Um Rei, um Conquistador e um Assassino encontram-se em Coura

19 ago, 17:40
Festival Paredes de Coura: atuação de The Comet is Coming (Fotos: Hugo Lima)

Encontrámos a primeira banda de Coura a dar-nos um super por do sol - há de subir aos ápices do palco da noite. Crónica sobre a mística dos concertos de fim de tarde, que acaba a convidar a primeira-ministra da Finlândia a vir no próximo ano. Se se despachar, até pode vir neste.

E ao dia #3 no Vodafone Paredes de Coura já houve primeiro avistamento de raio sónico, aliás, hipersónico, aliás um Raio de Expansão Hiperdimensional, é esse o nome do novo projeto deles, “Hyper-Dimensional Expansion Beam”, sai daqui a um mês mas já lá vamos porque já lá fomos, eles ofereceram-nos ao vivo o código de acesso, “Code” foi a música de volta de avanço tocada pelos The Comet is Coming neste fim de tarde no palco principal, diante do qual se calcaria tanto a relva com o martelo-pilão de dez mil pés que às duas da manhã a vitória do público sobre os próprios artistas se metabolizaria em ondas de pó, ao pó haverias de voltar, Coura, e temos tanto para contar hoje, minha gente, sobre pós, sobre homens danados e mulheres poderosas que dançam, sobre pop-política, sobre três concertos (dois mais um) e sobre este dia #3 que até agora foi o melhor dos três.

Esta quinta-feira que acabaria em festival da exultação da canção com L'Imperatrice começou amarela pelas seis e meia com Yellow Days e a essa hora já toda gente percebia que o dia ia ser especial porque o público assim queria. Já aqui se escreveu que o público de Coura é tão dedicado como generoso, consigo e com as bandas, e haveria de mostrá-lo de pé nebulizando pó, já lá vamos, já lá vamos.

Yellow Days é o petit nom do britânico George van den Broek, 23 aninhos de miúdo que aos 17 já editava e agora rapou a cabeça das ripas adolescentes, a depilação craniana baralha sempre as contas e George parece mais velho do que é como Billy Corgan parece mais novo. Não há mais semelhanças entre eles. Nem na voz e a voz agora é que interessa, não é voz de 23 aninhos e se fechássemos os olhos continuaríamos sem perceber quão miúdo ele é. A voz não engana na música mas engana se queremos visualizar o músico, os radialistas que contem as vezes que já lhes disseram “pensava-o tão diferente”, é instinto humano transformar som em imagem. Quando Elvis começou a cantar só havia rádio e, com aquela voz, toda a gente pensava que ele era negro.

O miúdo até trata o público por “ladies and gentlemen” mas é numa onda Motown-cool, ele entra sem medo e com vontade de curtir, aquele soul-pop-zinho bom com rock indie-psicodélica arranca a dança do público logo à primeira música e foi pena ele ter murchado um bocadinho aos 15 minutos de jogo. Reanimaria nos últimos 15, alargando o elástico do som aos ecos e da voz aos falsetes e às oscilações agudos-graves como se fossem chiaroscuros, “don’t forget what we have”, não se esqueçam do que temos, até encerrar com ataques de pânico, “Pannic Attacks”, sobre ter saudades, “And what if I miss my old friend? / They say all good things have to come / To an end”, qual é o mal de sentir saudades de um velho amigo? Dizem que todas as coisas boas têm de chegar ao fim.

Mas ainda só estávamos a começar e a aquecer para um cometa a chegar.

O cometa está a chegar

Guardem este nome, The Comet is Coming, é o primeiro Bloom do festival este ano, a primeira banda a ameaçar subir à noite nos anos seguintes – deu neste fim de tarde um concerto muito melhor que Badbadnotgood dera na noite de véspera, por exemplo.

Foi uma explosão cardíaca de som e é curioso que haja tantas palavras a dizer sobre um concerto de músicas sem letras. The comet is coming é um projeto de futurismo espacial sem turismo espacial, a própria palavra “cometa” não é daquelas pirosices propícias em Coura, é uma declaração musical e filosófica desta banda londrina de space jazz space rock psicadélico eletrónico funk afrobeat, com três rapazes que alinham com grands-noms de pseudónimo, um escolheu ser Rei, outro Conquistador e outro, pronto, Assassino cassete de vídeo: King Shabaka (o saxofonista Shabaka Hutchings), Danalogue the Conqueror (o teclista Dan Leavers) e Betamax Killer (o baterista Max Hallett).,

O cometa está a chegar porque o planeta está na rota do apocalipse, a humanidade a extinguir-se pela destruição ambiental e a colapsar na autodestruição dos extremismos e do neomodernismo relativista das narrativas sobre os factos, e só a arte oferece saída à angústia opressiva. Dan Leavers explicou-o já várias vezes, mesmo antes de terem vindo a Portugal ao Lux, em Lisboa, há três anos, antes da desdita. Eles propõem viver assumindo-se que o cometa já está a chegar e é preciso começar de novo. É por isso que vão musicalmente daqui para o espaço, com música de outro mundo, porque a ficção científica, dizem, é já o nosso presente.

