Nem todas as amizades são boas, algumas são tóxicas. Aprenda a identificá-las e siga estes passos para se libertar delas

2 out, 12:00
pessoas, sombra, telemóvel. Foto: Richard Baker / In Pictures via Getty Images

Não há um padrão certo para todas as relações, mas há traços de personalidade e comportamentos que caracterizam as amizades tóxicas. E há um caminho a seguir quando se quer afastar delas

Começa com um comentário desapropriado, depois vem uma crítica. Seguem-se as interrupções constantes, a desvalorização do que se ouve e a entrada numa órbita, como se a conversa entre duas pessoas não passasse de um monólogo.

“Às vezes nem nos apercebemos de que entramos numa amizade tóxica. Não somos só afetados pelas relações amorosas, que é a percepção mais comum. Somos afetados pelas [relações] familiares, de trabalho e por relações de amizade. Nem paramos para pensar nas nossas amizades, elas surgem de uma forma espontânea e vão-se sustentado de emoções positivas.”

Marta Calado, psicóloga na Clínica da Mente, não hesita em dizer que “uma verdadeira amizade é a que nos enche de entusiasmo”, mas nem sempre é isso o que acontece. “Há amizades que, com o tempo, nos apercebemos de que nos subtraem mais do que energizam, há um desgaste e cansaço associado à interação com alguém. Isso pode tornar-se disfuncional ou doentio, torna-se mesmo emergente analisar o que está a acontecer e cortar esse vínculo”, continua.

Apesar de associarmos as relações tóxicas aos relacionamentos amorosos, familiares ou até mesmo laborais, a verdade é que a toxicidade pode também afetar a amizade, aquele núcleo de pessoas que nos são próximas e a quem tendemos chamar de “a família que escolhi”. Na verdade, não é assim tão incomum vivermos rodeados de pessoas que, em algum momento, não nos fazem sentir bem, nos deixam tristes, desanimados e até, por vezes, com a autoestima arruinada. E também não é assim tão incomum mantermos a proximidade, o contacto e o convívio com essas mesmas pessoas. Por vezes, somos nós próprios o íman. “Será que somos nós que nos anulamos para que a outra pessoa se sinta bem, porque não queremos perder aquela amizade?”, questiona Marta Calado.

O que nos leva a ficar numa amizade que sabemos – e sentimos – que não nos faz bem? Em primeiro lugar, destaca Diana Gaspar, “é difícil tomar consciência de que [a amizade] é tóxica”, pois tendemos sempre a achar que aqueles comentários, críticas e desvalorizações são apenas uma fase ou até que a culpa é nossa. “O que acontece é que entramos em determinadas amizades para, de alguma forma, preencher alguma necessidade nossa, de sermos aceites, de gostarem de nós, porque sentimos que se não tivermos aqueles amigos vamos ficar sozinhos”, continua a psicóloga.

“Acabamos por nos submeter a uma série de comportamentos e manipulação, porque tememos perder aquele relacionamento. Há uma necessidade inconsciente de pertença, de que alguém goste de nós. É o que mais ouço em consulta, “mantenho-me perto porque, se não o fizer, fico sozinha. Porque mais ninguém vai gostar de mim."

Ana Valente destaca traços de personalidade que podem estar associados à tendência de manter relações tóxicas ou até à dificuldade em sair delas: “medo de rejeição e dependência”. “A fragilidade emocional dificulta a rutura com esta pessoa [que é tóxica], mas, muitas vezes, também as amizades duram porque estas personalidades combinam”, diz.

“Relações tóxicas e amizades tóxicas todos podemos ter. Só se mantém quem tem medo de perder, quem tem uma necessidade grande de aceitação, baixa autoestima, dificuldade em colocar limites, dizer o que sente e pensa”, reconhece Diana Gaspar.

Os sinais de alerta

Não há um padrão certo para todas as relações, mas há traços de personalidade e comportamentos que trazem toxicidade entre as pessoas. Por norma, a toxicidade é praticada por um dos elementos e pode ser motivada por vários fatores: personalidade, inveja, ciúmes, entre outros. Já para a continuidade dessa amizade, é como o tango, são sempre precisas duas pessoas: a que puxa para baixo e a que se deixa puxar, seja por vontade própria ou pelo medo de ficar sozinha, por compaixão ou por incapacidade de traçar limites e sair. 

Mas, se não há um padrão certo para as amizades tóxicas, há sinais que se tornam cada vez mais claros no amigo que traz essa toxicidade. Marta Calado dá como exemplo de amigo tóxico “alguém que está sempre na tendência para a vitimização, para ter a atenção, ser o sofredor das situações. Por mais que tentemos ajudar, a pessoa não sai da postura de lamúria e ficamos sempre naquele mood e ambiente de mal-estar. Isso afeta-nos, levamos com essas doses de manipulação e estamos naquele ambiente”.

Mas uma amizade tóxica pode também ser protagonizada pela pessoa “que está numa crítica consistente em relação ao que vestimos, dizemos, fazemos, faz comentários depreciativos. Isso magoa e faz-nos sentir diminuídos. Se estivermos sempre em julgamento, sentimos-nos humilhados”.

“Quando há inveja, quando se desprestigia vitórias e conquistas, não se reconhece o esforço e se procura ele próprio destacar-se e fica incomodado com o sucesso e felicidade do amigo”, isso são também sinais de toxicidade, que “derrubam a auto confiança". "Estamos sempre numa amizade de disputa”, continua Marta Calado.

