O amor basta? (Do chão de Coura para o céu de ALA*)

18 ago, 17:23
Vodafone Paredes de Coura (Hugo Lima)

CRÓNICA Há uma mística sobre os concertos de fim de tarde em Coura, a das inesperadas anunciações de futuras Grandes bandas, que aqui primeiro troam na idade dos porquês sangrando-nos os corações sem anestesia, e daqui zarpam imanes para anos depois, mais tarde que o fim de tarde, sagrarem respostas no palco da noite. O fenómeno ocorre de algumas em algumas edições e viemos à procura dele – e se se lhe podia chamar boom, nesta crónica vamos chamar-lhe Bloom (este texto é dedicado à poeta* que se prometeu setembro mas neste agosto nos deixou)

Dia #2 no Vodafone Paredes de Coura, depois do pequeno dilúvio da véspera em que Sam the Kid foi Noé a desarcar músicos portugueses efusivos, chegamos para o fim de tarde. Assim chegaremos todos os dias, no exercício solícito de minerar à procura de ouro: estas crónicas não são sobre o apogeu da noite (e ontem o apogeu foram os Idles), aqui vamos trocar a hora do heliocentrismo e girar à volta do por do sol, queremos descobrir as Borralheiras que ainda cantam para os pássaros: há uma mística em Coura sobre os concertos de fim de tarde, tantos foram já os óvulos voadores não identificados que nestes quase 30 anos romperam à hora dos aquecimentos e das esperanças para anos depois irromperem em megacheias. O que queres ser quando fores Grande, fim de tarde? Quero ser noite.

É por isso que esta crónica não inventa nada, encaixa-se na hora da platitude torcendo pela alteridade. O caso clássico são os Arcade Fire, 2005, toda a gente sabe a história, aqui tingiram um fim de tarde antes de serem grandes, como o relâmpago que chega antes do trovão porque a luz é mais veloz que o som. Mas é grande a lista das bandas que nestas quase três décadas nos deram concertos quando ainda tinham os nomes em letras miudinhas no cartaz e ficaram para a história do festival - “Coldplay esteve aqui”, 2000 - e para a nossa história particular – Marlon Williams, 2018, por exemplo, deu-nos o fim de tarde mais bonito, “o destino é tudo o que importa”, disse ele então aos 27 anos. Não é aos booms que aqui nos dedicamos, não é à prosperidade do PIB de cada artista, é a beleza, é à eternidade do instante que lemos em Eduardo Lourenço, e por isso vamos nomear este fenómeno cósmico que aparece de alguns em alguns anos como Bloom, palavra inglesa que adiante repetiremos e que significa florescimento, floração, eflorescência. “A minha maneira de amar-te é simples: / aperto-te a mim / como se tivesse um pouco de justiça no coração / e ta pudesse dar com o corpo” (Antonio Gamoneda)*.

Sam the Kid com Orquestra e Orelha Negra a desarcar músicos portugueses efusivos. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

“Coura é amor”

Eflorescência, cósmico, destino, óvulos voadores, megacheias, relâmpagos, mística? É sem vergonha e é de propósito que usamos palavras colcheias porque Coura também é isto, o exagero, a desmesura, a volúpia das palavras, ano após ano há lençóis de textos e frases de exaltação ao amor e à beleza, quasares, abóbadas, rizomas, iridescências, de arder a palavra e outros incêndios*, do realismo mágico sul-americano (que Alberto Manguel já explicou que é uma invenção e uma ficção europeias), do maximal-repetitivo amor amor amor.

“Coura é amor”, Coura é, para quem escreve e diz, o sonho do barroco, é a hipérbole da hipérbole*, o gongorismo 100 metros barreiras, a permissão para os bons e os maus jogos de ideias e de palavras, o Couraíso, os courações, os couraçados, os ourados, os courados, as emoções e as sensações e os sentimentos, a anáfora, a elipse, a antítese, a perífrase, a sinestesia, a aliteração, o pasmo e o pleonasmo do orgasmo múltiplo, o recorde olímpico para veludos e vermelhos, Coura é o túnel do Marão que fura a montanha mágica da palavra impudica e se dispõe a orgias létricas e elétricas, em que se fazem fiadas pela musicalidade da rima interna, onde nisso amamos e nisso nos arruinamos, “Love among the Ruins” foi o poema de Robert Browning que Bloom, Harold Bloom, escolheu como exemplo do som significante de cada palavra, “ruins” contém em si o som das ruínas, disse.