Tudo isto (e o muito mais que dizem em entrevistas e os nomes das músicas e álbuns sobre a via láctea e uma cordilheira astral) seria só balelas ou, vá, uma mensagem política pós-acordem!, se não fosse a arte e a arte é a música. Mal começamos a ouvi-los lembramo-nos do poder rímico de Moon Hooch (outra banda com nome espacial, um shot de aguardente de lua ou coisa assim), mas cedo perceberemos outro cocktail, com Sun Ra, o grande Fela Kuti, jazz espiritual dos anos 80 e etc. que oscilará neste fim de tarde entre clamores extáticos e tons sombrios seguidos de novos clamores extáticos.

É um tiro de revólver, um bangue multi-enérgico que choca contra o corpo físico da matéria que somos, o saxofone desembestado prego-a-fundo, a bateria a arremessar jardas cataclísmicas e o teclista a polir o aço da rede eletrificada que une tudo aquilo, o concerto é uma viagem não ao zénite mas a partir zénite imaginado sobre um ângulo nadiral, é de lá que se observa e conta através da instrumentália garrada que testa o limite, não do suportável mas do artístico, instrumentos aos gritos à beira do precipício, mais um bocadinho e será o desastre, eles querem ir a esse limite musical para saberem onde é e nós vamos com eles, anfiteatro todo a dançar, ou serão só os corpos incapazes de não saltar?, mesmo quando entra  “Code” - a tal música de pré-lançamento de “Hyper-Dimensional Expansion Beam”, que trará sonhos lúcidos, pirâmides, anjos negros e um martelo – mais trance e synth, sempre em viagem, guardem este nome, “The Comet is Coming”, guardem este nome e desguardem-se para a música, e isto se não ouviram-viram o concerto, cá para nós o melhor do dia mesmo se nessa noite ainda havia muito para saltar e destruir a relva em pó.

Turnstile… e L’Imperatrice?

Bom, daqui para a frente é epílogo, esta crónica é sobre a mística dos concertos de fim de tarde - sobre a noite leia a Cláudia Marques Santos. Mas é preciso dizer ainda duas ou três coisas.

Que o público de Coura quer mais rock e os portugueses estão mais punk, depois dos Idles na véspera vieram os Turnstile e dançou-se e moshou-se como se não houvesse amanhã, que grande concerto eles deram aos pontapés no ar, hão de cá voltar, é certo. Quando acabaram, receámos a repetição do turnoff da véspera, L’Imperatrice tem tanto a ver com Turnstile como um caramanchão tem a ver com uma caverna. E receámos ainda mais quando vimos o que parecia uma debandada entre os dois concertos. Estávamos enganados, subiram homens suados do mosh e desceram mulheres para o crowd surfing. A banda francesa que ali se estreava em Portugal não é nada cá de casa mas impossível não levar a sério o fenómeno a que se assistiu à frente do palco, com milhares de pessoas – quase todos os miúdos, quase tudo miúdas em cima dos ombros de miúdos – a cantar as letras e a dançar em euforia um pop que nos parece a nós mais de festival da canção que de festival de música, com coreografias kitsch K-pop, mas que alegraram todos aqueles corações e, temos de reconheceram, deram um belo concerto a quem estava à frente, já entre as nuvens de pó depois da relva varada por tantas horas de dança e saltos e moshes.

Sei de uma pessoa que teria gostado lá estar, Sanna Marin, a primeira-ministra da Finlândia que àquela hora estava a ser grelhada por ter sido apanhada a dançar numa festa caseira e no dia seguinte sujeitou-se à humilhação de fazer um exame de teste de droga como se fosse um detetor de mentiras. A sério, isto está a acontecer. Apetece dizer, Sanna, vem dançar para Coura, mas teremos cuidado com a presunção de que a hipocrisia só medra alhures. É cavernícola pensar que uma mulher não pode dançar, como doida se quiser, porque é primeira-ministra. Mas antes de nos sentirmos superiores aos finos, perguntemo-nos sobre nós próprios:

Portugal sequer teria uma mulher como primeira-ministra, criada por duas mães, eleita aos 34 anos?

 

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