“Estas relações são pautadas por algum tipo de manipulação, aquela sensação de que temos de fazer e dar algo em troca senão somos colocados em causa. As relações verdadeiras devem ter frontalidade, mas sem crítica e julgamento, mas o que acontece [nas amizades tóxicas] é quase uma relação hierárquica em que alguém parece que tem mais poder”, descreve a psicóloga Diana Gaspar.

Quando estamos perante uma amizade tóxica, mais explícita ou implícita, continua a psicóloga Ana Valente, “esta é pautada por comportamentos que não se esperam da amizade: não há valorização dos sentimentos, a pessoa foca-se nas suas próprias necessidades e não nas nossas. São amizades que a nível público nos podem expor no que consideramos ser os nossos erros, vulnerabilidades e fragilidades. Por vezes, há violência psicológica e emocional”.

Uma amizade que nos diminui. As consequências de estar perto de pessoas tóxicas

“Quanto mais precoce são as amizades tóxicas, mais consequências isso tem no futuro”, alerta Ana Valente, que diz que é recorrente receber em consultórios pessoas que procuram ajuda por causa deste tipo de relações. E até pais, que assistem a mudanças de comportamento por parte dos filhos associadas às amizades que têm. 

“Tenho bastantes situações destas em adultos e já muitos pais nos pedem ajuda para adolescentes que têm relações tóxicas e têm níveis mais baixos de felicidade”, adianta.

Em 2015, um estudo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, com 122 adultos saudáveis, ​​descobriu que aqueles que já tinham tido experiências sociais negativas, incluindo amizades prejudiciais, apresentavam níveis mais altos de proteínas pró-inflamatórias que poderiam levar à depressão, hipertensão, aterosclerose, doença coronariana, diabetes e cancro. Marta Calado diz que uma relação tóxica de amizade pode mesmo ser um gatilho para estados de ansiedade.

Diana Gaspar, autora do livro Atrai Pessoas Fantásticas para a Tua Vida (editado em 2017 pela Manuscrito), diz que “as consequências para as pessoas mais vulneráveis e com mais dificuldade em falar sobre si acabam por ser muito maiores” quando estão numa relação tóxica. Mas, de um modo geral, as amizades tóxicas podem “colocar a saúde mental da pessoa em causa. Sente-se manipulada mas não consegue sair". "Pode ser altamente destrutivo”, continua, adiantando que viver uma amizade tóxica pode ainda “influenciar as relações futuras”. “Quando é traumático, pode-se achar que não há amizades verdadeiras, fica sempre uma desconfiança em relação aos outros. A pessoa acaba por ter mais dificuldade em relacionar-se, entregar-se e ser verdadeira. Entra em padrões de autodefesa grandes”.

A psicóloga e autora diz que traçar limites, seja no início da amizade ou já perante a toxicidade, ajuda a atenuar o mal-estar ou até a prevenir ações tóxicas. “Se desde o início deixar claro que me sinto desconfortável com algo, a probabilidade de me envolver numa relação tóxica com consequências graves é muito menor.”

Um círculo vicioso difícil de quebrar

Sair deste tipo de relação é o caminho apontado pelas três psicólogas como o mais acertado para zelar pela saúde mental, emocional e psicológica, e, por vezes, o afastamento gradual pode ajudar nesse processo, seja no fim da amizade ou até na avaliação da mesma. De qualquer modo, dizem as especialistas, o segredo está em olhar para si mesmo, colocar-se em primeiro lugar, mas, primeiro, há que tomar consciência da situação em que se encontra e que há amizades que mudam. “É possível que uma amizade que começou de forma próxima e positiva se vá transformando numa amizade tóxica”, explica Marta Calado.

“Achamos que os amigos são para sempre, não conseguimos o distanciamento emocional que nos permite ver o que a relação nos traz”, lamenta Ana Valente.

Diana Gaspar diz que “mais do que identificar no outro” os sinais de alarme – como não ouvir, desvalorizar, tentar sobressair, criticar – o importante é a pessoa perceber como se sente na presença do amigo tóxico. “Quando estou com aquela pessoa, como me sinto? Está sempre a falar mal dos outros, não me deixa falar, está a usar-me, faz-me sentir mal? O primeiro ponto é analisar como me sinto com aquela pessoa e quando estou sem ela, se pesado, leve, bem disposto, pressionado.”

Assim que se toma consciência de que a amizade em causa é mais prejudicial do que benéfica, “as pessoa deve pensar em si, no seu bem-estar, na sua saúde emocional, naquilo que espera de um amigo”, diz Ana Valente. “Quando não recebe [o que espera desse amigo], deve seguir caminho e procurar relações que trazem benefícios. É uma questão de responsabilidade e não de culpa ao deixar uma relação, a responsabilidade que tenho é a de cuidar de mim.”

Da mesma opinião é Diana Gaspar. “Quando identificamos que temos uma amizade tóxica e que nos mantemos nela, a responsabilidade começa a ser nossa, temos de ter um poder pessoal para escolher quem temos mais próximo e quem não queremos ter mais próximo”.

“Mais do que ficamos zangados, é aceitar que há pessoas que não “casam” com a nossa forma de ser, não temos de a adaptar a nós, nem temos de nos sentir obrigados a adaptarmos”, continua, defendendo que o fim da amizade “tem de ser um processo com paz e serenidade e não com culpa”.

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