Robert Browning chamava “a minha pequena portuguesa” à sua mulher, Elizabeth Barrett Browning, porque ela era baixa e morena. E foi também por causa disso (e pelo seu amor a Camões) que Elizabeth nomeou de “Sonnets from the Portuguese” 44 maravilhosos sonetos de amor, com referências a “As Cartas Portuguesas” de Mariana Alcoforado (que irromperia trezentos anos depois no jorro fascinante de “Novas Cartas Portuguesas”*). Conta a lenda que Elizabeth Barrett Browning escondia os sonetos nos bolsos largos do guarda-pó onde não entravam pedras de Virginia Woolf, “Ama-me”, escreve Elizabeth, “Ama-me por amor do amor, e assim / Me hás de querer por toda a eternidade”*.

Foi a reputação de Coura que construiu o exagero e é o exagero que constrói a reputação de Coura. Coura nasce no campismo, nas árvores, no Tabuão, nesta vila, neste céu, Coura joga sempre em casa e só eles sabem quão difícil foi tornar isto fácil, mas Coura é hoje o festival mais fácil de gostar porque já se gosta antes de entrar, porque toda a gente está disponível ao êxtase do momento, quando o público desce a primeira ladeira já entra pronto a adorar e disponível para amar, o público entrega-se às bandas de mão beijada e as bandas saem gratas e dizem muitas vezes ôbrigádu, ôbrigádu... 

Antes do fim de tarde de ontem, mergulhando na praia pluvial, os rapazolas atiravam-se da árvore no habitual concurso de saltos, eram só rapazes até que uma miúda, estrangeira, a primeira mulher, se esgueira e mergulha de supetão e sem aviso, “como te chamas?”, perguntam-lhe, ela olha e responde: “Love”. O que há num nome?* Love. O amor é cego mas não é surdo, queremos começar de novo e resistir à rendição precoce, provar que amor não é slogan, é o espírito coletivo que se vive aqui. Daí a pergunta: o amor basta? Queremos música.

Os rapazolas atiravam-se da árvore no habitual concurso de saltos, eram só rapazes até que uma miúda, estrangeira, a primeira mulher, se esgueira e mergulha de supetão e sem aviso. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

mema. com amor aos pedaços

Na quarta-feira, o princípio do fim de tarde é de mema. A artista de Aveiro parece um pontinho final no meio de um palco tão grande e elevado, mas mema. está feliz, “fogo!...”, feliz e grata.

O concerto das seis é como o chá das cinco, um ritual agradável sem teor alcoólico e mema. cumpriu. Há algo de muito estudioso na sua música, na forma como esta aluna de conservatório aprofunda e distende os instrumentos, a guitarra como portuguesa ou a flauta como Pan, na forma como cruza sugestões de ruralidades ancestrais desse mistério chamado Beira Baixa com folk e eletrónica ao estilo FKA Twigs.

Mema. é mais interessante (e provavelmente interessada) na música do que nas letras. Em “O Devedor”, mema. pergunta retoricamente “Quem já não deve a quem? “ e termina “E se eu sou pó ao chão eu volto leve só / Mas a ti não devo nada”. Contrasto com um poema de Pedro Tamen, que também fala do lusco-fusco, “A minha morte, não ta dou”*. Como contrasto o refrão de “Perdi o Norte”, última música do concerto, que resumo:

“[Sabes que eu já não sei x3]
O que é medo da morte
Qual é a minha sorte
Perdi o norte”

Ecoa-me a “Serenata Sintética”, do brasileiro Cassiano Ricardo:

“Lua morta
Rua torta
Tua porta”

Não é propriamente a rima, mas a visualização neste poema que dele faz um dos maiores em língua portuguesa, porque desenha uma história mudando apenas uma consoante por palavra*. Às vezes basta olhar à volta, e olhar à volta em Coura é fácil, e “descascar um poema devagar / feito de amendoins, cerveja e gente”*.

