

Anitta durante a sua atução no Coachella, em 2022. O cantor Snoop Dog juntou-se numa música (Photo by Amy Harris/Invision/AP)

Esta semana, Anitta marcou presença no programa Quotidien, do canal TF1, para promover o seu novo álbum 'Versions of Me', mas acabou por falar de Jair Bolsonaro, dizendo que se recusa a dizer o seu nome - trata-o por Voldemort. “Ele não representa de jeito nenhum os brasileiros", disse, pouco depois de o ter chamado “racista”. Na entrevista, Anitta falou em português e francês.

Já este fim de semana, em Lisboa, e em declarações aos jornalistas, Anitta voltou a alertar para a situação da Amazónia, dizendo que, atualmente, “é uma terra de ninguém”.

No entanto, a postura crítica de Anitta, sobretudo contra Bolsonaro, já deu origem a um hashtag no Twitter usado, maioritariamente, por apoiantes do presidente brasileiro: #AnittaMentirosa.

“Associamos a imagem de credibilidade e seriedade a um perfil um pouco mais sóbrio, são preconceitos que temos, é quase como se as duas imagens [Anitta e seriedade] não fossem compatíveis, quase como se uma pessoa culta e séria, que defende causas, não é compatível entre aspas com alguém que exibe o corpo desta forma”, diz a psicóloga Catarina Lucas.

Mas porque é que Anitta é alvo fácil de crítica até mesmo quando expressa a sua opinião política? Mais uma vez, conclui a psicóloga, “mais do que ser mulher ou bem-sucedida, isso está associado a este lado profissional dela, a este tipo de exposição que não é tão associada à seriedade, a quem faz crítica política. Muitos pensam que uma pessoa que dança e se veste assim não tem capacidade política.”

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