O concerto das seis é como o chá das cinco, um ritual agradável sem teor alcoólico e mema. cumpriu. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

Em Coura, a adesão do público mede-se em metros de gente que dança à frente do palco. Para os cinco metros de filas de gente que dançava, mema. encontrara o norte. As outras centenas de pessoas já sentadas pelo auditório verde acima ouviam já na escalada do dia até à noite. Esperava-se Alex G.

Alex G e o amor despedaçado

Já passa das sete, este é O concerto de fim de tarde, o norte-americano Alex G sobe ao palco um pouco envergonhado, as primeiras músicas serão cantadas com o maxilar preso e a cabeça a 30 graus frente ao micro, estão uns 10, 12 metros de linhas de gente a dançar e já há pessoas abraçadas e mãos no ar em coração.

Estes sons indie e folk têm múltiplas ascendências, Alex G é como aqueles escritores que leem muito e crescem ecoando outros. Não é mimetismo, nada disso, às vezes parece até homenagem, sobretudo através das guitarras, sobretudo em curtas entradas que rapidamente se dissipam e apenas deixam reminiscências, ali é Pavement, ali é Pixies, ali alt-J, ali Sonic Youth e eu juro que ouvi um acorde do Light my Fire dos Doors.

Alex G é um caso achado de amores perdidos, de sonhos apenas sonhados, de músicas com nomes próprios, de pessoas por quem tudo promete fazer… se elas quiserem (se ela quiser), “I'd clean it for you / If you want me to” (“Eu limparei [as minha asneiras] por ti / Se tu quiseres”) em Bobby; “If you want me I'll call/If you want me to fall/I'll fall / My dream/Let me play on your team/I'm clean” ("Se quiseres eu ligo/ Se quiseres que eu caia/Eu caio/Meu Sonho/Deixa-me jogar na tua equipa/ Eu estou limpo") em Sportstar, uma das melhores interpretações da tarde. A tradução perde os duplos sentidos (fall tanto é cair como apaixonar) mas claro que se nota a repetição (em elipse no concerto) tanto do que ele fará “se tu quiseres” como do “estou limpo”, que não se refere propriamente a tomar banho.  

Foi entre estas duas músicas que o concerto melhorou. A meio, Alex G. sentou-se ao teclado para tocar uma ou duas coisas que tinha aprendido em Portugal (disse ele), soltou a camisa das calças e soltou o corpo do corpete invisível com que entrara, começou a rir-se, começou a bascular, deu-nos uma segunda parte bem boa, “Every day Is a blessing As I walk Through the mud” (“Cada dia é uma bênção Enquanto caminho através da lama”), este rapaz sofre e partilha a dor connosco, quase sempre pelo que não fez, não conseguiu, não ousou, não ganhou ou perdeu (“Amor, amor / que está ferido/ Ferido de amor fugido”, Garcia Lorca*). É o que fará também em SugarHouse, que muita gente canta com ele, “Baby, I've been a good boy / But sometimes I can't keep it straight / Feels like I'm always waiting / For another chance to play the game” (“Querida, tenho sido um bom rapaz/ Mas às vezes não consigo manter as coisas direito / Sinto que estou sempre à espera / Por outra oportunidade de jogar o jogo”).

O amor não basta a Alex G, porque é só seu e é só ele. “E se perdeu de amores / por inércias e corpos”*, ou talvez por inépcias e copos, acaba o fim de tarde com ele a falar-nos de beleza, “isto é lindo”.

Mas tenho uma pergunta para ti, Alex G, e a pergunta nem é minha, é de Langston Hughes*:

“O que acontece quando se adia um sonho?
Será que ele seca
Como uva passa?
Será que inflama como ferida -
E depois apodrece? (…)
Ou será que explode?”

Alex G é um caso achado de amores perdidos, de sonhos apenas sonhados, de músicas com nomes próprios, de pessoas por quem tudo promete fazer… Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

Idles e o amor aos pontapés, Beach House só por amor

Explodiriam os Idles e nós com eles. Sobre a noite leiam a crónica do Cláudia Marques Santos, está lá tudo. Os Idles foram tão poderosos que descentraram tudo o que houve antes e tudo que houve depois.

Antes, os Badbadnotgood cantaram pelas 21 horas para um anfiteatro cooperante porque Coura é sempre assim, disponível, mas a meio já metade olhava para o relógio a pensar no que vinha a seguir, pedia-se mais rock antes do punk.

E depois (vamos já arrumar o depois) viriam os Beach House, numa espécie de canção de embalar prolongada para o período refratário depois da pujança dos Idles. Os Beach House não estiveram muito bem nem muito mal, começaram pela seca severa do último álbum mas felizmente rodaram dez anos para trás e foram a “Bloom”, Bloom, álbum que visitariam mais vezes, sempre as vezes melhores do concerto, quando o céu estrelava sobre nós e sobre o mito. Em Myth, Victoria Legrand perguntará “What comes after this? Momentary bliss Consequence Of what you do to me. Help me to name it. Help me to name it”: “O que vem depois disto? Do êxtase momentâneo, Consequência do que me fazes. Ajuda-me a dar-lhe um nome. Ajuda-me a dar-lhe um nome". O que há num nome?

Os Beach House são hoje adoráveis e previsíveis, em 2012 deram no Primavera um concerto inesquecível que parecem ter entretanto esquecido, mas nós damos e daremos a próxima oportunidade, mesmo se “Também morre o florir de mil pomares / E se quebram as ondas no oceano” (Sophia)*. Alex Scally apontará para o céu, “estou a ver Júpiter e Saturno”, mostra, mas nós já lá tínhamos os olhos há muito. “Repara, meu amor: são duas da manhã / e eu ainda aqui a começar”*.

Pronto, e foi entre estes que chegámos à noite impura e dura com Idles. Idles partiram tudo, partiram o relógio, partiram o mundo neoliberal e o submundo dos fascismos, partiram as ventas aos xenófobos (“do not let the cunts win”), e partiram corações, “you’re fucking magical!”, até a tocar de soqueira e a cantar com os dentes no céu da boca eles falaram de gratidão e de amor, de superação e de afetos com as veias de fora, obrigado por nos fazerem sentir bem-vindos ao vosso “beautiful fucking concert”, obrigado, sentimo-nos seguros nos vossos braços, vocês fazem-me sentir como se eu pudesse morrer seguro, disse Joe Talbot à frente do mosh pit, a rendição foi recíproca, é o público que o salma muitas vezes e ele precisa de salvar-se talvez vezes demais. “This is my favorite place in the world. Your love has not been surpassed”.

Este é o meu lugar preferido no mundo. O vosso amor não foi superado.

Os Idles foram tão poderosos que descentraram tudo o que houve antes e tudo que houve depois. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura
“This is my favorite place in the world. Your love has not been surpassed”. Foto: Hugo Lima/Vodafone Paredes de Coura

* O asterisco é o sinal gráfico do teclado mais parecido com a estrela. Todos as estrelas deste texto citam Ana Luísa Amaral, poemas seus e intervenções, ou poemas de outros que me (nos) ensinou a ver no programa “O Som que os Versos Fazem ao Abrir”, com Luís Caetano na Antena 2, e cujos episódios podem ser ouvido em podcast. No último episódio antes de férias, do final de junho, um episódio sobre poemas de amor, Ana Luísa Amaral despede-se complementando o grande Luís Caetano, que anuncia reencontro para Setembro: “Para setembro, Luís. Está combinado.”

Obrigado, Ana Luísa, obrigado por tudo, e afinal, Ana Luísa, é como disse, vergonha é não amar, “amar nunca é uma vergonha. Amar é amar”, e sim, “somos nós que construímos o mundo”, em Coura ou em Júpiter ou... Dedico-lhe este texto, como quem olha um fruto de uma das Quatro Árvores da sua Emily Dickinson. Ana Luísa Amaral, que tinha amar no nome - mas “o que há num nome?” -, já não ficou para setembro, como se prometera, mas ficou para todos os nossos agostos. “Extirpado o nome, ficará o amor”

“como o seu perfume:

ingovernado                 livre”

 

Todos as estrelas deste texto citam Ana Luísa Amaral. Fotografia: Barbara Zanon via Getty Images

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